Igreja Católica admite alguma integração aos homossexuais

O documento é provisório e perspectiva uma abertura aos gay e aos divorciados.

O Papa Francisco convocou o sínodo para debater a família na sociedade contemporânea
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O Papa Francisco convocou o sínodo para debater a família na sociedade contemporânea AFP

O sínodo de bispos, que decorre no Vaticano, emitiu nesta segunda-feira um comunicado que prevê algum tipo de integração dos homossexuais na Igreja Católica.

Não retirando a condenação à homossexualidade, o texto diz que este grupo de indivíduos tem “dons e qualidades” para oferecer à comunidade cristã. E pergunta: poderá a comunidade católica “aceitar e valorizar” esta orientação sexual sem que isso “comprometa a doutrina acerca da família e do matrimónio?”.

A declaração foi lida no sínodo, que está reunido há uma semana no Vaticano (fazem parte desta reunião 200 bispos, padres e leigos) para debater a família na sociedade contemporânea e em que se previa um confronto entre as posições mais ortodoxas e de maior abertura dentro da Igreja Católica.

"Muitas vezes [os homossexuais] procuram uma Igreja que lhes ofereça um lar acolhedor. Serão as nossas comunidades capazes de fornecer isso?", diz o comunicado, que usa uma linguagem muito conciliatória para com os homossexuais e os divorciados católicos, que também são mencionados no mesmo documento.

A igreja continua a condenar a homossexualidade, mas o texto refere que há aspectos valorizáveis nas uniões civis e na coabitação. É uma grande diferença em relação à posição até agora oficial da igreja, em que se considera que estes casais vivem "em pecado".

Até as uniões gay podem ter qualidades valorizáveis, ainda que o documentorefira que estas não podem ser colocadas no mesmo plano que os casamentos heterossexuais. "A Igreja volta-se respeitosamente para aqueles que, de forma imperfeita e incompleta, querem fazer parte da sua vida, apreciando os valores positivos que aportam em vez de [se centrar] nas suas limitações e imperfeições", diz o texto que é ainda provisório.

O arcebispo Bruno Forte, secretário do sínodo, alertou para isso na conferência de imprensa em que o documento foi divulgado e disse que este pode ser alterado depois de ser submetido a maior escrutínio e ao debate dos vários pontos nele contidos. Sublinhou ainda que a Igreja Católica não pretende apoiar as uniões homossexuais ou o casamento gay, simplesmente "respeitar a dignidade de todos os indivíduos", independentemente da sua orientação sexual.

Mas para além da questão dos homossexuais na Igreja, uma das questões mais polémicas a discutir no sínodo prende-se com a possibilidade de os divorciados poderem ou não vir a ter o sacramento da comunhão, sem que o seu casamento seja anulado pela Igreja - o que raramente ocorre. O documento reconhece que os bispos estão dividos sobre este assunto, e deixa a questão em aberto, para ser debatida.

Ainda que provisório, o texto foi imediatamente criticado por sectores mais conservadores. "Os que controlam o sínodo traíram os católicos no mundo todo", disse à Reuters John Smeaton, fundador do grupo conservador Voice of the Family, para quem este é "um dos piores documentos oficiais redigidos na história da Igreja".

O relatório vai agora ser discutido, e só depois do fim do sínodo será divulgada uma versão definitva, que será discutida em todo o mundo, durante o ano que vem. Em Outubro de 2015 haverá um novo sínodo em Roma, onde haverá uma nova discussão, e no final de todo este processo será a vez do Papa Francisco indicar o caminho a seguir, em termos de doutrina.