Congresso internacional, uma ópera e um volume de inéditos nos 92 anos de Agustina

Encontro de dois dias na Gulbenkian inclui a estreia da ópera Três Mulheres com Máscara de Ferro, baseada num texto de Agustina, e o lançamento de um volume de narrativas inacabadas.

Foto

Sessenta anos após a publicação de A Sibila, o romance que, segundo Eduardo Lourenço, marcou o fim da hegemonia do neo-realismo na ficção portuguesa, a Gulbenkian inaugura esta terça-feira o congresso internacional Ética e Política na Obra de Agustina Bessa-Luís, cujo segundo dia coincidirá com o 92º aniversário da romancista.

Organizado pelo Círculo Literário Agustina Bessa-Luís, o encontro servirá ainda de palco à estreia mundial da ópera Três Mulheres com Máscara de Ferro, baseada num texto da autora, que será apresentada na sala polivalente do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Produzida pelo Teatro Aberto, a ópera tem música de Eurico Carrapatoso, direcção musical de João Paulo Santos e encenação de João Lourenço.

As três personagens deste drama, publicado pela primeira vez no mais recente número da revista Colóquio Letras, com edição de texto e apresentação de Isabel Pires de Lima, vêm todas de livros de Agustina: a Fanny Owen e a Sibila (Quina) dos romances homónimos, e ainda Ema, de Vale Abraão.

Será ainda apresentado no congresso o livro Elogio do Inacabado, publicado pela própria Gulbenkian a estrear uma nova Série de Cultura Portuguesa, que congrega cinco narrativas inéditas escritas no período em que Agustina planeava um ciclo de romances intitulado A Bíblia dos Pobres, do qual acabariam por sair apenas Homens e Mulheres, em 1967, e As Categorias, em 1970.

À excepção da narrativa Coração-de-Água, que a autora concluiu mas não publicou, todos os outros textos agora reunidos neste volume, prefaciado por Silvina Rodrigues Lopes, foram deixados inacabados. O primeiro, Homens e Mulheres, é uma primeira versão do seu romance homónimo. Seguem-se As Grandes Mudanças e o já referido Coração-de-Água, e ainda dois textos que partilham, com variações mínimas, o mesmo arranque e os mesmos protagonistas: O Caçador Nemrod e Os Meninos Flutuantes.

Faltam traduções inglesas

Logo após as intervenções iniciais de Marçal Grilo, administrador da Gulbenkian, e de Mónica Baldaque - na revista <i>2</i> do PÚBLICO  deste domingo, a filha de Agustina Bessa-Luís fala do riso da mãe e do estado de alheamento em que a autora vive há oito anos-, caberá a Eduardo Lourenço fazer a conferência de abertura do congresso, o primeiro que se dedica em Lisboa à obra de Agustina.

Ocupando duas salas em simultâneo, o encontro reúne cerca de quarenta investigadores, entre os quais se contam alguns dos autores que mais se têm dedicado a estudar a obra de Agustina, como Silvina Rodrigues Lopes, Álvaro Manuel Machado, Laura Bulger ou a francesa Catherine Dumas, que em 2011 co-organizou em Paris o colóquio Agustina Bessa-Luís Audaces et Défigurations.  

Autora de quase meia centena de romances e novelas, e ainda de peças de teatro, livros para crianças, ensaios, volumes de crónicas, e outros escritos, Agustina Bessa-Luís, que recebeu o Prémio Camões em 2004, é um caso singular na literatura portuguesa actual, quer pelo seu talento de narradora, quer pela torrencialidade da sua produção ficcional. António José Saraiva, numa carta a Óscar Lopes, coloca-a mesmo acima de qualquer outro prosador de língua portuguesa desde Fernão Lopes. Um juízo que não é preciso partilhar para se reconhecer que não é fácil pensar noutro romancista português da segunda metade do século XX a quem o sempre equívoco adjectivo genial pareça aplicar-se com tanta propriedade e naturalidade.

No entanto, são ainda relativamente escassos os estudos de fundo sobre a sua obra, e se conta hoje com um razoável acolhimento em países como a Alemanha, onde é bastante lida, ou a França, onde beneficia também da admiração dos franceses por Manoel de Oliveira, que adaptou muitos dos seus livros, é ainda uma quase desconhecida no mundo anglo-saxónico.

Isabel Pires de Lima, que integra o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís, fundado em 2012 por iniciativa de familiares da escritora, disse ao PÚBLICO que uma das prioridades da associação deve ser justamente tentar que os livros de Agustina sejam traduzidos e editados em inglês.