Torne-se perito Crítica

Retrato do cineasta enquanto escritor

A par da sua obra cinematográfica, João César Monteiro deixou uma obra escrita de peso, que começou agora a ser reunida de maneira sistemática

Enquanto cineasta, João César Monteiro nunca deixou de ser escritor
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Enquanto cineasta, João César Monteiro nunca deixou de ser escritor DANIEL ROCHA

É bem sabido que João César Monteiro optou pela vocação cinematográfica pondo de lado a vocação literária. A sua primeira manifestação pública autoral foi de facto um livro de poemas, Corpo Submerso, publicado em 1959 numa edição de autor. O destino que deu a esse livro, conta Vítor Silva Tavares no Intróito Inaugural do primeiro volume da Obra Escrita (editada pela Letra Livre), não foi nada benevolente: retirou-o da circulação com “gana exterminadora”, da qual se salvaram uns pouco exemplares, graças a uma operação clandestina de salvamento que Luiza Neto Jorge achou por bem efectuar. Terá uma edição à parte, de tiragem reduzida e fora do comércio, legitimada — acrescenta o organizador desta Obra Escrita — pelo facto de alguns desses poemas terem sido incluídos, com a autorização do autor, no livro-catálogo que a Cinemateca lhe dedicou em 2005.

A Obra Escrita do cineasta terá cinco volumes. É obra. O próprio Vítor Silva Tavares, que foi editor dos três pequenos livros de César Monteiro na & etc. (Morituri te Salutant, de 1974; Le Bassin de John Wayne seguido de As Bodas de Deus, de 1977; Uma Semana Noutra Cidade — Diário Parisiense, de 1999), manifesta a supresa de, no trabalho de recolha, ter encontrado tanto material: crítica e escritos sobre cinema, polémicas, guiões, sinopses, etc. Neste primeiro volume incluiu Vítor Silva Tavares os escritos (guiões, mas não só) para as primeiras obras cinematográficas de João César Monteiro: Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço — Um Provérbio Cinematográfico, de 1970, Fragmentos de um Filme-Esmola / A Sagrada Família, de 1972, Veredas, de 1977, e Silvestre, de 1981. Pelo que nos relata Vítor Silva Tavares, não foram encontrados escritos respeitantes ao documentário sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, de 1969, nem às curtas-metragens Que Farei Eu com Esta Espada, de 1975, A Mãe / O Rico e o Pobre, de 1978, Os Dois Soldados e O Amor das Três Romãs, ambas de 1979.

A primeira pergunta que somos levados a fazer é se estes escritos para obras cinematográficas têm o valor de textos autónomos ou antes, por assim dizer, mero valor documental. Importa dizer que na verdade, este volume da Obra Escrita de João César Monteiro satisfaz plenamente uma leitura que reclame a autonomia dos textos. Neste sentido, o título genérico não contém nada de fraudulento porque é de facto um trabalho de escrita que nos é dado a ler. Aliás, César Monteiro integrou-se numa constelação — se a palavra “integração” não é inadequada, tendo em conta a sua atitude sempre iconoclasta — bem sinalizada. Neste volume, encontramos a colaboração de Maria Velho da Costa (no guião de Veredas e nos diálogos de Silvestre), mas há também óbvias afinidades com Luiza Neto Jorge, com o surrealismo, com o abjeccionismo. Céline, Breton e Francis Ponge são algumas das referências literárias de César Monteiro, que deixa adivinhar uma forte cultura literária (em 1969, num texto que escreveu no Diário de Lisboa a apresentar Quem Espera por Sapatos de Defunto..., ao falar do “olhar de Orfeu”, remete para Blanchot).

Enquanto realizador, nunca deixou de ser escritor. E neste primeiro volume da obra acedemos a grandes momentos de escrita, não apenas sob a forma de diálogos. Silvestre, por exemplo, é uma obra literária de plenos direito. O leitor que percorre este volume tem também o prazer de encontrar deliciosos excertos que identificamos plenamente com o registo da personagem de João de Deus, dos filmes mais tardios, seja no maneirismo culto e cómico da descrição e da alusão sexuais, seja na hiperliterariedade a roçar a paródia. Do primeiro caso, eis um diálogo que é um exemplo significativo:

“ — Beijou os rotundos amareliflões melões melicheirões do seu rabicundo, cada um dos rotundos e melonosos hemisférios, no seu rego amareliflão, com uma obscura prolongada provocante melo-melidorante osculação.

— Sinais visíveis de post-satisfação?

— Uma contemplaçãoo silenciosa; uma ocultação errática; uma degradação gradual; uma repulsão atenta; uma erecção próxima”.

E agora um exemplo do segundo caso: “Não mais o oráculo se mostrará através de um véu, qual noiva a desposar, antes penso que etéreo irá lançar-se em plena luz rumo ao sol nascente e, como a onda, envolveu em seus eflúvios uma desgraça ainda maior do que esta. Não mais vos instruirei através de enigmas”.

Mas também encontramos aqui a injunção picante e visando alguém. Como sabemos, João César Monteiro nunca foi parco nem suave no escárnio e na crítica. Veja-se o que ele diz de António-Pedro Vasconcelos, ao explicar um plano do seu primeiro filme: “Ao sr Vasconcelos foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou muito grato. Bem feia acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é. Então eu tenho que gramar aquelas verticais todas abauladas sem ficar roxo de cólera?”


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