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O que se passa nas escolas? Os casos contados pelos leitores

O PÚBLICO pediu aos leitores para contarem como tem sido o início deste ano lectivo.

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Daniel Rocha/arquivo

Falta de professores, queixam-se os pais; falta de respeito, dizem os professores. O ano lectivo começou no passado dia 15 de Setembro e, desde então, as confusões com as colocações dos docentes têm sido intermináveis.

Esta segunda-feira, o PÚBLICO está a acompanhar alguns casos de alunos, professores e pais. E pediu aos leitores para contarem o que se passa. Aqui ficam alguns dos relatos recebidos.

Joaquim Leite, professor contratado desde 2002
"O ano passado fui colocado em 2 de Outubro para substituir um colega que pediu transferência. Foi-me atribuída uma turma do 1.º ano. Este ano não fui reconduzido porque não entrei em Contratação Inicial no ano passado. Para os alunos é naturalmente benéfico ter um professor que os acompanhe até ao 4.º ano, mas por caprichos da lei, isso não foi possível.
Este ano a escola tornou-se em “escola com autonomia”, isso em teoria seria benéfico para situações como esta. Autonomia soa a independência, mas, ironia do destino, a autonomia só veio complicar com uma coisa chamada Bolsa de Contratação de Escola (BCE)!
Em suma, eu estou em casa (pela 1.ª vez em 12 anos não fui chamado para dar aulas até esta data, 6 de Outubro), os alunos ainda não têm professor, estando aquele horário por preencher, vários professores foram colocados onde não havia horários, outros tiveram que abandonar os que lhes foram atribuídos.
Por mais voltas que dê à cabeça não encontro lógica para isto.
Preocupa-me a minha situação de desempregado e preocupa-me a situação dos meus alunos do ano passado que estão sem professor há três semanas! Eu até posso ser colocado dentro de dias e a vida continua, mas aqueles alunos que me deram tanto trabalho para os por a ler, escrever, etc. estão a perder momentos importantes de aprendizagem que podem ser irreversíveis.
Haja paciência, haja decência!"

O filho de Isabel sem professores em ano de exames
"O meu filho que está no 6.º ano de uma escola em Lisboa. Até à semana passada, às segundas ficava em casa, e vários dias entrava tarde ou saia cedo... Não tinha Português, Matemática, Ciências, Inglês e Educação para a Cidadania. Não esquecer que este ano há exames.
A semana passada, na quinta ou na sexta-feira lá apareceram as professoras de Matemática e Ciências, hoje foi na expectativa de já ter o primeiro bloco que são dois tempos de Português  e ... nada. Teve dois tempos de Educação Visual e às 11h30 já estava a ir para casa pois também não havia Inglês.
É triste e desmotivante para ele, lamentável esta situação!"

Henrique lamenta a instabilidade
"Venho alertá-los do caso do meu filho, que frequenta o 3.º ano, do 1.º ciclo, e que continua sem docente. Ele é aluno na EB1 Parque Silva Porto, que pertence ao agrupamento Quinta de Marrocos, em Benfica, Lisboa.
Como psicólogo clínico e formador e tendo trabalhado com crianças do 1.º ciclo, sei o quão importante é para as crianças no 1.º ciclo em particular, terem professores de qualidade, com verdadeiro sentido de causa, neste caso o ensino. Não deixo de salientar que o professor do meu filho, não deveria ter deixado a turma a meio do percurso (procura de objectivos pessoais), pois é fundamental para estas crianças manterem o mesmo docente do 1.º ao 4.º ano.
É uma instabilidade enorme tudo o que se está a passar, mas os professores não são também as vítimas que pretendem ser. Eu trabalhei com bastantes professores durante três anos e meio numa escola pública e vi  as manipulações que eram efectuadas em beneficio próprio."

