Verdi no coração das trevas

Cinco milhões e meio de mortos à conta do iPhone que temos no bolso e não sabemos o nome de nenhum deles. Brett Bailey resgatou-os dos confins da República Democrática do Congo e chamou-lhes Macbeth. Nome de ópera, nome de guerra.

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MORNE VAN ZYL/BRETT BAILEY
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É estupidamente cor-de-rosa a selva nos confins da República Democrática do Congo, ali onde o país anteriormente conhecido como Zaire vive ensopado em sangue – e sim, estamos a usar a palavra cor-de-rosa para descrever esse fim do mundo onde nos últimos anos 20 anos se amontoaram 5,5 milhões de cadáveres em meia dúzia de notícias que nunca fizeram nem farão primeira página (danos colaterais da “normalização” do Ruanda, e da continuação da violência entre tutsis e hutus por outros meios, agora que ninguém está a olhar, com uma ajudinha das multinacionais que fabricam componentes para iPhones e outros gadgets sem os quais a vida, ao que parece, deixou de ser possível).

Agora a sério: é mesmo estupidamente cor-de-rosa a selva nos confins da República Democrática do Congo. Mais a sério ainda: podemos dizer tudo o que quisermos sobre os confins da República Democrática do Congo, para todos os efeitos a zona de guerra mais indocumentada do século XXI. Podemos dizer, por exemplo, que na primeira metade deste ano, fugindo a mais uma carnificina entre duas das muitas milícias em acção no Kivu do Norte, um grupo de refugiados encontrou uma mala com figurinos, adereços, programas e gravações de uma ópera ali representada no princípio do século (e se for preciso acrescentar detalhes para tornar esta história mais credível, sabemos o nome da ópera: Macbeth, na versão de Giuseppe Verdi que teve a sua estreia em Florença em Março de 1847). E ainda podemos dizer que por os fins justificarem os meios, até os meios mais excêntricos, esse grupo de refugiados reencenou essa mesma ópera e a levou em digressão à Europa para conseguir mais algumas – não muitas – linhas de atenção na imprensa internacional.

É tudo verdade – a selva nos confins da República Democrática do Congo, que as experiências em Aerochrome do fotógrafo irlandês Richard Mosse tornaram cor-de-rosa (“É um meio muito excêntrico. Achei que podia pôr-me na posição terrivelmente desconfortável de não saber o que estava a fazer, que é uma óptima posição para um artista. Originalmente foi usado para revelar camuflagem inimiga [durante a Segunda Guerra Mundial], por isso perguntei-me: ‘Onde é que está a decorrer uma narrativa invisível? Qual é o lugar mais improvável para se usar este filme?’”), e esse Macbeth recriado em pleno coração das trevas, à atenção do mundo ocidental. Bom, não tudo: Brett Bailey, o sul-africano que para dar um nome reconhecível a esses cinco milhões e meio de mortos anónimos encenou a ópera que nos próximos dias 22 e 23 (quarta e quinta-feira, respectivamente) chega ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, inventou a parte em que esta história estava dentro de uma mala encontrada em Goma por um grupo de refugiados. A partir daí, é difícil dizer onde acaba a ficção e começa a realidade.
 

Sangue e telemóveis

Macbeth – uma ópera pós-colonial com música ± de Verdi é o resultado de um processo de colonização invertido: a intromissão, numa ópera europeia contemporânea dos grandes impérios coloniais ultramarinos, dos insuportáveis adereços de uma das muitas guerras pandémicas do continente africano, diamantes de sangue, crianças-soldado e importações chinesas incluídas. Maneira de dizer que não foi só a ópera – ou seja: a civilização, tal como a Europa do século XIX a entendeu – que lá deixámos. Também lá deixámos velhos edifícios em ruínas e a anomia pós-colonial que permitiu sucessivos banhos de sangue e a muito irresistível ascensão de aventureiros e senhores da guerra, braços locais (e armados) das multinacionais do petróleo e dos minerais (atraídas, no caso da República Democrática do Congo, pela abundância de diamantes, ouro, cobre, cobalto, zinco e sobretudo de dois minérios particularmente usados no fabrico de componentes de telemóveis, a columbita-tantalita e a cassiterita).

Antes de perceber que ali estava a melhor maneira de contar a história de violência e exploração da República Democrática do Congo, Brett Bailey já tinha encenado o Macbeth de Verdi duas vezes. Para todos os efeitos vivia longe, na África do Sul, onde apesar da coabitação forçada com sucessivas vagas de refugiados congoleses não se sabe muito mais acerca do que se passa no Kivu do Norte do que aqui na Europa. “E não é estranho? Não é absolutamente incrível que cinco milhões e meio de pessoas tenham morrido em 20 anos – é o conflito mais mortífero da história do continente africano, e o mais mortífero da história universal desde a Segunda Guerra Mundial – e ninguém saiba? Que ninguém saiba das centenas de milhares de mulheres violadas, das centenas de milhares de homens mutilados, das centenas de milhares de crianças deslocadas? E no entanto sabemos tanto sobre a Síria, o Iraque, o Afeganistão – apenas porque é estrategicamente mais importante”, diz-nos ao telefone, a partir de Moscovo.

