Os heróis da contra-revolução

Manuel Gaspar era comando em Moçambique quando rebentou a revolução do 25 de Abril. Obsessivamente leal à pátria e anticomunista, lutou contra os novos poderes em Moçambique e em Angola. Depois, voltou a Portugal, para se vingar. Foi um dos líderes do Codeco e da rede bombista de direita, foi preso, organizou a espectacular fuga de Alcoentre, em 1978. O jornalista Ricardo de Saavedra guardou durante 35 anos um depoimento impressionante. Publicou-o agora, com a chancela da Quetzal. O Puto — Autópsia dos Ventos da Liberdade

A história que Ricardo de Saavedra conta agora, sentado num café do Centro Comercial dos Olivais, em Lisboa, começou em fins de Maio de 1979, num outro café, em Joanesburgo, quando um homem de 25 anos, Manuel Vicente da Cruz Gaspar, se sentou à sua mesa com um estranho pedido: “Queria que me fizesse uma entrevista.”

Ricardo tinha recomeçado a sua carreira de jornalista na África do Sul, para onde fora obrigado a fugir, após os acontecimentos de 7 de Setembro de 1974, em Moçambique. Após a assinatura do Acordo de Lusaca, em que o Estado português reconheceu a independência da colónia e entregou o governo à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), milhares de pessoas saíram às ruas e ocuparam a Rádio Clube de Moçambique, protestando contra a entrega do poder a um só partido, de orientação comunista. O movimento foi reprimido de forma sangrenta, com a ajuda dos militares portugueses.

O que se passou depois não é muito conhecido, seja em Moçambique, seja em Angola, principalmente no Sul do território, nos meses e anos que se seguiram à revolução de Abril, em Portugal. Foi um período de caos, massacres e terríveis lutas fratricidas e desesperadas cuja memória se perdeu, ou foi escondida.

Manuel Gaspar chegava àquela mesa de café com um testemunho para apresentar. Ele fora um dos protagonistas dessa história de violência prestes a ser apagada para sempre e que já não servia para nada. Ele próprio não se sentia herói e punha o orgulho que lhe sobrava menos à conta do patriotismo do que de uma certa ideia de resiliência pessoal e lealdade abstracta.

As aventuras extraordinárias que vivera nos últimos cinco anos deveriam porém ser úteis para um propósito: ingressar nas Forças Armadas da África do Sul, onde vigorava o regime do apartheid. Gaspar, mais conhecido, como ele esclareceu, como comandante Paulo ou O Puto, queria ser alistado no Batalhão Búfalo, que combatia o MPLA e os soldados cubanos em Angola, bem como os guerrilheiros da SWAPO (South West Africa People’s Organization) na Namíbia.

Para o conseguir, foi aconselhado a obter o depoimento de alguém idóneo e da confiança do regime, como por exemplo o jornalista Ricardo de Saavedra. Se este relatasse de forma convincente as façanhas militares e anticomunistas do candidato, o lugar no batalhão poderia estar ao seu alcance.

Para convencer Saavedra, Gaspar adiantou que foi comandante do Esquadrão Chipenda em Angola e que foi um dos organizadores da fuga, meses antes, de 130 prisioneiros do Forte Militar de Alcoentre, por um túnel de 30 metros que levou 28 dias a escavar.

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O jornalista Ricardo de Saavedra conheceu o comandante Paulo em Maio de 1979, em Joanesburgo. Mas só agora a história de O Puto é contada Nuno Ferreira sAntos

O jornalista não podia deixar de ficar interessado. Propôs-lhe ouvir e gravar a sua história, em cassetes que guardaria e poderia utilizar mais tarde, para publicação em revista ou livro. O Puto concordou e começaram as sessões, num total de 25, durante 45 dias. Ricardo levava sempre duas testemunhas, gravador e bloco de notas. Procederam por ordem cronológica, ou temática, com a ajuda dos diários e da abundante documentação que Gaspar trazia.

