Quando os atletas não merecem medalhas

Parecem super-heróis, mas alguns atletas de elite erram como os cidadãos comuns. O caso recente de Michael Phelps lembrou-nos disso. Entre Jogos Olímpicos e Mundiais de Natação, soma 55 medalhas (44 delas de ouro) e é recordista em ambos os eventos. Mas é outra contabilidade, indesejável, que domina a sua actualidade: foi detido por conduzir embriagado pela segunda vez em dez anos.

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Phelps em Londres 2012 Michael Dalder/Reuters
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Phelps nas eliminatórias dos 200m estilos de Londres 2012, prova em que ganhou a medalha de ouro François Xavier Marit/AFP

É o mais medalhado em Jogos Olímpicos e integra necessariamente a lista reduzida de candidatos a melhor atleta da história, mas Michael Phelps nem sempre tem conseguido agir como um modelo a seguir. Nos últimos dias, o seu comportamento foi notícia por ser um exemplo a não imitar. O nadador foi preso na semana passada por conduzir em excesso de velocidade e, mais grave, sob o efeito de álcool. Esta foi a segunda vez em dez anos que o norte-americano foi detido e acusado por conduzir embriagado. Para um desportista de elite, a fama e o sucesso não são sinónimo de uma vida sem erros (mais ou menos condenáveis). Phelps não é caso único. Neste sentido, não são muito diferentes das outras pessoas. Para o melhor e, neste caso, para o pior.

Phelps, depois de passar oito horas a jogar cartas num casino de Baltimore, a sua cidade-natal, foi mandado parar pela polícia devido a uma condução “suspeita” e depois de o seu Land Rover atingir 135 km/h numa estrada com limite de 72 km/h. O relatório policial especifica que Phelps “teve dificuldade em manter o equilíbrio e falar” e revela que o nadador apresentou uma taxa de álcool no sangue de 0,14%, superior ao valor máximo legal (0,08%) no estado de Maryland. O atleta de 29 anos vai a julgamento no início de Novembro e arrisca uma pena de prisão que pode ir até um ano.

É justo, neste sentido, que vejamos os desportistas de elite como modelos a seguir? “São pessoas que servem de referência para muita gente, porque são um exemplo de excelência humana. Nesse sentido, é natural que sejam vistos como um modelo a seguir. Isso acontece e não se pode contornar”, afirma, ao PÚBLICO, Duarte Araújo, professor de Psicologia do Desporto da Faculdade de Motricidade Humana. “Contudo, essa excelência é circunscrita a alguns campos de acção. O problema é quando achamos que têm de ser excelentes em tudo o que fazem. Ninguém é assim. Nem os atletas de elite, nem nós que os julgamos”.

Erram como os humanos anónimos. Segundo Duarte Araújo, nalguns casos, a preparação destes atletas de elite está tão focada no treino que pode descuidar outros aspectos formativos. “Por vezes, cometem erros de principiante, de quem sabe pouco viver fora da competição. O treino é tão absorvente que não se sabe viver fora dali”. Ryan Lochte, amigo e adversário de Phelps, criticou, por exemplo, o facto de este não ter contratado um motorista: “Foi uma coisa estúpida de fazer”.

Ainda para mais, esta é a segunda vez que Phelps tem problemas com a lei pelo mesmo motivo, que pode colocar a sua vida e a de outros em perigo. Em 2004, pouco tempo depois de ganhar seis medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, e quando tinha 19 anos, também foi apanhado a conduzir alcoolizado (assumiu a culpa e recebeu 18 meses de pena suspensa). Então, tal como actualmente, pediu desculpa e reconheceu o seu erro. O campeão olímpico admitiu agora ter um problema e anunciou que vai fazer reabilitação. “Não foi o meu primeiro erro de julgamento e estou desapontado comigo. A natação é uma grande parte da minha vida, mas agora preciso de focar a atenção em mim como indivíduo e fazer o trabalho necessário para aprender com esta experiência e tomar melhores decisões no futuro”, afirmou.

Ausência do Mundial
Para já, este incidente teve consequências desportivas. A Federação de Natação dos EUA suspendeu-o durante seis meses, até Abril de 2015, por violação do Código de Conduta da organização, e o nadador concordou também, apesar de a prova começar em Julho, não participar no Campeonato do Mundo do próximo ano, o último grande evento internacional antes dos Jogos do Rio de Janeiro. Desta forma, provavelmente está encerrada a carreira de Phelps no que aos Mundiais diz respeito. Ele tem 22 medalhas olímpicas, 18 delas de ouro (o dobro dos segundos da lista), mas nos Mundiais, em que soma 26 títulos e mais sete pódios, também não há quem lhe chegue aos calcanhares.

