Stefan Wermuth/Reuters
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Estudo quer alertar para stress e ansiedade entre futuros médicos

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto querem alertar estudantes e escola para problemas de stress e ansiedade, com um estudo inovador

A entrada no ensino superior e a adaptação a uma nova realidade — que inclui, muitas vezes, nova cidade, novos amigos e um novo nível de exigência académica — não são tarefas fáceis. No entanto, quando o curso é Medicina, tudo pode tomar outras proporções. Afinal, “para além de muito exigente, é um curso muito pretendido” no qual é “muito complicado entrar”. Quem o diz é Pedro Diogo, aluno da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). A frequentar o 6.º ano do Mestrado Integrado em Medicina, lembra não só o nervosismo da entrada nesta nova etapa mas também "o percurso longo" que se sucedeu.

“Há muita coisa para ser aprendida, muitas noções para serem ganhas”, diz. Depois, há a sensação de estar "a fazer uma coisa muito nobre e muito importante", em que “tudo o que é feito na estrutura do currículo deve ser encarado com muita seriedade", explica. Investigadores da FMUP querem chamar a atenção para esta realidade entre futuros médicos, e ajudar a invertê-la, com um estudo inovador "To be a doctor".

“Feliz ou infelizmente, acho que não sentimos constantemente esse peso sobre os ombros”, ressalva Pedro. Um ambiente e uma ansiedade que parecem latentes à grande maioria dos estudantes de Medicina e que já têm vindo a ser documentados em alguns estudos, mas que uma equipa do Departamento de Neurociências Clínicas e Saúde Mental da FMUP quer agora estudar mais a sério.

Avaliar componente psicológica

A investigação chama-se "To be a doctor (Medical education: a longitudinal study of students satisfaction, performance and psychosocial profile)" e é um projecto pioneiro que pretende seguir um grupo de estudantes desde o 1.º ano do curso — "um período muito interessante" — até aos primeiros anos de prática clínica, "mais uma transição". O objectivo é "avaliar como a componente psicológica destes alunos resiste ao passar do curso", explica Margarida Braga, líder do grupo. Actualmente, estão em estudo 900 alunos.

"Por muito que estejamos a aplicar estratégias de ensino padronizadas, os alunos recebem-nas de maneira diferente, de acordo com a sua personalidade, o seu passado, as suas experiências...", conta. "A partir de uma certa altura, com base naquilo que tínhamos vindo a ler, percebemos que esta poderia ser uma população com algumas características específicas que estão associadas a alguns traços de personalidade e que eventualmente os colocam sob maior stress", afirma. "Por serem muitos bons alunos, por serem jovens muito focados nos seus objectivos, com grande capacidade de trabalho...".

O "burn out", ou seja, "algumas situações de stress já com maior desgaste", e os "factores de resiliência" destes estudantes, ou "o que lhes permite lidar com esses desafios", são outras componente que o estudo pretende abordar. "O suporte social, por exemplo, é um dado reconhecido [nestes casos], que funciona como um amortecedor desse stress, por isso queremos avaliar como se desenvolve a rede de relacionamentos sociais e afectivos", explica Margarida.

São, pelo menos, nove anos de estudo que vão permitir a Margarida Braga e à sua equipa caracterizar a experiência de cada aluno — e compará-la entre si e no geral — tendo em conta as características pessoais (género, personalidade, experiência pessoal, capacidade de comunicação, forma de lidar com o stress) e de contexto (exigências curriculares, actividades de lazer, relacionamentos afectivos e suporte social), a performance académica e a satisfação com o curso.

"Queremos exportar as nossas conclusões para influenciar, naquilo que for possível e viável, o percurso académico destes estudantes, no sentido de criar para os alunos condições favoráveis ao seu bem estar psicológico e à sua saúde física", junto da própria instituição. No entanto, "sabemos que a população médica e os próprios alunos de Medicina tendem a descurar o seu próprio bem estar (…) e é também isso que queremos evitar", sublinha a investigadora.

"O desenho inicial do estudo prevê a comparação com outros grupos, alunos de outras faculdades, populações de jovens não universitários e até alunos de outras escolas de Medicina", aponta Margarida. Minho e Aveiro são duas das universidades cujas colaborações já estão desenhadas e está ainda a ser estudada a possibilidade internacionalização do modelo.