Tele-rastreio diminuiu lista de espera de dois anos para apenas um dia

Administrações regionais de saúde estão a distribuir máquinas fotográficas em centros de saúde de todo o país.

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Programa de tele-rastreio começou em Janeiro, em Bragança Enric Vives-Rubio

Quando o programa de tele-rastreio dermatológico arrancou no Nordeste transmontano, no início deste ano, a lista de espera para consultas hospitalares da especialidade era de quase dois anos. Hoje a espera é de um dia, afirma Luís Gonçalves, coordenador do Grupo de Trabalho de Telemedicina, que explica que estão a estender o sistema a todo o país e que há mais especialidades na calha. O objectivo é que possa haver uma redução de 70% nas listas de espera de algumas consultas, como a dermatologia, em que a ferramenta pode ser usada. O vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, Jorge Cardoso, considera que a medida poupa recursos, mas que nada em medicina é isento de riscos.

Desde Janeiro deste ano arrancou em Portugal o chamado “tele-rastreio dermatológico”, ou seja, utentes que vão aos centros de saúde com lesões na pele são vistos pelos médicos de família, que avaliam se o doente precisa de ser visto por um dermatologista e se o pode fazer à distância. É no centro de saúde que as lesões na pele são fotografadas, de acordo com regras definidas numa norma da Direcção-Geral da Saúde, e depois enviadas para dermatologistas dos grandes hospitais que decidem se a pessoa precisa de ser vista numa teleconsulta (através de videoconferência) ou de forma presencial no hospital. O que havia até agora em telemedicina no país centrava-se sobretudo num sistema de teleconsultas de várias especialidades no Alentejo e numa consulta de telemedicina de cardiologia pediátrica do Hospital Pediático de Coimbra para países africanos de língua portuguesa. De resto, “houve algumas experiências pontuais que não se consolidaram”, resume.

Avançar com o tele-rastreio no Nordeste transmontano teve a ver com o facto de não haver na região nenhum dermatologista residente, diz. As pessoas de Bragança tinham que se deslocar ao Hospital de Vila Real, explica o responsável. “Os que tinham recursos iam a uma consulta privada ou tinham de esperar.” A lista de espera andava nos 600 dias, refere. Avançou-se com o tele-rastreio em 14 centros de saúde da região de Bragança. Esperavam que em cerca de metade dos casos se concluísse que não havia justificação clínica para os pacientes serem vistos por um médico num hospital central, mas o número foi  superior, explica Luís Gonçalves, responsável pelo programa, que funciona na alçada dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, uma empresa pública a que cabe gerir várias valências tecnológicas do Serviço Nacional de Saúde. No Nordeste transmontano 90% dos casos ficaram resolvidos, só 10% foram encaminhados para cirurgia no hospital da região, em situações mais simples, ou, quando havia suspeita de cancro, para o Hospital de S. João, no Porto. “Resolveu-se o caso de 400 pessoas.”

O sucesso do programa na região levou ao seu alargamento progressivo — o Hospital de Gaia já o faz, assim como o de Viana de Castelo, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, o Hospital de Setúbal está a analisar casos do litoral alentejano. O programa está prestes a começar na região centro, com Viseu, Guarda, Covilhã, depois serão Leiria e Castelo Branco. O arranque está a fazer-se com três a quatro centros de saúde por hospital, nota o responsável. Nesse sentido as administrações regionais de Saúde estão a distribuir máquinas fotográficas em centros de saúde de todo o país, “algo barato e útil”.

O que havia antes era o pedido de consulta com o envio de dados clínicos, agora acrescem as imagens e a informação circula de forma segura através do sistema informático do programa Consulta a Tempo e Horas, explica. O médico faz a triagem clínica com base nas fotografias. Os doentes têm de aceitar o procedimento através de um consentimento informado e até agora não tem conhecimento de recusas de doentes, adianta. “Só 20% dos pedidos de consulta de dermatologia justificam uma ida a um hospital central.”

O objectivo é agora avançar com o mesmo sistema para a especialidade de angiologia

cirurgia vascular, isto, porque se verifica que 80% das pessoas que vão a consultas desta especialidade em hospitais centrais fazem-no devido a varizes. “Se forem mandadas fotos, as lesões podem ser observadas para compreender o seu estádio. Antes de uma cirurgia há indicações que podem prolongar o bem-estar sem cirurgia”, diz. Na oftalmologia quer-se avançar com o tele-rastreio da retinopatia diabética, uma complicação ocular que surge nos diabéticos e pode causar cegueira, através da realização de retinografias nos centros de saúde e que depois serão enviados por via informática para os médicos em hospitais.

Luís Gonçalves diz que é verdade que, por enquanto, ainda só têm os números de Bragança, mas que “os doentes poupam pelo facto de não terem que se deslocar”. “Se a informação circula porque é que as pessoas hão-de circular?” E garante que “não existe perda de qualidade”.

O vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venerologia diz que o tele-rastreio dermatológico “é uma boa medida que poupa recursos”, em que é o dermatologista a decidir as situações “em que não dispensa uma consulta presencial”. Admite, porém, que “na medicina não há nada que não tenha riscos, os médicos também se enganam mesmo com o doente à frente”; por isso, “o médico que tem dúvidas manda vir o doente”.

O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, diz que “a telemedicina pode ser muito útil na boa organização e gestão do Sistema Nacional de Saúde”, desde que sejam cumpridas algumas regras que estão definidas no quadro deontológico dos médicos. “No caso das teleconsultas têm de ser solicitadas pelo médico de família do doente, que é a quem cabe a decisão última.” No caso da dermatologia, “a maioria dos sinais são benignos e um diagnóstico destes pode ser feito por quem tem grande experiência”. “É uma situação em que a telemedicina faz sentido”, tal como no caso do rastreio da retinopatia diabética, “em que se tira uma foto ao fundo do olho para que seja lida por um oftalmologista”.