Opinião

Cartas à directora

Filipe Oliveira Dias (1963-2014)

Não estava nada à espera desta notícia...  A da morte prematura, aos 50 anos, do dinâmico e empreendedor arquitecto Filipe Oliveira Dias, autor de projectos como os teatros de Vila Real, Bragança e Helena Sá e Costa (ESMAE, Porto).
Fiquei chocada... 
Conheci-o há dez anos (no seu atelier em frente do Palácio de Cristal) – justamente no mesmo ano em que inaugurou o Teatro Municipal de Vila Real –, no âmbito da minha tese de mestrado sobre Arquitectura, Música e Acústica (edição da FaupPublicações) e, por isso, não podia deixar de procurar entrevistá-lo, para quem a função de um edifício é essencial. Daí a qualidade da acústica dos seus teatros. Para Oliveira Dias, "a acústica é um dos elementos fundamentais desde o início da concepção de uma sala de espetáculos (auditório, teatro, etc.) e tem que ser uma disciplina iniciática, sendo que as necessidades da acústica determinam muitos aspetos da sala. Ela incide em todos os pormenores da construção, como as próprias cadeiras". Este arquitecto, como poucos, tinha a consciência de que a arquitectura pode "liquidar" uma obra musical.
Morreu, portanto, um jovem arquitecto "musical" que muito podia fazer ainda pela qualidade acústica das nossas salas de concertos e espectáculos... Ficam, com certeza, os seus ensinamentos e muita obra levantada, testemunho de que é possível fazer mais e melhor neste país!
Serve esta carta, ainda, para endereçar os meus mais sinceros sentimentos à família e à equipa que trabalhou com ele no seu atelier.
Céu Mota, Santa Maria da Feira 

Carta de Moscovo

Tinha estado em Moscovo em 1985, início do curto mas muito relevante consulado de Gorbatchov. 29 anos depois, muita coisa mudou. A uma sociedade fechada sucedeu uma aberta. A Internet e o acesso generalizado ao Wi-Fi em lugares públicos, designadamente no extenso metro, marcam a diferença, como certamente o fizeram em Nova Iorque ou Paris. O número de veículos automóveis aumentou tanto que as vias de comunicação da capital, do tempo de Estaline, apesar de largas e bem planeadas, são insuficientes. A classe rica e muito rica exibe automóveis que só encontram semelhante nível nos Emirados Árabes Unidos. Uma coisa permanece imutável, e que agrada sempre a qualquer viajante. A segurança quase total. As pessoas circulam até nos transportes públicos com os seus dispendiosos dispositivos móveis à vista, sem qualquer receio.
Continua a existir ordem e autoridade. Agora em democracia. Uma falha (grave) tenho que apontar, no que aos eventuais turistas diga respeito. Só se fala em russo, e só se escreve em russo. Só episodicamente, em algum espaço cultural importante, se condescende com um folheto ou apontamento escrito normalmente em inglês. Em restaurantes para a classe média alta, mesmo entre empregados jovens, não existe alternativa ao russo. Nas ruas, nos táxis, em todos os restantes estabelecimentos comerciais populares (o centro comercial GUM, na Praça Vermelha, é excepção, pois é para ricos), só se fala russo. Foi o primeiro país do mundo que conheci, desde a Europa às Américas do Norte e Sul, África, Ásia "não inglesa", em que só se adopta a língua nativa. Será que as autoridades não estão interessadas em facilitar o turismo de estrangeiros, só quererão os nacionais?
Manuel Martins, Moscovo