No fim, Ricardo escreveu o relatório, que valeu a Gaspar a aceitação no exército sul-africano, e guardou as cassetes, até hoje. Ricardo de Saavedra tinha, ainda em Portugal metropolitano, sido jornalista na revista Flama, onde conduziu entrevistas, semanalmente, a mais de 60 escritores. Em 1964, foi mobilizado para a guerra em Moçambique, como oficial miliciano. Casou, e ficou lá a viver, trabalhando como jornalista. Refugiado na África do Sul, depois de 1974, trabalhou, primeiro, a distribuir jornais, antes de escrever neles. Voltou a Portugal nos anos 80, ingressando nos quadros do Diário de Notícias após ter realizado uma entrevista decisiva com Jonas Savimbi, onde o líder da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) se declarava disposto a negociar a paz com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

Só alguns anos depois da reforma Ricardo se decidiu a pegar nas cassetes do Comandante Paulo. Até aqui, não teve tempo, justifica ele. Mas a verdade é que talvez ninguém estivesse ainda preparado para esta história, que começa em 1974 e termina em 1979, naquela mesa de café de Joanesburgo.

A intenção de Ricardo era contá-la agora, usando como fonte principal a gravação do depoimento de Gaspar. Mas, aconselhado pelo seu editor da Quetzal, Francisco José Viegas, optou por dar voz ao próprio comandante Paulo. Ele é o narrador, num texto trabalhado e editado pelo autor, mas que permanece fiel à perspectiva e à própria linguagem do protagonista. O livro torna-se, assim, um documento, em cuja narrativa espontânea surgem não só revelações de factos, em grande parte desconhecidos, mas também o ponto de vista e a mentalidade destas figuras desgarradas da História, como Gaspar e os seus companheiros. Personagens odiosas e fascinantes ao mesmo tempo, mas que talvez seja preciso aprender a integrar na memória das últimas décadas. “O Puto faz falta à História”, escreve o jornalista Óscar Mascarenhas no prefácio do livro.

Começa assim o relato: “CASSETE 1 — LADO A O nome por que sou mais conhecido é Paulo, às vezes comandante Paulo, que deriva de Paulo César da Cruz. Mas o meu verdadeiro nome é Manuel Vicente da Cruz Gaspar, solteiro, nascido a 9 de Abril de 1954 em Montepuez, distrito de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique.”

O pai de Manuel Gaspar foi o primeiro branco a fixar-se em Montepuez, no início dos anos 1940. E só quando ele e a mulher morreram, Manuel foi enviado para a Metrópole, aos sete anos. Mas não se habituou, e regressou a Moçambique mal lhe foi possível. Decidiu, com 17 anos, alistar-se como voluntário nos Comandos, do então capitão Jaime Neves (que morreu no ano passado em Lisboa).

Participou em inúmeras operações, foi um bom aluno, não apenas nas técnicas militares e nos princípios de lealdade ao grupo e seus valores, mas também nos conceitos, de devoção à pátria e combate feroz ao comunismo. Jaime Neves, recorda Ricardo, tinha escrito no seu cartão de visita não a patente militar, mas apenas “Jaime Neves, anticomunista”.

O líder dos Comandos acabaria por ter um papel importante, se não na organização da revolução do 25 de Abril, pelo menos no processo revolucionário que se seguiu e, principalmente, no golpe de 25 de Novembro, que reorientaria a revolução no sentido da democracia liberal.

Mas nem todos os operacionais das forças especiais do Exército colonial português tiveram a mesma capacidade de se adaptar à nova realidade. Aos olhos de muitos deles, principalmente os que nasceram e viviam em África, os capitães de Abril surgiam como traidores oportunistas, e o novo regime como o apocalipse.

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"O nome por que sou mais conhecido é Paulo, às vezes comandante Paulo, que deriva de Paulo César da Cruz. Mas o meu verdadeiro nome é Manuel Vicente da Cruz Gaspar" Cortesia Quetzal

Para Manuel Gaspar, o período que se seguiu à revolução foi uma anarquia de traições, negociatas, ajustes de contas, desconfiança e medo. “Li algures que na Abissínia, de onde se admite serem oriundos os primeiros moçambicanos que formaram o Reino de Monomotapa, os traidores ou eram mortos ou condenados a andar sempre descalços, porque lhes metiam as mãos e os pés até ao tornozelo num pote de tinta escarlate que os marcava para toda a vida. Lenda ou não, o certo é que as pessoas sabiam assim mais facilmente com quem contavam”, disse ele no depoimento.

Após o 7 de Setembro, Gaspar juntou-se a grupos que combateram as forças portuguesas, em Matola, após o que fugiu para a África do Sul. Mas para voltar pouco depois, para organizar a luta contra a Frelimo, no poder. Foi preso em Lourenço Marques, evadiu-se e voltou à luta, após um período na África do Sul. De novo preso, foi enviado para uma prisão na Tanzânia, para ser fuzilado. Mas fugiu outra vez.

