Nações Unidas pedem medidas de quarentena racionais

Estados norte-americanos que declararam uma quarentena obrigatória para o pessoal de saúde a regressar dos países africanos atingidos pelo ébola alvos de críticas.

Pessoal da saúde fardado com o vestuário de protecção contra o ébola no Hospital de Elwa, em Monróvia, Libéria
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Além dos óculos, máscara e viseira, as equipas do INEM usam em cima desse material também uma cógula protectora. AFP

Anthony Banbury, o chefe da Missão de Resposta de Emergência ao Ébola das Nações Unidas (UNMEER), apelou esta segunda-feira para que as medidas de quarentena impostas aos profissionais de saúde que regressam aos seus países – vindos de África Ocidental, onde estiveram a combater a epidemia de vírus de ébola – sejam baseadas em critérios científicos e não em sentimentos de histeria, noticiou a agência Reuters.

Banbury estava a fazer referência à situação criada nos estados norte-americanos de Nova Iorque, Nova Jérsia e Illinois durante o passado fim-de-semana.

Na sexta-feira, os governadores daqueles estados decidiram impor uma quarentena obrigatória a todos os profissionais de saúde que regressassem da Serra Leoa, Libéria e Guiné-Conacri, os três países mais atingidos pela epidemia de ébola, onde o vírus já infectou mais de 10.000 pessoas e matou quase 5000.

Isto aconteceu um dia depois de um médico nova-iorquino da organização Médicos sem Fronteiras, que poucos dias antes regressara da Guiné-Conacri, onde estivera a tratar doentes com ébola, ter começado a apresentar sintomas – e de os testes terem revelado a presença do vírus no seu organismo.

O facto deste médico, Craig Spencer, ter circulado livremente na cidade de Nova Iorque quando ainda não apresentava sintomas da doença gerou um tal clima de ansiedade que tanto Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque, como Chris Christie, governador da Nova Jérsia, anunciaram que qualquer pessoa que entrasse no seu território nessas condições seria sujeita a uma quarentena obrigatória de 21 dias (o prazo máximo de incubação do vírus de ébola).

Mas as críticas e os problemas surgiram rapidamente. A própria Casa Branca declarou em comunicado, no domingo, que este tipo de medidas, sem fundamentos científicos, poderia ter consequências indesejadas sobre os esforços de luta contra o ébola na fonte. “Tudo o que possa dissuadir os profissionais estrangeiros de ir para a África Ocidental para se juntar à frente de luta contra o ébola seria muito, muito infeliz”, ecoou na segunda-feira o já referido responsável da UNMEER.

Entretanto, Kaci Hickox, uma enfermeira norte-americana que aterrou no aeroporto de Newark (Nova Jérsia) na sexta-feira, vinda de África Ocidental, foi questionada pelas autoridades durante horas e hospitalizada quando começou a ter febre (devido, segundo ela, ao seu estado de irritação extrema). E no domingo, os seus advogados anunciaram que ela iria apresentar uma queixa contra sua colocação em quarentena, alegando tratar-se de uma violação dos seus direitos constitucionais.

Na segunda-feira, ambos aqueles estados da costa Leste dos EUA anunciaram que iriam permitir que a quarentena se desenrole em casa das pessoas visadas durante os 21 dias estipulados, ao ritmo de dois controlos médicos ao domicílio por dia. E o diário The New York Times noticiou que Kaci Hickox já foi autorizada pelas autoridades de Nova Jérsia a regressar ao seu domicílio, no estado de Maine, onde as autoridades de saúde locais farão o que entenderem ser necessário.

Do outro lado do Atlântico, noticiou a agência AFP, a Bélgica revelou ter interrompido, desde meados de Agosto, todas as expulsões forçadas de imigrantes para os países africanos onde a epidemia de ébola alastra. Cada expulsão por via aérea exige que pelo menos dois polícias acompanhem a pessoa expulsa – tendo por vezes de levar as pessoas até aos serviços de imigração do país. “Não podemos pôr em perigo a saúde do nosso pessoal”, explicou Agnès Reis, porta-voz da polícia federal belga.

Ainda na segunda-feira, Christos Stylianides, recém-nomeado coordenador da resposta ao ébola da União Europeia (UE), deu a sua primeira conferência de imprensa em Bruxelas. “As palavras não chegam, precisamos de uma acção colectiva”, declarou. “Não temos outra opção senão erradicar a doença [na fonte]”. Recorde-se que, na passada semana, a UE anunciou a disponibilização de mil milhões de euros para a luta contra o ébola.

“Médicos e enfermeiras são necessários com urgência no terreno e a Europa tem profissionais de saúde altamente qualificados que querem contribuir”, acrescentou Stylianides. “Para já, temos de passar de 1000 para 5000 camas o mais rapidamente possível, o que exige a mobilização de um contingente de pelo menos 40.000 profissionais de saúde.”