Estudo revela dados preocupantes sobre excesso de velocidade nas auto-estradas e cidades

Reduções pouco significativas ou aumentos dentro das localidades é o que mais inquieta o Governo e a Prevenção Rodoviária Portuguesa.

O excesso de velocidade é comum nas estradas portuguesas
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O excesso de velocidade é comum nas estradas portuguesas Pedro Cunha/Arquivo

A maior parte dos portugueses conduz acima dos limites de velocidade nas auto-estradas e nalgumas vias urbanas, segundo um estudo da Prevenção Rodoviária Portuguesa. Mais preocupado com os acidentes nas zonas urbanas, o Governo diz que são as câmaras quem deve resolver o problema.

Na auto-estrada A1, entre Lisboa e Porto, a média dos carros ligeiros é de 126 quilómetros por hora (km/h) e na A2, para o Algarve, chega a 128 km/h. Quase dois terços dos condutores ultrapassa os limites.

Nas estradas nacionais, a média caiu substancialmente e os semáforos limitadores de velocidade nos trajectos que atravessam povoações estão a dar resultado. Mas dentro das cidades, ou a redução foi pequena, ou não houve ou a situação piorou.

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Estas são apenas algumas conclusões de um levantamento da Prevenção Rodoviária Portuguesa sobre as atitudes de risco dos automobilistas no país, que avalia de tudo um pouco. Milhares de observações feitas a condutores permitiram concluir que 1,8% conduziam com álcool a mais no sangue, 2,5% falavam ao telemóvel e 3,6% não usavam cinto de segurança.

O presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa, José Miguel Trigoso, alerta que, embora pequenas, estas percentagens não devem ser negligenciadas. “Temos de ter a noção de que num milhão de condutores são 25 mil a falar no telemóvel, só naquele momento”, exemplificou, na apresentação do estudo, nesta quarta-feira em Lisboa.

Outros dados: quase metade dos automobilistas observados  (46%) não utilizou o pisca ao mudar de direcção e 17% desobedeceram o sinal “stop”, mesmo havendo carros na via em que iriam entrar. Com a rua desimpedida, a taxa sobe para 85%.

E mais: quatro em cada dez automobilistas (39%) não pararam no semáforo nos três segundos depois de passar a vermelho.

“Vimos aqui indicadores muito preocupantes”, disse o secretário de Estado da Administração Interna, João Pinho de Almeida, no final da apresentação. Mas foi sobre a sinistralidade rodoviária dentro das cidades que o governante concentrou a sua atenção.

O estudo mediu a velocidade dos automóveis nalgumas vias urbanas e os resultados indicam que a média caiu apenas onde foi introduzido algum tipo de controlo. Em Lisboa, na Segunda Circular, o valor era de 78 km/h em 2004 e caiu para 73 km/h em 2013, para os veículos ligeiros. A proporção de carros acima do limite baixou de 54% para 32%. Mas na Avenida da República, a velocidade aumentou de 44 para 55 km/h e agora seis em cada dez automóveis circula acima do máximo legal. O mesmo se passa na Avenida de Roma.

No Porto, a avenida Fernão de Magalhães continua com 71% de veículos em excesso de velocidade – o mesmo valor de há uma década. Na avenida da Boavista houve uma ligeira redução de 56 para 53 km/m, mas ainda assim o limite é ultrapassado por 57% dos automóveis.

“Não conseguiremos entrar no pelotão dos dez países da Europa com menor sinistralidade rodoviária se não resolvermos o problema dentro das localidades”, disse o secretário de Estado, apontando o dedo às autarquias e dizendo que há apenas 15 planos de prevenção rodoviária nos 308 municípios do país. “Não nos adiantava instalarmos radares pelo país inteiro e depois não haver capacidade das autarquias para gerir este sistema”, acrescentou Pinho de Almeida.

José Miguel Trigoso partilha da preocupação com a sinistralidade nas cidades e explica por quê. Um carro que circule a 50 km/h e trave a 30 metros de um peão pára a um metro do mesmo. Mas se velocidade aumentar para 60 km/h, mesmo travando-se a fundo o peão é atropelado a 40km/h.

“Cerca de 55% dos mortos têm a ver com acidentes dentro das localidades”, afirma o presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa.

Onde a velocidade média está a cair é fora das localidades, não tanto nas auto-estradas, mas sim nas estradas nacionais. E o efeito é mais sentido quando há semáforos, nos casos em que as estradas atravessam povoações. No estudo, as observações foram feitas após os semáforos, para ver se haveria um efeito de contágio e a conclusão foi que sim.

Em Calvão, a sul de Aveiro, localidade que é atravessada pela EN 109, a instalação dos semáforos reduziu a velocidade média de 67 para 50 km/h e a percentagem de carros que ultrapassa o limite caiu de 92% para 39%.

O principal problema reside nas povoações muito pequenas, que o condutor mal nota que está a passar e onde não haja limitadores de velocidade. Em dois casos observados a proporção de excesso de velocidade chegou a 99%. “As pessoas passam à velocidade que vinham”, afirma José Miguel Trigoso. “Isto tem de ser pensado, porque das duas uma: ou não faz sentido que a velocidade seja de 50 km/h, ou tem de se fazer alguma coisa em relação a isto”, completa.

Onde se notou uma grande evolução positiva foi na redução generalizada da velocidade dos pesados. O presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa atribui este resultado a medidas de controlo – como o tacógrafo digital, que regista as velocidades – mas também a medidas de economia, com as próprias empresas a pensarem na redução do consumo de combustível.

Os dados do estudo estão disponíveis num site próprio criado pela Prevenção Rodoviária Portuguesa (http://observatorio.prp.pt).