Em Maio de 1975, foi para Angola, para combater o MPLA e os comunistas. Foi um dos criadores e segundo comandante do Esquadrão Chipenda, ao lado da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), de Holden Roberto. Nessas funções, destruiu o lendário Esquadrão Valódia, do MPLA, e invadiu e ocupou as cidades de Sá da Bandeira, Nova Lisboa, Serpa Pinto, Benguela e Lobito. Depois de dissolvido o Esquadrão Chipenda, e integrado na chamada Frente Sul, em conjunto com forças sul-africanas, ocupou território até 17 quilómetros de Luanda. Mais tarde comandou a evacuação de Moçâmedes, conduzindo os civis até ao refúgio em território da África do Sul.

Quando sentiu esgotadas as possibilidades de luta em Angola, o comandante a quem chamavam O Puto viajou para Portugal, para organizar a sua vingança pessoal. Foi um dos fundadores do grupo Comando Operacional de Defesa da Civilização Ocidental (Codeco), que foi responsável pela colocação de bombas em mais de cem locais, incluindo sedes do Partido Comunista, instituições oficiais, quartéis, embaixadas.

Integrado na rede bombista de direita, o grupo do comandante Paulo foi responsável por muitas vítimas, embora ele sempre tivesse explicado que o objectivo não era matar, mas apenas causar desestabilização. E gozo, como é evidente em muitas passagens de humor negro:

“O Ferreira comprou as pilhas, das fraquitas, para ser mais rápido, na casa de banho do café, preparei o maquinismo, e o Stwart, qual vendedor de sonhos e bichas de rabiar por catálogo, foi de pasta debaixo do braço levar o recado. Assistimos de bancada, sentados os três na esplanada do café do outro lado do largo. Deu um estrépito do camandro, a vidralhada soltou-se como se de repente se esboroasse a massa, a malta a correr e a gritar, vidros por todos os lados, e o cabrão do Stwart a rir-se, a rir-se, histérico, a chamar fascistas e paneleiros aos bombistas, que deviam ser todos fuzilados, enrabados com pinças de vidrilhos, e voltando-se para mim perguntava alto e bom som ‘e você, camarada, que acha desta pouca vergonha?’ Depois ria-se, a gozar o prato. Pior foi quando se dirigiu à esquadra da PSP do largo a pedir uma vassoura, para ajudar a varrer estilhaços.”

Pelo relato deste período, percebe-se que praticavam uma espécie de terrorismo caótico, sem objectivos, ao sabor dos ataques de fúria provocados pelas notícias que iam chegando de Angola e Moçambique. Disse O Puto:

“A actividade dos simpatizantes da Codeco começou a fazer-se notar em diversos pontos do Norte, com bombas a explodir aqui e acolá, sobretudo contra alvos ligados aos comunistas. O nosso ódio aos comunistas era tanto mais justificado quanto mais graves relatos nos chegavam de Angola e Moçambique, onde Moscovo pusera a pata de vez, esmagando populações e alimentando regimes ditatoriais mil vezes piores do que o anterior. Estendia-se naturalmente aos socialistas e a Mário Soares mais ao seu pajem Almeida Santos, sem esquecer Melo Antunes e outros nefastos obreiros, fardados ou não, daquilo a que se chamava impropriamente descolonização.”

O Puto acabou por ser preso, sob acusação de ter assaltado as instalações militares de Leiria (RAL4), de onde roubou grandes quantidades de munições. Por este crime e vários outros relacionados com bombas e atentados, esteve detido em várias prisões, entre 1976 e 1978, período em que organizou um total de sete tentativas de fuga.

Mas seria na prisão especial de Alcoentre, prisão de Vale de Judeus, considerada a mais segura da Europa, e para onde foi transferido em Fevereiro de 1978, que teria lugar a sua façanha mais espectacular. Em colaboração com outros seis detidos, escavou um túnel, a partir da sua cela, durante 28 dias. Com facas roubadas da cozinha, usando fronhas para carregar a terra, que depositaram no sótão da prisão, ludibriando todos os sistemas de segurança, conseguiram furar um corredor, iluminado com lâmpadas e abastecido de oxigénio através de um engenhoso sistema de foles e tubos, até fora do perímetro da penitenciária.

No dia marcado, 17 de Julho de 1978, Gaspar e os companheiros abriram as celas de muitos outros presos, a quem indicaram o caminho da fuga. Escaparam 120, ou 123, segundo as notícias da época. Quase todos de delito comum, incluindo homicidas e ladrões. Gaspar precisa agora que foram 131. Em qualquer caso, uma das maiores fugas de uma prisão de alta segurança alguma vez registadas no mundo ocidental.

