Opinião

Ferreira Leite loves golden share

O Estado sempre teve a sua gigantesca golden pata em cima da economia, e desde D. Afonso Henriques que nada é feito sem a sua cumplicidade. Esse, sim, foi – e continua a ser – o verdadeiro problema do país.

Na TVI24, Manuela Ferreira Leite voltou a demonstrar que boa parte da direita portuguesa é apenas um mau travesti de extrema-esquerda quando se trata de expor as suas convicções sobre a economia de mercado e a livre iniciativa. “Nos sectores importantes da economia”, afirmou, “é bom haver a possibilidade de o Estado meter a mão na situação e meter ordem naquilo que não pode estar em desordem.” Do professor Salazar ao camarada Jerónimo, não há quem desdenhe tão bela manifestação de autoritarismo estatal.

Se tivéssemos muito boa vontade, poderíamos argumentar que Ferreira Leite estava a fazer a apologia de um Estado regulador, que não pode permitir o descalabro em áreas centrais da economia nacional. Infelizmente, Ferreira Leite estava apenas a falar do lastimável estado da PT, lamentando a perda das acções douradas: “Provavelmente, os problemas de gestão na origem deste descalabro financeiro podiam não ter sucedido com a golden share.”

Esta é daquelas coisas que me deixam doido: Manuela Ferreira Leite não pode estar a falar a sério quando atribui a culpa da situação actual da PT exclusivamente a más decisões do sector privado, como se os interesses do Estado e o uso que o Governo Sócrates deu à vergonhosa golden share não tivessem desempenhado qualquer papel na tragédia da empresa. Por amor da santa. O país não pode padecer de um eterno Alzheimer histórico-político, ignorando alegremente aquilo que se passou há pouco mais de meia dúzia de anos.

Mas tudo bem: se Ferreira Leite se esqueceu, eu estou aqui para a lembrar. Em primeiro lugar, convém notar como no nosso magnífico PSI20 praticamente só há empresas – retirem-se as grandes cadeias de retalho, a Impresa e poucas mais – que ou dormem com o regime (bancos, construtoras), ou são monopólios que cresceram à sombra do Estado (EDP, CTT, PT, Galp). Será por acaso que todos nós conhecemos as opiniões de Alexandre Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo ou Pinto Balsemão, mas desconhecemos em absoluto que raio pensam os donos da Mota-Engil, da Teixeira Duarte ou Zeinal Bava? Não, não é por acaso. Chama-se “liberdade”.

Em segundo lugar, parece-me inacreditável que Manuela Ferreira Leite passe uma esponja por cima da forma como a Portugal Telecom reagiu à OPA da Sonae em 2006, à venda da Vivo em 2010, ou à famosa tentativa de compra da TVI pela PT liderada pelo sábio Rui Pedro Soares, que obrigou Zeinal Bava a ir ao Parlamento fazer tristíssimas figuras enquanto protegia o Governo Sócrates. Saudades da golden share? O Estado sempre teve a sua gigantesca golden pata em cima da economia, e desde D. Afonso Henriques que nada é feito sem a sua cumplicidade. Esse, sim, foi – e continua a ser – o verdadeiro problema do país.

Quando vemos o que Bava fez na Meo, é óbvio que ele tem de ser um excelente gestor. Só que em Portugal a excelência não chega para subir ao topo: é preciso também ter uma coluna altamente flexível para fazer os necessários favores ao governo e a um bando de accionistas gananciosos para quem a PT sempre foi a caixa registadora onde iam sacar o dinheiro no final do dia. BES, Ongoing, Estado, PT – alguém pode realmente dizer onde acabavam uns e começavam os outros? Foram só os 900 milhões aplicados na Rioforte que descapitalizaram a PT? E o prémio após a derrota da OPA? E os lucros da venda da Vivo? Já estou como Belmiro: contem esta história como deve ser. E, de preferência, sem nos tomarem por golden parvos.