Devíamos saber. Não só porque fizemos parte desta história como colonizadores, mas também porque continuamos a fazer parte desta história como consumidores, argumenta Brett Bailey: “Há uma parte deste conflito que é local, e que tem a ver com os efeitos da guerra entre hutus e tutsis no Ruanda, que se infiltrou na selva da República Democrática do Congo e ali se prolonga até hoje. Mas há outra parte que é alimentada pela forma como o nosso estilo de vida depende dos minérios que ali são extraídos. Nesse sentido, somos cúmplices de todo este sangue.” Nesse sentido, portanto, somos as bruxas deste Macbeth: “Macbeth lida com conflitos sanguinários entre tribos escocesas ocorridos há mais de mil anos. Demorei muito tempo a perceber como adaptar essa história à República Democrática do Congo dos nossos dias. Até ter tido a ideia de ver nas bruxas do texto as vorazes empresas de minérios que exploram os recursos naturais daquela região.”

Durante algum tempo, o encenador sul-africano teve “a ilusão de que podia espremer em Macbeth todo o enredo da guerra na República Democrática do Congo”. Mas, explica, “é um enredo tão complexo, com tantas camadas e tantas ramificações”, que “era impossível contar todas as histórias aqui implicadas ao mesmo tempo”. De resto, “é uma história que está sempre a mudar” – recentemente, e depois de uma vez mais o conflito ter sido dado como extinto sob a vigilância da Missão de Estabilização das Nações Unidas (MONUSCO), uma nova milícia armada, a M23, deu ostensivos sinais de actividade no Leste do país. “Não tenho sequer qualificações para dar conta disto tudo. Mas tenho qualificações suficientes para fazer uma ópera como Macbeth falar do modo como o mundo inteiro interage naquele lugar, do modo como as diferentes facções se alimentam do sangue umas das outras, e do modo como o povo, forçado a trabalhar em condições desumanas nas minas, sucessivamente instrumentalizado, sujeito a uma violência indescritível, é a única verdadeira vítima deste jogo”, conclui.
 

Todos congoleses

Para transformar este Macbeth numa história congolesa, Brett Bailey juntou um compositor belga, Fabrizio Cassol – colaborador habitual de Alain Platel nas suas aventuras com Bach e com Monteverdi, e também um explorador da tradição musical do continente africano, onde já trabalhou com os pigmeus da República Central Africana e com bailarinos de Kinshasa –, um grupo de cantores sul-africanos e a No Borders Orchestra, um colectivo de músicos dos vários países da ex-Jugoslávia dirigido pelo maestro sérvio Premil Petrovic. Mostrou-lhes textos, fotografias, vídeos e ao fim de algum tempo aquele inferno já não eram só os outros (como no nome do grupo de refugiados que, na história dentro desta história, decide apresentar uma ópera no coração das trevas). “A Bélgica tem uma relação histórica conhecida com a República Democrática do Congo. O passado de violência racial da África do Sul, e o apartheid em particular, não é assim tão diferente do presente no Kivu do Norte. E quanto à ex-Jugoslávia, os paralelismos são demasiado evidentes. É um conflito alimentado pelo medo do outro – tudo ali se joga em torno de diferenças étnicas altamente divisórias”, resume.

Bailey, Cassol e o elenco testaram a ópera ainda inacabada na Cidade do Cabo e em Kinshasa antes de a trazerem para Bruxelas. Foi assim: “Em Kinshasa os espectadores ficaram muito comovidos. O material deste Macbeth mexe profundamente com eles. Em Bruxelas, por sua vez, o que impressiona é ver como esta história de desumanização, escravatura e exploração continua a replicar-se cem anos depois da colonização belga.” Nisso, esta história é muito diferente da do Macbeth original: “Oficialmente, a ópera acaba com a coroação do novo rei depois da morte de Macbeth. Mas isso seria demasiado fantasioso à luz dos acontecimentos na República Democrática do Congo. Na minha ópera, Macbeth morreu mas as bruxas continuam vivas. Não há paz no horizonte, nem esperança no regresso à normalidade – até porque a única normalidade a que as pessoas ali aspiram é a de haver uns minutos de tréguas para enterrarem os seus mortos.” Antes de a selva voltar a ser estupidamente cor-de-rosa.