O tempo e o modo

O ressentimento, o rancor, o puro ódio que se acumularam – e que as cenas dos políticos dia a dia acirram – não desaparecem com o falso alívio que o Orçamento pretende trazer.

A crise que nos sufoca desde 2011 também interrompeu, ou suspendeu, a vida de milhões de portugueses: velhos, novos, na idade da força e na idade da fraqueza. Os mais novos perderam o entusiasmo e a curiosidade por um futuro independente e adulto. Os mais velhos perderam a tranquilidade de uma existência relativamente segura e, às vezes, confortável, tremendo, à espera do próximo desastre. O grosso do país, mesmo a parte que não sofreu directamente estados de irremediável carência (e essa é pequena), ficou mutilado; por outras palavras, permanentemente diminuído. O que talvez tivesse sido sem a crise será a medida de tudo o que vier – e é uma medida implacável para os sábios que nos trouxeram aqui, em nome de uma lógica que ninguém percebe e por que ninguém se interessa.

O ressentimento, o rancor, o puro ódio que se acumularam – e que as cenas dos políticos dia a dia acirram – não desaparecem com o falso alívio que o Orçamento pretende trazer. Nada de fundamental mudou e principalmente não mudou a maneira como a nossa vida se cozinhou em reuniões secretas, de que simbolicamente não conseguimos saber coisa nenhuma. A cena, de resto, conduzida e representada por indivíduos que não se distinguem pela inteligência, incluiu números de pura pornografia: a diatribe do primeiro-ministro contra o “fanatismo orçamental”; a “fiscalidade verde” para seduzir uma população sem trabalho e uma juventude sem carreira; e a junção a essa sopa turva de uma súbita preocupação com a natalidade para sublinhar os pequenos descontos no IRS, que supostamente exprimem o amor do Governo pela Pátria e pela família. O Orçamento não chegou a tempo, nem veio num modo susceptível de amansar o putativo eleitorado de 2015. A julgar por ele já não está em causa a sobrevivência da maioria, está em causa a sobrevivência do PSD e do CDS.