Apesar da inactividade competitiva, à partida o castigo não deverá mexer decisivamente com a sua preparação para os Jogos de 2016, que se supôs ser o seu grande objectivo quando anunciou o regresso em Abril passado, depois de ter anunciado a reforma após a participação em Londres 2012. As provas de qualificação para a selecção olímpica dos EUA só se realizam em Junho de 2016. O corte do subsídio mensal de 1750 dólares (1394 euros) enquanto durar a suspensão também não fará mossa no orçamento de um atleta que tem proveitos anuais de oito milhões de euros em publicidade. Mas o incidente e a suspensão serão sempre uma distracção.

“Num caso destes, a consequência mais imediata para a carreira é que os atletas, de um momento para o outro, estão impedidos de fazer o que mais gostam. É um pouco tirar-lhes o sentido da vida. E estes casos oferecem à pessoa uma imagem que não é aquela em que ela sempre se viu retratada. Atinge a auto-estima, mesmo que possa não impedir essa pessoa de continuar a destacar-se desportivamente”, explica Duarte Araújo.

Esta é a segunda suspensão que a federação norte-americana impõe à sua superestrela. Em 2009, castigou-o por três meses depois de surgir numa foto a consumir canábis durante uma festa universitária, embora esse caso tenha levantado igualmente questões sobre o seu direito à privacidade.

O último incidente com Phelps aconteceu apenas alguns dias depois de Rob Bironas (36 anos), um antigo jogador da NFL, a Liga de futebol americano, ter morrido na sequência de um desastre de viação, em que também colocou em causa a segurança de outros condutores. Os exames posteriores revelaram níveis de álcool bem superiores ao permitido por lei. O caso de Bironas, mais os de violência doméstica dos mais famosos Ray Rice e Adrian Peterson, ensombraram o início de época da NFL.

Mas os maus exemplos, mais ou menos graves, estão presentes em quase todos os desportos e não escapam a algumas das grandes figuras. O inglês Paul Gascoigne, um futebolista genial, acabou a carreira há dez anos, mas ainda é tópico recorrente na imprensa britânica, devido aos seus problemas relacionados com o alcoolismo, com as várias tentativas de reabilitação a fracassarem. O ex-defesa-central Tony Adams, uma referência do Arsenal, também foi viciado em álcool e esteve dois meses na prisão, em 1990, por conduzir embriagado.

Na mesma modalidade, são bem conhecidos os problemas passados de Diego Armando Maradona, um dos melhores jogadores da história do futebol, com a droga, primeiro, e o álcool, depois. Uma das figuras mais controversas da modalidade, o argentino teve uma longa dependência da cocaína enquanto ainda era futebolista, tendo cumprido uma suspensão de 15 meses quando jogava no Nápoles, em Itália. Mais tarde, durante o Campeonato do Mundo de 1994, acusou a presença de efedrina num controlo antidoping e voltou a ser suspenso.

A cocaína, de resto, é um ponto comum às histórias de outros atletas de elite que viram as suas carreiras marcadas negativamente por essa droga. Martina Hingis espantou o mundo do ténis nos anos 90 do século passado, com um jogo diferente do das adversárias. Chegou a n.º 1 mundial com apenas 16 anos e ganhou 15 torneios do Grand Slam (cinco individuais e dez em pares). Depois de problemas físicos terem ditado uma primeira retirada em 2003, a sua carreira foi efectivamente encurtada no final de 2007, quando acusou a presença de cocaína num teste antidoping.

Em 2004, Marco Pantani, uma das figuras mais carismáticas para os adeptos do ciclismo italiano e internacional, conhecido como “O Pirata”, terá morrido com uma overdose de cocaína — entretanto, a justiça italiana reabriu a investigação sobre a sua morte por suspeitas de assassinato. A sua carreira, que teve como ponto alto a vitória na Volta a França de 1998, foi marcada por suspeitas de doping.

Menos conhecido é o caso de Len Bias, um jogador que parecia predestinado a ser uma estrela da NBA, mas nunca chegou a efectuar um único jogo na melhor Liga de basquetebol do mundo. Aos 22 anos, na noite seguinte a ser escolhido na 2.ª posição do draft de 1986 pelos Celtics, morreu de overdose de cocaína enquanto festejava a sua entrada no clube de Boston.

Tim Montgomery, figura do sprint nos anos 90, perdeu o recorde mundial dos 100m devido ao recurso ao doping. Mais tarde, já retirado, o norte-americano foi condenado por fraude bancária e tráfico de heroína, crimes pelos quais passou quatro anos detido.

Em 1989, Pete Rose, um dos melhores jogadores da história do beisebol, foi banido daquele desporto depois de se ter descoberto que apostou em jogos da modalidade, incluindo partidas em que foi protagonista como atleta ou como treinador. No críquete, é famoso o caso de Hansie Cronje, estrela da África do Sul caída em desgraça depois de ter sido revelado que aceitou subornos para viciar resultados de jogos.