A geometria do mundo espelha-se na arte de Monir Shahroudy Farmanfarmaian

A primeira exposição em Portugal da artista iraniana mostra-se no Museu de Serralves como uma oportunidade singular para o conhecimento de uma obra que nascida entre o Ocidente e o Irão, é irredutível às narrativas da arte ocidental da segunda metade do século XX

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FERNANDO VELUDO/ NFACTOS
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Vidro, espelho, desenho e geometria. A exposição que abre hoje ao público no Museu de Serralves faz-se com os sentidos destas palavras, sugerindo ao visitante que se relacione livremente com as obras, que descubra nestas um reflexo e uma extensão do espaço, que se maravilhe com a beleza da geometria.

Entrará, assim, no universo de Monir Shahroudy Farmanfarmaian (Qazin, Irão, 1924), e por consequência, também, na sua narrativa, numa biografia. Datadas de períodos distintos, as obras projectam diálogos entre o modernismo e a arquitetura e a decoração islâmicas e aludem a momentos particulares da trajectória de Monir Shahroudy. Vêem-se desenhos, compostos de padrões coloridos, bolas de espelhos, hexágonos de vidros pintados e, numa sala pequena, portas de vidro decoradas que travam, suavemente, a passagem. “Possibilidade Infinita” não é uma retrospectiva, mas uma antológica de uma artista que, como escreve no catálogo a historiadora de arte Media Farzin, nunca foi discutida “dentro dos parâmetros da história da arte ocidental, apesar das muitas piscadelas de olho do cânone a uma perspetiva mais ‘global’”.


Uma iraniana em Nova Iorque

Tente-se então reconstituir o seu percurso, tendo como pano de fundo esta exposição. O primeiro encontro de Monir Shahroudy com a arte deu-se muito cedo, na infância, quando olhava, antes de adormecer, os desenhos que decoravam o tecto e as janelas do seu quarto. A este encontro simples e decisivo com as formas e as cores seguir-se, vários anos depois, a decisão de estudar arte, em Nova Iorque. “Escolhi primeiro Paris, mas não foi possível, por causa da guerra na Europa. Quando cheguei não conhecia nada, não conhecia arte europeia ou americana. Era muito jovem, muito ingénua, tinha 17 anos. Queriam que fosse para um liceu, mas acabei na Universidade de Cornell. Tive sorte. Tornei-me amiga de uma rapariga iraniana, de educação alemã, que me ajudou conhecer a cultura ocidental, sobretudo música, literatura”. O contacto com a arte ocidental deu-se com a generosidade de uma professora de francês que tinha por hábito mostrar postais com reproduções de obras de Van Gogh, Cézanne ou Picasso. A pouco e a pouco, sem dificuldades, a artista foi-se familiarizando com o seu tempo e outras histórias. “Sempre fui rápida a apanhar as coisas. Lembro-me de ver um concerto do John Cage em Woodstock e de ter gostado muito. Esteve quase uma hora sentado ao piano, sem tocar uma nota. Só se ouviam os sons do bosque.”

Foi em Woodstock que o pintor americano Milton Avery lhe ensinou a técnica de monotipias. Monir começaria por imprimir sobre o linóleo, antes usar exclusiva e abundantemente o vidro, num gesto que, inspirado na recordação das pinturas da sua infância em Qazvin, se repetiria até hoje. Entretanto, iniciara a sua actividade profissional no design gráfico de moda. “Costuma levar o meu portfolio de porta em porta, à procura de emprego. Queria fica em Nova Iorque e através de uma amiga comecei a fazer trabalhos para a Bonwit Teller [uma importante loja de roupa da época]. Desenhei uma flor que acabou reproduzida em sapatos, sacos e outros objetos. Foi nesse período que conheci o Andy Warhol. [Eu] fazia, entre outras coisas, a paginação dos seus bonitos desenhos de sapatos (risos)”.

Uma relação de amizade nasceria desse encontro. Depois de regressar ao Irão em 1957, Monir manteria correspondência com Warhol e durante uma visita deste ao Irão em 1976 (para fazer o retrato da esposa do Xá), fez-lhe uma surpresa. “Ofereci-lhe uma das minhas bolas de espelhos. A ideia para essa peça surgiu dos miúdos que eu vi a jogarem à bola nas ruas de Teerão. Enchi-as de areia e gesso e cobria-as de vidro que depois de pintei”. Na exposição, essa é uma das bolas que o espectador encontra sobre um longo plinto, irradiando leveza e luz e (porque não?) assinalando também a influência de contexto cultural, de uma certa boémia: as esferas podiam ser bolas de uma discoteca nova-iorquina.

