Editorial

Tanques parados a observar a guerra

Kobani é hoje uma espécie de terra de ninguém. E ninguém quer assumir a defesa da cidade.

Kobani, a cidade curda no Noroeste da Síria, está prestes a cair nas mãos dos extremistas do Estado Islâmico. Nas últimas três semanas foram cerca de 200 mil os que fugiram de Kobani e atravessaram a fronteira. E do outro lado da fronteira, do lado de lá da vedação, está a Turquia. E é da Turquia, dos improvisados campos de refugiados, que os curdos que fugiram à guerra acompanham, à vista desarmada, ou com a ajuda de um simples binóculo, a guerra que continua a matar os que por lá ficaram. E há relatos de decapitações e violações, barbáries a que os jihadistas já nos habituaram.

Kobani é um palco de guerra. Mas é uma guerra, no mínimo, estranha. No terreno, os guerrilheiros curdos tentam combater o Estado Islâmico. Tentam, mas não conseguem. E no ar, a aviação norte-americana tem conseguido atrasar, mas não travar, o avanço dos jihadistas. E do outro lado da vedação, do lado turco, estão tanques e carros de guerra parados a observar a guerra. E por detrás dos tanques, nos montes, os curdos sírios que fugiram ou os curdos turcos que se revoltam contra a apatia de Istambul, observam a guerra.

Kobani está prestes a cair nas mãos dos terroristas. Mas Erdogan mantém-se firme na sua promessa de não se envolver nos ataques contra o Estado Islâmico. Erdogan não quererá ter os radicais à porta de casa, do lado de lá da vedação. Mas também já se percebeu que se calhar prefere os jihadistas do que incentivar algum tipo de acção que dê força à causa curda e a aspirações de autonomia. E a Turquia não perdoa os EUA por terem abortado no ano passado o ataque contra o regime de Assad. E do lado americano, pede-se a Ancara que ponha boots on the ground para travar o Estado Islâmico.

E enquanto Washington e Ancara tentam alijar responsabilidades na defesa de Kobani, aumenta o receio do que acontecerá quando a cidade for tomada pelos jihadistas. Limitar-se-ão a hastear uma bandeira negra do lado de lá da vedação?