Sofia podia ter ficado na mesma escola
"Venho denunciar o meu caso, comum a centenas de outros professores: reunia as condições para ser renovada e não fui. Para o meu lugar não foi ninguém. Obtive colaboração da escola e apresentei toda a documentação comprovativa da situação na Direcção-Geral de Administração Escolar (DGAE), DSCI, etc.
Sou vítima de uma grande injustiça. A lei previa a minha recondução, a escola pediu-a (e a de mais cinco colegas do meu grupo disciplinar) e o Ministério da Educação e Ciência (MEC) ignorou. Ponto.
Por incompetência do MEC não fui reconduzida e acabei por ficar colocada a 100 km de casa. Para o meu lugar foram colegas com muito menor graduação do que eu, cerca de três semanas depois. Até lá, os alunos ficaram sem professores. Se a escola não tivesse solicitado ao MEC as nossas reconduções, os seis horários teriam ido a concurso e eu muito provavelmente teria ficado colocada. A 40 km de casa.
Além disso, por ter ficado colocada em Contratação Inicial, sou automaticamente retirada da BCE, ainda que tendo por lei um mês de experiência, durante o qual posso denunciar. Ou seja, a possibilidade de ficar mais perto de casa é-me retirada.
Nada na lei diz que sou automaticamente retirada da BCE, mas a DGAE assim o garante e inclusivamente, mandou-me desistir da BCE ou denunciar contrato até dia 30 de Setembro. Episódio giro este também. Como só tinha aceitado colocação a 11 de Setembro, teoricamente o meu período experimental terminaria, de acordo com a lei geral do trabalho, a 11 de Outubro... A DGAE disse-me que nem pensar, que tal como o tempo de serviço retroagia a 1, o mesmo acontecia com o período experimental. Esclarecida por advogados, não fiz nem uma coisa nem outra. Liguei para DGAE a reclamar incorrecção das informações prestadas. Apresentei queixa aos vários organismos da tutela, Provedoria de Justiça, sindicatos, grupos parlamentares, fiz recurso hierárquico, vou interpor uma providência cautelar e vou reportar tudo ao Tribunal dos Direitos Humanos da União Europeia.
A BCE é apenas uma fatia de um enorme bolo confecionado pelo MEC. As não renovações são imorais!
As atrocidades vão para além do noticiado.
Vivemos num Estado de Direito, mas sinto-me órfã de justiça. É triste. Mas não me calarão. Chega de incompetência. Chega de impunidade. Chega."

Samuel escreveu ao ministro da Educação
"Volvidos quase 15 dias após o (suposto) início de aulas, começo este e-mail por relembrar que a má gestão numa empresa, associação ou instituição é justificadamente punida com despedimento do(s) responsável(eis) e eventuais pagamentos de multas ou penas.
Na ímpar situação que se verifica na colocação de professores e impressionante desgoverno que se observa, com contornos óbvios a cada entrevista, a cada novidade, a cada informação contraditória transmitida pelos órgãos responsáveis, as crianças são quem mais sofre. Crianças que para vós não passam de números, é certo, mas que na realidade têm emoções, carências e necessidades de aprendizagem. Crianças com pais desesperados, trabalhadores, que não têm onde as deixar.
Na urbanização que habito – uma urbanização central na Amadora com muitas escolas – vêem-se crianças a deambular pelas ruas, aguardando a hora de reencontro com os seus pais. Crianças à chuva, crianças com fome. Crianças em risco desnecessário de furto, rapto ou maus encaminhamentos. Crianças num risco prático de não estarem a aprender.
Questiono, enquanto pai, como é possível que esta situação esteja a ser tratada com tanta imaturidade e leviandade. Como é possível que não haja homens capazes de marcar uma conferência de imprensa e, mais que pedir infantilmente desculpa, assumam as suas responsabilidades e se demitam, disponibilizando o seu lugar a alguém (mais) competente que consiga responder, em tempo útil, à absurda e original situação em que as escolas se encontram."

O filho de José teve Geografia, agora já não tem
"O meu filho começou o ano lectivo sabendo de antemão que não tinha ainda professores às disciplinas de Ciências da Natureza e Geografia. O professor de Geografia foi colocado ainda no decurso da primeira semana de aulas, o mesmo não tendo acontecido até ao momento com a disciplina de Ciências da Natureza.
Hoje, no inicio da 4.ª semana de aulas, ficaram a saber que o professor de Geografia deixou de o ser, a razão é tão somente o “erro” verificado na colocação de professores.
Erro maior é continuar a pactuar silenciosamente com a incompetência (diria mesmo com a mais profunda burrice) que abunda no Ministério da Educação, nomeadamente na pessoa do Sr. ministro da Educação.
Mas uma vez que este não o seria sem a existência de um Governo, a ilação a retirar é simples: a incompetência (e a inerente burrice) não se restringe apenas ao ministério em questão, mas a todo o Governo, nomeadamente na pessoa que o encabeça e que finge desempenhar o papel de primeiro-ministro da República."

