Porque sim

O futuro da escola

A triste demissão do secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário veio agravar a situação das nossas escolas. Imersos numa crise sem precedentes, os estabelecimentos de ensino perdem agora um interlocutor que, bem ou mal, tinha a vantagem de ser um rosto com quem as direcções das escolas falavam e que poderia contribuir para esclarecer algumas das dúvidas que as atormentam. Os motivos “pessoais” da demissão têm que ver com questões éticas, o que ensombra ainda mais o lamentável desempenho de toda esta equipa do Ministério da Educação. A substituição de João Grancho por um membro muito próximo do ministro mostra que tudo vai continuar na mesma, com a agravante de ser necessária uma nova adaptação, para alguém que não tem o mesmo conhecimento dos problemas.

Entretanto, continuam a faltar professores e os que estão a trabalhar mostram profunda desmotivação. A indisciplina comanda a sala de aula, os pais estão distantes da escola e os alunos não têm qualquer entusiasmo, deslocando-se para a escola porque é obrigatório e porque vale a pena estar com os amigos nos intervalos da “seca” das aulas. Os “assistentes operacionais”, que no meu tempo eram tratados por “contínuos” com muito mais respeito, não recebem preparação específica e entram em confronto com os alunos, reagindo de forma simétrica às provocações dos mais novos. As direcções da escola estão submersas em tarefas burocráticas e pouco mais fazem do que tentar dar resposta às dezenas de conflitos graves que ocorrem nos pátios e nas salas de aula. Não existem estratégias globais para o funcionamento da escola, nem os professores têm conhecimentos e recursos para lidar com os problemas que surgem a cada instante.

É crucial não perder os avanços conseguidos nos últimos 20 anos. Apesar das dificuldades, o abandono escolar diminuiu, a boa taxa de escolarização consolidou-se e os alunos tiveram bons resultados nos testes internacionais. Receio que esta melhoria não se vá manter, porque o ambiente que hoje rodeia a escola não é propício a um bom desempenho por parte de alunos e professores. Na realidade, o que hoje caracteriza muitas escolas é uma espécie de luta permanente entre professores e alunos, ou entre alunos e auxiliares, num ambiente de confronto permanente. A continuar assim, será negro o futuro da nossa escola.

O ambiente da escola só melhorará com um compromisso de respeito mútuo entre o professor e os seus colegas, entre os alunos e os professores e assistentes operacionais (nos dois sentidos) e entre os estudantes entre si. Este compromisso de respeito terá de ser trabalhado entre todos e construído de forma democrática, ouvindo os representantes de cada sector. Este pacto terá de ser combinado com firmeza e com um ensino moderno e interessante, que não privilegie o método expositivo por parte do professor, antes mantenha, em permanência, os alunos muito activos.

Todos os professores têm de ser treinados para lidar de imediato com as situações de violência, envolvendo os alunos e os pais. Necessitam de ter conhecimentos mínimos sobre as etapas de desenvolvimento infantil e adolescente e têm de estar aptos para envolver os pais na escola, colaborando com as estruturas de educação e da saúde na promoção de apoios específicos para os pais em crise.

É evidente que a actual equipa do Ministério da Educação não está à altura deste difícil desafio, nem os anunciados cortes no orçamento da educação permitirão a mudança necessária.