Morreu a actriz Marie Dubois, a musa de Truffaut

Trabalhou com alguns dos mais importantes realizadores da segunda metade do séc. XX. Sofria de esclerose múltipla, o que a fez desaparecer cedo dos ecrãs.

Fotogaleria
Marie Dubois em 1968 AFP
Fotogaleria
No Festival de Cannes, em 1985, a actrizes Bernadette Lafont (ao centro e à esquerda), Marie Dubois (centro à direita) e o actor Jean-Louis Trintignant (centro)
Fotogaleria
A actriz em 2003 saindo do Teatro Edouard VII

As principais estrelas da nouvelle vague podem ter sido, afinal de contas, os seus realizadores, gente como Jean-Luc Godard ou François Truffaut, talentosos e possuidores de um sentido inato do espectáculo, do espectáculo de si mesmos. Mas que teria sido deles, e da nouvelle vague, sem as musas, sem as raparigas que os inspiraram, de Anna Karina a Jean Seberg, de Bernadette Lafont a Anouk Aimée?

Uma das mais discretas destas raparigas da nouvelle vague morreu na quarta-feira, aos 77 anos, depois de uma luta de décadas contra a esclerose múltipla: Marie Dubois. Como actriz, foi mesmo uma “invenção” da geração da nouvelle vague. Já tinha feito pequenos papéis — por exemplo no primeiro Eric Rohmer, O Signo do Leão — mas foi quando Truffaut a escolheu para a protagonista feminina de Disparem sobre o Pianista (1960) que verdadeiramente nasceu uma actriz. Até o nome artístico — até então chamava-se Claudine Huzé — lhe foi atribuido por Truffaut.

A Internet permite-nos ver o Pigmalião em acção: no Youtube encontra-se facilmente o screen test que Truffaut fez à então ainda identificada como Claudine, e a graça daqueles dois minutos é inexcedível. Sobretudo o embaraço da rapariga, que tinha então 23 anos, quando Truffaut (ouvido em off) lhe pede “que o insulte”. Não se percebe só o que Truffaut viu nela, percebe-se também a que ponto Dubois correspondia, naquela mistura de luminosidade e maladresse, a um dos anseios dos jovens realizadores da nouvelle vague, o de filmarem raparigas “reais”, com quem qualquer um se pudesse cruzar num café ou num cinema, em vez de idealizações distantes.

Esse breve momento com a duração de uma longa-metragem: Disparem sobre o Pianista, terá sido o ponto alto da carreira de Marie Dubois. Que trabalhou bastante durante as décadas seguintes, até ao avanço da doença (que deu os primeiros sinais precisamente naquela época de 60) a ter impossibilitado de trabalhar, primeiro, e remetido a uma casa de saúde nos arredores de Pau, onde vivia desde 2010 confinada a uma cadeira de rodas. “Eu tinha 23 anos quando a doença se declarou. Foi depois da rodagem do filme de François Truffaut Disparem sobre o Pianista. Felizmente, esse primeiro alerta não foi muito forte e apressei-me a esquecer. Mas a doença, essa, não me esqueceu. Ela apanhou-me depois da rodagem de A Ameaça, de Alain Corneau, cerca de 20 anos mais tarde. Esses anos de pausa permitiram-me desenvolver a minha carreira sem a doença estar omnipresente”, disse a actriz numa entrevista citada pelo jornal francês Le Monde, que lembra o seu olhar melancólico desde sempre.

Um dos seus últimos papéis foi num filme de Claude Chabrol, Rien ne va Plus, em 1997. Mas encontramo-la, nas décadas de permeio, em filmes de realizadores tão importantes como Resnais, Louis Malle, Alain Corneau, Claude Sautet, Paul Vecchiali, entre muitos outros, talvez com paragem mais notável no derradeiro Visconti, O Intruso. Sensivelmente um ano depois da morte de Bernadette Lafont, é outra luz da nouvelle vague que se apaga. A sua graça, essa, é indelével.


 
Crítico de cinema