Chor Sokunthea/Reuters
Foto
Chor Sokunthea/Reuters

Megafone

Quero uma lista pública de pessoas que vistam amarelo!

A proposta de criação de uma lista pública de pedófilos é sintomática de uma sociedade que perdeu a esperança nas suas regras

Não é de agora que a sociedade sente necessidade de rotular cidadãos e de as colocar ao escrutínio da justiça popular. Foi assim, por exemplo, no século XX com o holocausto, na idade média com a caça às bruxas e a peste negra, no império romano com a perseguição aos cristãos; o estigma em foco, hoje, é a pedofilia.

Naturalmente que não posso colocar no mesmo patamar um crime hediondo com uma profissão de fé ou a liberdade de pensamento, mas o fenómeno que dá origem à motivação de exposição e escrutínio público não é diferente: a protecção moral, física ou religiosa dos nossos entes queridos.

Sendo pai, também me dói a possibilidade de que algo de horrível aconteça aos meus filhos; mas não posso perder a clareza de raciocínio e a elevação nas posições. A proposta de criação de uma lista pública de pedófilos é sintomática de uma sociedade que perdeu a esperança nas suas regras.

Um dos principais motores do sistema penal enquanto o conhecemos é o princípio de reabilitação dos cidadãos condenados. A pena não é (apenas) um castigo, antes um período que entendemos suficiente para que o indivíduo perceba o erro cometido e repense os seus valores de integração na sociedade. Se aceitamos que um indivíduo, após cumprimento da pena, tem de ser monitorizado pela população, estamos a assumir a sua não reabilitação, admitindo a mais que provável reincidência no crime.

Dir-me-ão que, neste caso, o risco é imponderável porque pode representar um trauma vitalício para os nossos pequenos. Ora bolas, e não o serão também os outros? O traficante que vende a nova droga da moda em frente ao portão da escola, o alcoólico acelera que não respeita as passadeiras, o ladrão que redunda em homicida sem remorso... não poderão eles igualmente condicionar, permanentemente, a vida dos nossos filhos?

Faça-se, então, uma lista pública com todos os condenados.

Mas, já agora, porque havemos de nos ficar por esses? Porque não controlar também os potenciais? Faça-se uma lista de todos os que tenham sido já identificados pela polícia como delinquentes. Juntem-lhe uma lista de todos os que possam aliciar os nossos meninos para caminhos violentos, como a carreira militar ou a prática do kickboxing. Ou, já que estamos nisto, sendo ateu num estado laico, não quero os meus filhos expostos a propaganda religiosa que lhes tolde a moral; listem-se, por isso, os sacerdotes e os divulgadores de fé...

O que aceitamos com estas “listas” é que a sociedade admita não conseguir a reabilitação dos delinquentes mas assuma o risco de os ter, ainda assim, integrados. Seremos todos milicianos da lei, da moral e dos bons costumes... e, mais uma vez, Orwell profético surge, quando em “1984” (em 1949) descrevia uma sociedade em que o escrutínio era de tal forma rígido que até os filhos denunciavam, às autoridades, práticas ou pensamentos desviantes por parte dos pais...

Haja bom senso e respeito pela liberdade.

Ah... e listem-se também os militantes comunistas que, esses sim, comem criancinhas ao pequeno-almoço.