Adriano Miranda
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Liliana Guerreiro reinterpretou a filigrana e levou-a Nova Iorque

Designer de jóias portuguesa expõe as suas peças no Museu de Arte e Design, nos Estados Unidos

As jóias sempre estiveram presentes na vida de Liliana Guerreiro, assim como a sua reinterpretação. Em criança, gostava de desconstruir os brincos lá de casa, tirava-lhes as pedras e colava-lhes conchas. Hoje, aos 39 anos, Liliana é designer de jóias há 14 anos e dedica-se à reinterpretação da filigrana. Entre os dias 6 e 10 de Outubro, as suas peças de filigrana estiveram expostas no Museu de Arte e Design, em Nova Iorque.

Liliana Guerreiro é uma das 50 convidadas para o “LOOT: MAD about Jewelry”. Esta é a primeira vez que Portugal está representado neste evento que, todos os anos, dá a conhecer a peças de joalharia contemporânea de todo o mundo.

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“Há dez anos participei no projecto 'Leveza – Reinventar a Filigrana', que consistia em reinterpretar a filigrana tradicional portuguesa. Desde aí tenho ido uma vez por semana a uma oficina [localizada em Travassos, Póvoa de Lanhoso], que é das oficinas mais antigas de filigrana e tenho aprendido muito sobre a filigrana”, contou Liliana ao P3.

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É nesta oficina que Liliana vai pesquisando e desenvolvendo os seus projectos, juntamente com dois artesãos, especialistas em trabalhar manualmente a filigrana. “É um 'workshop' contínuo, numa oficina com duas pessoas que têm imensa técnica e 50 anos de prática”, refere. Para a exposição no Museu de Arte e Design, as peças escolhidas foram precisamente as que resultam da reinterpretação da filigrana.

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Repensar a filigrana sem modificá-la

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Mas de que forma é feita esta reinterpretação? Liliana explica: “A filigrana é muito trabalhada, cada peça tem muitos pormenores dentro da mesma peça. Então, eu parti de uma peça — o relicário — um ícone da filigrana do alto Minho, onde tenho dezenas de elementos. O que eu fiz foi separar esses elementos e criar várias colecções com cada um desses elementos”. Bocais, Cheio de Ramo e Malha são alguns exemplos de colecções da designer. Os nomes destas colecções correspondem aos nomes dos próprios elementos da filigrana que foram utilizados.

“Eu não modifico as formas já existentes da filigrana. Acho que as formas e as peças que já existem com centenas de anos devem ficar como estão. Então, a técnica é a mesma, a soldadura é a mesma, o fio é o mesmo, apenas o desenho é muito mais simples, muito mais minimalista do que o tradicional, que consistia em juntar os elementos todos e fazer uma peça muito carregada”, explica Liliana.

A designer conta que todos os dias imagina novos desenhos para novas peças. Aplicar as ideias “já é outra história: há coisas que são possíveis, outras não”, confessa. Depois da ideia, Liliana vai até à oficina experimentar se é viável ou não e intervém em quase todo o processo de criação das jóias. “Só não faço a técnica de soldadura, porque é preciso ter uma técnica muito apurada e muita experiência. Mas eu monto com uma pinça os elementos já existentes, os bocais, os fios,… como se fosse um puzzle e vou vendo se dá para fazer ou não”, esclarece. A soldadura das peças fica a cargo dos artesãos. “É um trabalho completamente em conjunto, em equipa, que funciona muito bem”, garante.

“Simplicidade” é o que Liliana pretende com a criação das suas peças. “Já é uma técnica tao rebuscada que, se eu não simplificar, as peças vão ficar pesadas. Tento simplificar sempre tudo com a filigrana”, argumenta.

“As jóias, para Liliana, mais do que um adorno, são entendidas como objectos de culto, companhia, talismã que transportamos”, descreve a sua página de Facebook. Liliana entende, assim, as jóias, pois considera que são objectos que carregam uma simbologia, “um significado”.

O gosto pela joalharia não é recente. Liliana conta que, “desde pequenina andava carregada de jóias e gastava o dinheiro em jóias quando era adolescente”. Natural de Viana do Castelo, a designer vivenciou sempre de perto as festas do Alto Minho, onde tradicionalmente as mulheres desfilam com trajes e carregadas de ouro.

No entanto, admite que não pensava fazer da joalharia a sua profissão. “Eu não sabia que existia um curso de Joalharia, aliás acho que começou um ano antes de eu iniciar o curso. A minha ideia era ir para gravura, mas entretanto entrei na oficina com uma amiga e vi que realmente podia fazer jóias de uma maneira profissional. Nesse mesmo dia decidi que era esse curso [que queria] ”, recorda. E assim foi. Liliana licenciou-se em joalharia e, até hoje, trabalhou sempre como designer de jóias.