Kai Pfaffenbach/Reuters
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Kai Pfaffenbach/Reuters

Megafone

Arroz de pimentos

Entreolhamo-nos no sofá, ela quer torturar os gatos ou ver desenhos-animados, eu quero ter 22 outra vez (sem filhos, nem contas, nem cabelos brancos)

Encosto o rabo aos calcanhares e cumprimento os colegas da minha filha, um por um esticam-se a tentar agarrar-me a mãozorra, riem-se da graça de agirem como grandes; parecem o sul da Europa a pensar que engana os brancos do Bundesbank com facécias de crescido. Deixo-os na piscina de areia com a ilusão de controlo, agarro a minha sem ligar às queixas e passo a cancela inacessível aos pequenos. Manipulo-a como um boneco, arranco-lhe sapatos e meias para lhe sacar a areia, ela diz coisas e eu sorrio-lhe condescendente sem escutar nada.

Empurro o carrinho a caminho da padaria, ela canta musiquinhas e eu assobio o “Tanto Mar” do Chico, esperamos pelo verde a ver os ricaços nos seus Volvos e BMWs, com montes de manguitos mentais porque os pobres são assim: assanhados e mal-agradecidos para com os criadores de emprego. Cruzamo-nos com um cromo que passeia um furão branco pela trela, com o ar mais normal deste mundo, provavelmente só para provar que a realidade é rica e variada e interessante, provavelmente só para eu ter uma história para contar ao jantar. Agradeço-lhe logo mentalmente, os excêntricos são o sal da vida.

Na padaria a miúda aponta para os bolos e exige ser satisfeita, eu verifico as correias do carrinho e, logo que sossegado, explico-lhe o que é o défice enquanto compro um bolo para mim e nenhum para ela, o poder absoluto é uma coisa muito linda, e essa história de corromper absolutamente é patranha de francês empoado. A padeira acha mal mas não diz nada, boa colaboradora que é do dono da farinha (

P3" href="http://p3.publico.pt/actualidade/economia/13867/colaboradora-e-tua-tia" target="_blank">o tio João explica e ensina); esta criança não tarda nada transforma-se numa pobre profissional, que falta de chá!

Saio da padaria a assobiar o “Um Tractor” do Sérgio enquanto a garota geme baixinho, baixinho é bom, chateia menos, se cantares um fadinho chamo-lhe arte e espeto contigo no panteão. Passamos pelas burguesas da esplanada do café, óculos escuros ao tempo farrusco, a digitar inutilidades nas suas maquininhas, os cães anõezinhos com a tristeza afivelada ao focinho e o pescoço encoleirado à perna da mesa; porra, tudo me lembra Portugal, devo estar com saudades de casa!

Carrego a cria escada acima, já esquecida do desgosto da padaria, bem diz o centrão: ai aguenta aguenta! Eu mudo-me é para aquele cabeço ao pé de Alcácer, cavar batatas e plantar liamba, viver em harmonia com os bichinhos e lavar as vergonhas com óleo de linhaça ou com o que estiver na moda agora, sacar o “Game of Thrones” e apelar à guerrilha urbana na caixa de comentários do P3, só ouvir música com mais de 40 anos enquanto os gatos caçam libelinhas no quintal, sem ter de saber quem é o Wolfgang Schäuble, ou o Justin Bieber, ou a Teresa Guilherme, ou o ébola, ou o Nuno Rogeiro, ó o sossego que haveria de ser!

Entreolhamo-nos no sofá, ela quer torturar os gatos ou ver desenhos-animados, eu quero ter 22 outra vez (sem filhos, nem contas, nem cabelos brancos). Negociamos e negociamos e acabamos por arrematar: ela senta-se no chão e embala o boneco careca a que chama Zequinha (porque a mamã é muito de esquerda) e eu avanço com o arroz... abro a janela da cozinha e o volume aos Clash só para lixar os vizinhos, corto a cebola e os pimentos, toma lá sociedade de consumo que já comeste!