Reportagem

Hoje há aulas até às 13h30, amanhã logo se vê

Na escola Francisco de Arruda, em Lisboa, o horário é servido como um menu de almoço que só se conhece a cada manhã. Falta de professores levou também a um protesto dos pais dos alunos da Escola Pedro de Santarém.

Mais de 30 pais manifestaram-se junto à Escola Pedro de Santarém
Fotogaleria
Mais de 30 pais manifestaram-se junto à Escola Pedro de Santarém Enric Vives-Rubio
Na Escola Pedro de Santarém foram colocados cartazes de protesto
Fotogaleria
Na Escola Pedro de Santarém foram colocados cartazes de protesto Enric Vives-Rubio
Um papel à porta da Escola Francisco de Arruda indica o horário adaptado para cada dia
Fotogaleria
Um papel à porta da Escola Francisco de Arruda indica o horário adaptado para cada dia Enric Vives-Rubio

A chuva quase incessante não convida a grandes ajuntamentos à porta da Escola Francisco de Arruda, em Lisboa. Ao contrário de segunda-feira, hoje os portões estão abertos. “Ena, já há aulas”, exclama um dos alunos, apressado pelas gotas de água. Um papel afixado numa parede de pedra contraria o entusiasmo do estudante: o documento, semelhante a um menu, indica para cada turma o horário de hoje. Mas só de hoje. E não necessariamente de aulas. Está a ser aplicado um “Regime de Funcionamento Provisório com Actividades Lectivas, Actividades de Substituição e Outras Adequações Aplicadas ao Horário Normal da Turma”, que faz com que o 5.ºA, por exemplo, possa ficar até às 13h30, enquanto o 5.ºF fica livre às 11h50. Amanha logo se vê.

Maria José Moreira é professora de educação especial nesta escola na Calçada da Tapada, em Lisboa, há quase oito anos e assume que nunca um arranque de ano lectivo teve tantos problemas. Ao fim de três semanas, ainda faltam 15 docentes neste estabelecimento. “Nunca assisti a nada assim. Falta sempre um ou outro professor, mas a situação resolve-se nos primeiros dias. Neste ano, isto a que assistimos não foi um concurso, foi uma lotaria”, lamenta a docente.

Esta professora tem estado a acompanhar os alunos que lhe cabem, até por serem meninos com necessidades educativas especiais. Mas para os restantes admite que têm sido semanas “caóticas”. “É muito triste despedirmo-nos dos colegas que tinham sido aqui colocados há poucas semanas e que agora, por um erro, tiveram de sair com as vidas já mudadas”, acrescenta, em referência aos problemas que levaram à anulação da colocação de alguns docentes através da Bolsa de Contratação.

Do lado dos alunos a postura também é de apreensão. Depois das férias grandes esperavam uma entrada em força e o sabor é de desilusão. Inês Felício tem dez anos e entrou agora para o 5.º ano. Veio do Barreiro com alguns receios da escola nova. “Não tenho professor de Educação Física nem de Português”, diz. Vai ter aulas hoje? “Ainda não sei bem, mas sei que posso entrar”, adianta, depois de verificar que rectângulos estão preenchidos a verde na folha afixada na parede. Está preocupada com o atraso na matéria? “Os meus pais falam nisso, eu nem por isso… é mesmo mais chato porque estou numa escola nova e isto deixa-me um bocadinho nervosa”, explica, ao mesmo tempo que um pai espreita o horário e respira de alívio. Pelo menos hoje. Hugo Parradas deixa o filho de nove anos na escola. “Pelo menos até ao almoço tem aulas”, adianta, dizendo que de tarde vai ser o costume: a avó, amigas da mulher ou o local de trabalho dos pais têm sido a solução.

Mais abaixo, na mesma rua, funcionam as aulas até ao 4.º ano. Mafalda Maceira acaba de deixar Simão, de oito anos, para mais um dia “a fingir que está no 3.º ano”. O filho transitou para o 3.º ano mas a professora primária passou a integrar a direcção da escola e ainda não há quem a substitua. “Ele aprende rápido por isso não estou muito preocupada com o tempo perdido, não faz é sentido que ele continue a repetir as fichas do 2.º ano a fingir que está no 3.º ano, o que o faz ficar farto”, explica a mãe.

Protesto em Lisboa
Situações como a da Escola Francisco de Arruda repetem-se por todo o país. O que levou mais de três dezenas de pais da Escola Básica 2/3 Pedro de Santarém, também em Lisboa, a protestarem na manhã desta terça-feira junto aos portões do estabelecimento de 1300 alunos e onde ainda faltam 23 professores. “Quando?” e “Como?” é que a falta de docentes vai ser ultrapassada é a pergunta feita pelos pais através de cartazes, ao mesmo tempo que gritam “queremos professores”.

Manuel Barata, presidente da Associação de Pais da Escola Pedro de Santarém, explica ao PÚBLICO que decidiram convocar o protesto por não terem qualquer expectativa de solução para um problema que se arrasta. “Há turmas sem Francês, Inglês, Matemática e Educação Física. São quatro disciplinas numa só turma. Os alunos chegam a vir para ter uma aula às 8h15 e só têm outra de tarde. Aqui estão a receber as crianças porque a direcção tem feito um enorme esforço e a Junta de Freguesia de Benfica tem disponibilizado monitores, mas isto não é solução”, lamenta o também pai de um aluno do 8.º ano. Manuel Barata descreve que há salas onde temporariamente se misturam turmas, o que faz com que existam mais de 40 alunos e, por vezes, de anos diferentes. “Não queremos avaliar isto politicamente mas somos obrigados a avaliar”, sublinha o representante dos pais.

Uma crítica semelhante é deixada por Ricardo Martins, pai de dois alunos do 1.º ano e 3.º ano e também membro da Associação de Pais. “Se não houvesse o apoio da direcção da escola e a coordenação com a junta de freguesia, isto seria mais caótico. Mas não podemos dizer que começou o ano lectivo quando não temos professores ou quando não conseguem dar a matéria, porque têm alunos de outros anos encaixados nas salas”, explica, questionando ainda “se os alunos e professores são avaliados, então quem é que avalia o Ministério da Educação” perante este atraso.

Um atraso que afecta rostos diferentes. No caso de Pedro Matos, pai de um menino de nove anos com necessidades educativas especiais, a situação está a gerar um grande paradoxo. Pelos problemas de aprendizagem, o filho terá de repetir o 2.º ano. Mas ainda não há professora de educação especial, pelo que o menino é obrigado a frequentar, para já, a turma de 3.º ano, a mesma para a qual não estava preparado. “Fala-se muito do superior interesse da criança, mas o ministro não está a zelar por isso. Tenho tentado que ele em casa faça as fichas do 2.º ano, com a ajuda da irmã de 17 anos, mas não é fácil nem justo que prejudiquem quem ainda por cima já tem dificuldades”.