Competição do Doc arranca com os notáveis Snakeskin e Letters to Max

Num fim-de-semana de abertura absolutamente fervilhante, duas das melhores entradas competitivas do festival – duas das razões que fazem deste DocLisboa 2014 uma edição de luxo.

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Letters do Max constrói-se a partir da correspondência entre o franco-americano Éric Baudelaire e Maxim Gvinjia, ex-ministro dos negócios estrangeiros da república da Abecázia.
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Snakeskin usa como ponto de partida a história da cidade-estado de Singapura para ir progressivamente desmontando os “mitos fundadores” da sua identidade

O DocLisboa não é um festival perfeito (e, aliás, isso não existe sequer) mas é um dos melhores festivais de cinema do mundo porque as escolhas dos filmes, a concurso ou fora dele, obedecem a uma vontade de não ser apenas observador passivo e de pensar, de questionar, o que significa, hoje, contar histórias.

Nisso, o Doc é uma montra do que de mais formalmente entusiasmante e experimental se faz hoje nos chamados “cinemas do real”. E muitas das histórias patentes na sua programação diluem as fronteiras do que se convencionou definir como “documentário” e “ficção” para apenas serem narrativas que integram elementos de um e de outra.

Num fim-de-semana de abertura absolutamente fervilhante, duas das melhores entradas competitivas do festival – duas das razões que fazem deste DocLisboa 2014 uma edição de luxo - exploram de modo inteligente esse território híbrido onde a própria definição de “real” perde contornos fixos: Letters to Max, de Éric Baudelaire (Culturgest, hoje às 15h00 e quinta 23 às 21h30), e Snakeskin, de Daniel Hui (Culturgest, amanhã às 19h30 e São Jorge, sexta 24 às 19h15). Em ambos os casos, trata-se de interrogar a História a partir de um presente que abrange contornos ambíguos, num processo de questionamento que ilumina o passado de diferentes modos.

Snakeskin usa como ponto de partida a história da cidade-estado de Singapura para ir progressivamente desmontando os “mitos fundadores” da sua identidade. Faz colidir depoimentos de habitantes das múltiplas etnias que vivem em Singapura (malaia, chinesa, hindu...) numa ambiciosa “estafeta” entre histórias e personagens à sombra de uma “madalena de Proust”: um fotograma de um dos velhos filmes musicais malaios produzidos na cidade. A partir dessa imagem, e da história de uma filha que pensa reconhecer numa das dançarinas a mãe que apenas conheceu como fundamentalista religiosa, o estreante Daniel Hui constrói com um espantoso requinte audiovisual uma viagem psicogeográfica pela cidade, através de um “colar” de histórias unidas tangencialmente por uma pesquisa sobre o passado. É um filme-ensaio mais do que um documentário tradicional, mas esconde essa dimensão atrás de uma estrutura de ficção científica distópica que só aos poucos revela o verdadeiro significado.

Nesse desvendar progressivo de direcções e abordagens, Snakeskin é gémeo de Letters to Max, filme que parece começar como um documentário epistolar para aos poucos se tornar noutra coisa. Como o título indica, o filme constrói-se a partir da correspondência entre o franco-americano Éric Baudelaire e Maxim Gvinjia, ex-ministro dos negócios estrangeiros da república da Abecázia. Mas, aos poucos, vão-se revelando dissonâncias entre as cartas enviadas por Éric (figura completamente ausente do filme) e as “respostas” de Max (cuja voz é sobreposta a imagens do seu quotidiano filmadas pelo cineasta). Essas dissonâncias estendem-se ao próprio domínio da realidade: a Abecázia é um dos territórios separatistas da Geórgia, reconhecido como país independente pela Rússia (e por seis outros países) depois da guerra de 1992, mas que mais ninguém considera um estado soberano – tornando impossível ver Letters to Max sem pensar nas actuais convulsões da Ucrânia (de que o Doc falou na abertura com A Praça, de Sergei Loznitsa).

Max foi, assim, diplomata de um país que para todos os efeitos não existe, e Baudelaire explora a fundo a dimensão surreal latente em fazer um documentário sobre uma realidade concreta ancorada numa soberania disputada, levando o espectador a questionar, em última instância, o próprio filme. Aí reside o porquê de Éric Baudelaire ser um dos mais fascinantes cineastas contemporâneos, e do DocLisboa - que tem acompanhado toda a sua obra - ser o local ideal para a descobrir.