O país descobre o lugar da biomassa, calor em vez de electricidade

É a maior fonte de energia renovável do país, mais do que a eólica. No passado, foi procurada sobretudo para a produção de electricidade, por causa dos subsídios à tarifa. No pós-troika, sinais de mudança aparecem. Vendem-se mais equipamentos para aquecimento e exportam-se mais peletes. Portugal destronou a Rússia como quarto exportador europeu

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No ano passado, o país exportou quase um milhão de toneladas de biomassa, sobretudo em “peletes” Rui Gaudêncio

Os casos narrados pela presidente do Centro da Biomassa para a Energia (CBE), Piedade Roberto, ao PÚBLICO ilustram a incoerência com que o país tem lidado com a sua maior fonte de energia renovável. Em 2012, a biomassa representou 13% da energia primária consumida e 6,6% da energia final - pronta a ser usada pelo consumidor -, embora este valor não inclua a biomassa transformada em calor nem em electricidade. Em termos de contributo do conjunto das fontes de energia renovável na energia primária, mais de metade (55%) tem origem na biomassa, dizem os dados da Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). É mais do que a soma da hidroelectricidade, eólica e do fotovoltaico. Apesar do lugar discreto da biomassa no ranking mediático e político, quem segue o sector e quem faz da biomassa uma actividade industrial trata-a por “ouro” e por “futuro”, especialmente a de origem florestal e agrícola.

O país ainda não tem ainda a certeza da quantidade de biomassa florestal sólida e de base agrícola que tem disponível. Há, diz Piedade Roberto, “um chamado número mágico”, que vem do “tempo em que se perspectivava a sua utilização para produzir energia eléctrica” apenas, as chamadas centrais de biomassa dedicada. O tal número: 2,2 milhões de toneladas. O CBE tem a certeza de que é superior, dando voz ao que o sector defende. “Os números de consumo e produção pecam sempre por defeito”, devido ao âmbito muito local de utilização da biomassa e que escapa, por isso, às estatísticas.

O Centro planeia fazer um estudo sobre a “verdade do número” para a Direcção-Geral de Energia e Geologia nos próximos meses. Já não é a electricidade que marca o ritmo, mas também a capacidade da biomassa produzir calor, “a preços muito mais baixos”. E não será apenas do que a floresta dá, mas também do que as vindimas e a apanha da azeitona deixam em hastes e bagaço.

Depois de vários anos de incentivo à utilização de biomassa para produção de electricidade para vender à rede, e que resultou na construção de centrais com tarifas subsidiadas e pagas pelo consumidor, o “futuro” da biomassa em Portugal é outro, “é o calor”, defende a mesma responsável. Os novos grandes projectos eléctricos que se previam pararam por imposição da troika, que também obrigou à revisão da tarifa garantida, e os sinais que chegam agora do sector da biomassa apontam para uma mudança, com iniciativas empresariais votadas a projectos de natureza mais local. Uma tendência que se reflecte no crescimento anual de 20% do volume de vendas de equipamentos (caldeiras), de acordo com dados citados pelo CBE.

Mas não só. A fileira nacional das pequenas indústrias de peletes, representada pela ANPEB-Associação Nacional de Pellets Energéticas de Biomassa, assume que está a crescer. No ano passado, o país passou a quarto maior exportador de peletes para a Europa, lugar do qual destronou a Rússia, respondendo à tendência europeia de aumento do consumo deste produto energético.

Foram exportadas 824 mil toneladas de biomassa em 2013, mais 35% do que no ano anterior, no valor de 111 milhões de euros, de acordo com a DGEG. Foram sobretudo peletes para aquecimento para os países da Europa central. A ANPEB estima que a produção de peletes para 2014 será de um milhão de toneladas. O presidente da associação, Eduardo Ferreira, saúda o dinamismo do sector, mas adverte para o risco de um sobreinvestimento neste mercado. Já o secretário de Estado da Energia, Artur Trindade, salienta ser este um dado “representativo do esforço que a indústria está a fazer para reagir às adversidades”.

Uma grande diferença em relação ao passado é que o novo fôlego da biomassa vem do regime livre. Até às restrições impostas pela troika, as tarifas incentivavam o investimento em centrais dedicadas (desperdiçando o calor) em detrimento de aplicações mais eficientes como a cogeração ou a produção de calor. O maior produtor nacional de electricidade a partir de biomassa, o grupo Portucel Soporcel, admitia no início de 2012 que nos anos anteirores tinha investido mais em centrais dedicadas do que em cogeração a biomassa por causa da tarifa superior que recebia, apesar destas terem rendimentos inferiores (de 30% contra 70%).

Na região de Mortágua, no espaço de poucas centenas de metros, situam-se a central dedicada (só para produção de electricidade) de Mortágua e uma fábrica de peletes. De um lado, o condensador da central emite para o ar o calor desperdiçado na queima da biomassa. Do outro, a chaminé da fábrica emite vapor de água fruto da secagem da madeira entretanto transformada em peletes. O calor rejeitado pela central, eventualmente aproveitado pela fábrica, permitiria uma cogeração com o triplo do rendimento energético, logo mais barato. E a fábrica não precisava de queimar lenha para secar a madeira. As centenas de metros que separam as duas pequenas unidades separam-nas também do que o sector começa a acreditar que é o futuro: o aproveitamento do calor.

Notícia corrigida a 20/10/2014, às 19h30. Corrige peso da biomassa na energia primária e final.

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