Espelhos transcendentais

Em 1947, Monir já se tinha formado na Parsons School e seriam os conhecimentos e a sensibilidade aí adquiridas que lhe facultariam um olhar renovado sobre a arquitectura e as artes decorativas do seu país natal. “Era uma escolha maravilhosa. Os professores ensinavam-nos a ver, aprendíamos modos de inspiração. Dispunham os materiais no chão do Museu de História Natural e pediam-nos que trabalhássemos o barro a partir das esculturas dos nativos americanos. Ou levavam-nos ao Jardim Zoológico e pediam-nos que fizéssemos desenhos livres dos pássaros. Por vezes, traziam modelos à escola, mas não para posarem. Dançavam e nós tínhamos que apanhar o movimento em muito esboços. Foi assim que os meus olhos se abriram para as coisas belas”.

De olhos abertos, Monir reencontrou-se com as tradições artísticas do Irão, depois de regressar ao país em 1957, viajando pelo território, visitando palácios e mesquitas, conversando com artesãos tradicionais. Nas pinturas dos cafés locais (os qahveh khaneh), nos padrões turcomanos, na pintura inversa em vidro, desvelava-se uma série de técnicas e modos de fazer que a obra de Monir acolheria com entusiasmo. “Interessei-me também pela arquitectura que encontrei (nas mesquitas e nos palácios). Alguns dos homens que construíram esses monumentos não eram considerados arquitectos, mas deixaram-nos noções fabulosas de desenho, de geometria, da utilização do vidro e do plástico, e da própria arquitectura. Para mim foram uma influência”. Na exposição, essa influência pode ser aferida nas aparições de “Glass Doors” ou, num dos cantos superiores do tecto, de “Muqarnas One”. Feita de relevos de espelho e de vidro, esta escultura alude às junções de pequenos arcos ou alvéolos, usadas como elementos decorativos entre as salas e as cúpulas.

O vidro e o espelho são materiais recorrentes na arte de Monir Shahroudy Farmanfarmaian. “Os meus primeiros trabalhos foram desenhos impressionistas de flores e a minha primeira exposição em Teerão andava à volta desse motivo. Mas depois das visitas aos antiquários e às mesquitas, sobretudo ao santuário de Shah Cheragh, comecei a utilizar os espelhos”. Com tectos altos, mosaicos de espelhos e inúmeros reflexos, o interior do monumento encantou e emocionou a artista. “As pessoas vinham de vários lugares e estavam a chorar, entre preces a lamentos. Os seus rostos reflectiam-se no tecto. Perguntaram-me por que estava chorar e eu disse que eram os reflexos que me faziam chorar”. Este episódio, entre outros, levou a artista a abraçar o espelho, nas palavras do seu amigo, o arquiteto e curador Faryar Javaherian, como um elemento transcendental: “Este é o milagre dos espelhos”, pode ler-se no catálogo, “vemo-nos neles mas não estamos realmente lá, passamos por eles e desaparecemos; era tudo uma miragem. (…) A obra de Monir, sempre transcendental, coloca questões que ocuparam os filósofos ao longo da história: O que é a realidade? Quem somos nós? Que relação temos com o mundo?”. Ao espelho, junta-se a importância da geometria e nesta a do hexágono, uma figura que se encontra materializada em várias obras de “Possibilidade Infinita”. “O Sol LeWitt foi muito longe na exploração da geometria e do quadrado, mas o hexágono para mim é mais importante, pois mistura-se com todas as outras formas geométricas e está em toda a arte islâmica, nas mesquitas, nos relevos de vidro e de plástico. Há tantas coisas que se pode expressar com a geometria. E os trabalhadores de há mais de mil anos já faziam isso, muito do antes do LeWitt ou do Buckminster Fuller”.

É importante lembrar o encontro com as obras de Frank Stella (que estará hoje presente em Serralves para participar numa conferencia consagrada à artista), de De Kooning e Rauschenberg e as relações que as obras destes artistas suscitam com as cores, os padrões, o vidro  e o peso das esculturas de Monir Shahroudy Farmanfarmaian, mas a obra desta artista viajante, hoje com 91 anos, permanece irredutível às narrativas da arte ocidental. E desenvolvida com uma equipa de artesãos em Teerão (cidade onde a artista se instalou em 2004 depois de ter abandonado o pais no seguimento da Revolução Islâmica), continua a viajar entre o Ocidente e o Irão, com as possibilidades infinitas da geometria e as perguntas que os seus espelhos nos devolvem.