Os editores na pegada do Netflix e do Spotify

Os serviços de assinatura para leitura de e-books, à maneira do que acontece no Netflix para os filmes ou no Spotify para a música, parecem estar a resultar neste enigma que ainda é para os editores o digital, assegurou o CEO.

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Um stand na Feira de Frankfurt AFP/DANIEL ROLAND

Durante os últimos anos, nesta mudança da indústria editorial - do impresso para o digital - fizeram-se muitas experiências. Umas resultaram e outras não. Outras ainda poderão vir a resultar, talvez tenham sido feitas cedo demais.

Pelo menos é nisto que acredita um dos homens mais poderosos no mundo editorial: Brian Murray, o presidente e CEO da HarperCollins - o segundo maior grupo editorial do mundo com operações em 18 países.

Desde 2008 que Brian Murray é o CEO deste gigantesco grupo (que publica cerca de 10 mil livros por ano em mais de 30 línguas) e foi responsável pela evolução da HarperCollins de uma editora tradicional para um grupo dinâmico, tanto no impresso como no digital, com lucros no valor de 200 milhões de dólares.

“A indústria editorial fez um óptimo trabalho. Colectivamente conseguiu transitar de um modelo de negócio que vivia maioritariamente do livro impresso para um modelo de negócio onde coabitam o impresso e o digital”, disse Murray na CEO Talk, a conferência que é sempre um dos eventos mais aguardados da Feira do Livro de Frankfurt e este ano decorreu no novo espaço Business Club Member.

Brian Murray ao longo de uma hora respondeu a perguntas de várias revistas da imprensa especializada (como a The Bookseller, a PublishNews Brazil, a Livres Hebdo) e disse que tem sido muito interessante ver como o impresso e o digital variam no género. “A ficção é muito digital e a não-ficção não resulta tão bem no digital. Isto era uma coisa que ninguém previa há algum tempo atrás. Também é verdade que os mercados, quando se trata do digital, variam muito de uns para os outros. Mas acredito que no futuro vai haver um equilíbrio entre o digital e o impresso e estou convencido de que o livro impresso vai estar por cá durante muito, muito tempo.” É importante lembrar que esta ideia já tinha sido defendida o ano passado na mesma conferência pelo CEO de outro gigante grupo editorial da língua inglesa, Markus Dohle, da Penguin Random House.

Cedo demais?
Mas Brian Murray deu também exemplos de coisas que não resultaram como se acreditava que iam resultar. Uma delas é o conceito de “ebook bundling” que se pensava que poderia ajudar os editores e livreiros a aumentarem o ritmo de vendas dos livros electrónicos.

A ideia, à primeira vista, parece boa: dar a possibilidade a quem compra um livro impresso de adquirir também a versão electrónica do mesmo livro, o ebook, por um preço simbólico ou até de graça. Esta ideia teve apoiantes que não viam nenhum mal em que se oferecesse dentro de um livro impresso um voucher para acesso ao ebook (que já estava incluído no preço de venda) e também houve quem estivesse contra a medida por considerar que ia tirar valor de mercado aos livros electrónicos.

O ano passado a HarperCollins associou-se à cadeia de livrarias Foyles e disponibilizou o “ebook bundling" em alguns dos seus títulos. Por exemplo, no romance Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que tinha mais de 700 páginas e era intransportável. A HarperCollins é também uma das editoras que participa no projecto que a Amazon lançou no mesmo ano, o Kindle MatchBook: quem comprou um livro impresso na Amazon nos últimos anos (desde 1995 quando a loja online começou a funcionar) pode agora comprar o ebook desse mesmo livro por um preço irrisório ou tê-lo de graça (consoante ordem do editor), embora esta opção só esteja disponível num universo de 70 mil títulos.

“O ebook bundling é uma das inovações que ainda não aconteceu”, disse Brian Murray na Feira do Livro de Frankfurt. “Temos consumidores que nos dizem que há procura, que os leitores o desejam, mas ainda não está a resultar.”

Outro flop ocorreu com a Espresso Book Machine. Quem já se esqueceu do estardalhaço com que esta máquina de print on demand foi recebida há alguns anos quando era a estrela de todas as grandes feiras literárias no mundo, de Londres a Frankfurt, e deixava extasiado quem assistia à impressão de um livro em menos de sete minutos com capa a cores e acabamento perfeito? Este sistema de impressão a pedido revolucionaria o nosso dia-a-dia, as máquinas estariam em lojas, bibliotecas e universidades para num instante imprimirem livros. E, em 2011, a HarperCollins disponibilizou o seu catálogo de paperbacks (5000 títulos) em todas as lojas que tivessem essa máquina. Os leitores podiam ir lá consultar o catálogo e mandar imprimir o livro que queriam: “A Espresso Book Machine ainda não descolou, mas acreditamos que tem potencialidade. Nós não ficamos parados e queremos experimentar coisas novas. Quer uma experiência tenha sucesso ou falhe, aprende-se sempre durante o processo. Queremos ser os primeiros a aprender. Quando alguma coisa resulta, nós dobramos a aposta e repetimos a experiência.”

Na senda do Netflix e do Spotify
E uma dessas coisas que parece estar a resultar são os serviços de leitura de ebooks por assinatura, à semelhança do que acontece com o Netflix, o serviço de streaming online que está disponível em vários países e permite a quem tem uma assinatura mensal ter acesso a todos os filmes disponíveis na plataforma, ou com o Spotify, o mesmo serviço na área da música. Se sempre houve interesse por parte dos consumidores nos modelos de assinatura na música, nos filmes, e na televisão por cabo por que não haveria nos livros?, pergunta Murray.

A HarperCollins desde 2013 que tem serviços de assinatura que acordaram com a Scribd e a Oyster e que permitem que os leitores leiam esses livros em vários suportes como tablets ou telemóveis. A Amazon lançou também um serviço de assinatura, o Kindle Unlimited, primeiro nos Estados Unidos mas agora já o expandiu para países da Europa (Reino Unido e Alemanha). “Estamos muito contentes com os resultados dos serviços de assinatura. Por isso, aumentamos o número de títulos e estamos a alargar o serviço também geograficamente. Este sucesso foi uma surpresa para nós. Apercebemo-nos de que está a servir a ‘Cauda Longa’ (termo popularizado por Chris Anderson que significa vender poucos exemplares de muitos títulos), muito bem”, explicou.

Como o negócio do livro se deslocou do universo do impresso para o universo digital o desafio dos editores são cada vez mais estas descobertas, acrescentou. “A assinatura mostrou ser um modelo que é muito eficaz quer a nível do merchandising das obras quer na exploração do nosso fundo de catálogo.”

Brian Murray sabe que o mundo editorial está a ficar mais complexo, quer em termos de formas de publicação quer nas respostas que os editores têm de dar aos autores. Por isso a HarperCollins não vai deixar de experimentar coisas novas, falhem ou resultem. E isso pode ser criar novos formatos de publicação, ver se faz sentido incluir vídeos nos livros, tentar vender ebooks em diferentes línguas, etc. “O importante é continuar a inventar e continuarmos a servir os nossos autores”, concluiu.