A cadeira das cadeiras

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36 cadeiras desmontadas e os respectivos parafusos ocupam um metro cúbico
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Underwood & Underwood, New York, ca. 1920
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O escritor russo Leon Tolstoi (1828-1910) sentado numa Thonet
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Poucos objectos deixam uma marca na história do design tão indelével como a cadeira Thonet n.º14 (1859). E o que é que uma simples cadeira tem para nos dizer? Muito. Quando um objecto incorpora toda uma experiência transformada em inovação, passa a contar-nos uma história e a fazer parte da história, neste caso da do design.

Thonet é nome de homem, do carpinteiro que estava determinado a desenhar todo o percurso de uma cadeira produzida em série, que fosse capaz de chegar a todos. E a história começa em 1830, quando a revolução industrial seguia já para a sua segunda fase, e Michael Thonet (1796-1871) começa a busca de um processo que dê forma ao desenho da sua cadeira, permitindo a dobragem das peças de madeira, sem recurso à tradicional técnica de assemblagem — de vários segmentos unidos para descrever uma curva. A primeira experiência, de moldagem a vapor de placas de madeira coladas entre si, revelou-se inadequada, pois em climas mais húmidos a cola derretia. Porém, as premissas já estavam traçadas: desenho apurado, cadeira testada, produção em série com custos reduzidos, entregas através das novas linhas de comunicação crescentes em toda a Europa. Mas é só no fim da década de 50, e um tempo depois da mudança das suas instalações para Viena, Áustria, que a fábrica, agora Gebrüder Thonet (Thonet & Filhos), dá resposta à missão que lhe tinha sido imposta. Pela primeira vez e numa produção em série, a madeira maciça era dobrada sob o efeito do vapor, sendo depois comprimida por moldes de aço. As cavilhas em madeira foram substituídas por parafusos metálicos, o que permitia não só a montagem no local de destino como expandir a vida útil da cadeira — o aparafusamento permitia ajustes esporádicos.

Estava lançada a ideia genial; 36 cadeiras desmontadas e os respectivos parafusos ocupavam um volume não superior a um metro cúbico e eram enviadas para distribuidores em todo o mundo, um século antes de a Ikea ter difundido o conceito.

Confortável, com um desenho depurado (e inovador para a época), resistente e economicamente acessível, a Thonet n.º14 (hoje n.º214) rapidamente entrou para os espaços domésticos e invadiu cafés, bares e restaurantes, de uma tal maneira que figurou na pintura de cenas de época, cartazes e cinema.

Michael Thonet é considerado um pioneiro do design industrial e a sua cadeira é ainda hoje apelidada como “a cadeira das cadeiras”.