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O plano para a fuga de Vale de Judeus foi gizado por Manuel Gaspar e a túnel de 30 metros começou a ser construído a partir da sua cela. A 17 de Julho de 1978 fugiram 131 presos da prisão de Alcoentre, considerada das mais seguras na Europa

O processo foi organizado com um misto de precisão e fleuma arrogante que mostra bem a mentalidade daqueles homens duros e despeitados, sem nada a perder. Vários episódios do livro ilustram essa atitude, como o facto de terem organizado, precisamente na véspera do dia da fuga, a exibição na prisão do filme A Grande Evasão, de John Sturges, para inspirar e instruir os reclusos.

Ninguém tinha, até hoje, relatado por dentro a história da fuga de Alcoentre, envolta em ambíguas declarações oficiais e relatos jornalísticos imprecisos e desinformados. Uma confusão idêntica à que envolve o próprio processo judicial de Manuel Gaspar, diz Ricardo de Saavedra, que, não obstante todas as tentativas e pesquisas, não conseguiu encontrar o processo.

“Talvez tenha sido enviado para Moscovo, como aconteceu a outros”, ou é tão irregular que terão sido os próprios juízes, envergonhados, a fazê-lo desaparecer. Nos únicos documentos a que Ricardo teve acesso, como o libelo acusatório, o nome que aparece é o de Paulo César da Cruz, um dos pseudónimos dos vários documentos falsos de Gaspar. “Eles nunca conseguiram identificá-lo”, diz Ricardo. “Acabaram por julgar e condenar um pseudónimo.”

Também por esse motivo, não se sabe o que aconteceria a Manuel Vicente da Cruz Gaspar, hoje com 60 anos, se um dia voltasse a Portugal. Seria preso? Haverá algum registo da sua identidade?

Uma vez, em Alcoentre, irritou-se quando dois polícias lhe vieram perguntar se a sua nacionalidade era portuguesa ou moçambicana: “Dois filhos da puta dos Serviços de Emigração que controlam as fronteiras vieram dizer que há dúvidas se sou ou não português. Então sou o quê? Identificam-me, repetem os meus dados, tudo certo, e depois perguntam se sou português. Faço uma guerra do caralho com os dois sacanas. Chamo-lhes o que me vem à pinha. Um deles ainda tenta segurar-me pelo braço, talvez para me acalmar, mas rodopio sobre mim próprio e ao mesmo tempo agarro no cinzeiro da secretária que lhes atiro. Aos pontapés ao que havia à frente, desarvorei porta fora.”

O cerne de tudo residia naquilo. Gaspar considerava-se moçambicano, porque nascera em Moçambique, que amava. Mas a nacionalidade portuguesa sempre fora a sua. A pátria pela qual sempre estivera disposto a dar a vida.

No dia 25 de Abril, na prisão, os reclusos bombistas vestiam-se de preto. “Estão de luto porquê?”, perguntaram os outros presos. “Pela pátria, suas bestas”, foi a resposta do Puto.

Era normal que, para ele, o 25 de Abril fosse um crime. “Eu não sei o que é o 25 de Abril”, diz Ricardo. “Não estava cá. Não vivi o 25 de Abril. O que nós vivemos foi a descolonização.”

Quem estava desse lado da História nunca compreenderá a lógica que venceu. E não tem por isso nenhum contributo a dar, excepto conformar-se com o eterno esquecimento. Ou talvez não. Ricardo pensa que ainda faz sentido acrescentar estas vozes à História do Portugal moderno. “O 25 de Abril foi formidável em fazer evoluir o país. Mas quanto à descolonização… Há muita preocupação em fazer desaparecer esta parte da história, mas ainda é cedo para dizer quem foi derrotado. Pode acontecer que daqui a dez anos o 25 de Abril deixe de ser feriado. Então acha que isto foi uma revolução dos cravos? Com histórias como estas que se contam neste livro?”

Desde a gravação do relato, em 1979, Ricardo nunca mais viu O Puto. Não sabe onde está, provavelmente na África do Sul, “seguramente em África”. O comandante Paulo não sabe que o livro foi finalmente escrito e publicado. Lembrar-se-á da promessa que Ricardo lhe fez à despedida? “Quando este livro for editado, tu poderás regressar a Portugal.”