Em duas escolas, aos filhos de Mafalda faltam professores
"Na Escola Básica Prof. António Pereira Coutinho em Cascais a minha filha no 9.º ano continua sem professor de Matemática, disciplina à qual terá de fazer exame. O professor de Inglês tiveram durante a semana passada, mas ficaram outra vez sem ele.
Na secundária de S. João do Estoril, o meu filho no curso profissional de Informática está sem quatro professores desde o início das aulas. São, na maioria, professores que estão de baixa prolongada há vários anos e só depois de não se apresentarem ao primeiro dia de aulas é pedida a sua substituição. A situação repete-se ano após ano... Normalmente são substituídos nos primeiros dias de aulas, este ano ainda estamos à espera."

Sandrina optou por ficar no continente e viu a colocação anulada
"É na qualidade de professora que viu a sua colocação anulada na passada sexta-feira que os contacto. Fui na sexta-feira dispensada das funções que exercia numa escola pública do continente desde o dia 15 de Setembro e sinto-me duplamente prejudicada pois eu já tinha uma colocação garantida nos Açores.
De facto, eu tinha a 11 de Setembro decidido aceitar a colocação em Angra do Heroísmo e encontrava-me a organizar a minha vida pessoal para me mudar para a ilha Terceira. (...) Contudo, no dia 12 de Setembro, às 22h fui colocada numa escola da Tapada das Mercês, Sintra. Fiquei naturalmente agradada com esta última colocação, uma vez que resido no concelho de Oeiras (a 14 Km desta escola) e o horário era anual, embora de apenas 14h (em Angra eram 19h). Portanto, sendo eu do continente, não foi muito difícil optar por ficar em Sintra. No dia 15 apresentei-me na escola e iniciei funções no dia seguinte.
Recebi, dias mais tarde, uma comunicação da Direção Regional de Educação dos Açores a informar que, uma vez que não aceitei a colocação, estaria penalizada (não podendo concorrer nem obter colocação) no corrente ano e nos dois próximos. Esta penalização de três anos é de conhecimento público e eu sabia que ia acontecer.
Acontece que, se eu não tivesse aceite o horário em Sintra (...) a consequência seria exatamente a mesma, eu seria excluída dos concursos no continente! Portanto, a escolha era clara! Entre ser penalizada em casa ou nas ilhas, não é dificil escolher para uma pessoa que reside em Portugal continental, onde tem a família e um marido doente. (...)
Os concursos nos Açores decorreram naturalmente e não apresentaram até agora nenhuma irregularidade; a minha colocação era garantida. Portanto, se tivesse optado pelos Açores estaria a trabalhar.
Sinto-me muito lesada pois houve uma garantia de que nenhum professor seria prejudicado por erros do concurso, admitidos pela própria tutela. Eu tinha duas colocações, agora não tenho nenhuma e encontro-me desempregada por obrigatoriedades do sistema, por regras estapafúrdias sob pena de penalizações e por falta de respeito e de vergonha que os nossos dirigentes insistem em demonstrar! (...)"

Para Susana, o ministério devia responder na Justiça
"Andamos desde 15 de Setembro esperançados com o início do ano lectivo. Desde então é preciso dar voltas à cabeça diariamente para decidir o que fazer com as crianças enquanto vamos trabalhar. Hoje, três semanas depois, está tudo na mesma: alunos à toa, professores em manifestação, pais a reclamar, muitos a chorar… e o ministro e a sua equipa a trabalhar!
Suponho que estejam a trabalhar, não duvido que sim. A minha questão neste momento é muito mais grave do que isso. Mas será que o senhor ministro e o seu ministério acham que isto é trabalhar? Acham que é assim que se trabalha? Chegarão a casa à noite e dirão aos maridos e mulheres: “Ui, querida/o, estou estoirado/a, tive um dia de cão!”
É que se assim for, não são apenas pessoas incompetentes! São também inconscientes, irresponsáveis, e perigosíssimas! Não medem as consequências dos seus actos e não olham a quem e a quantos prejudicam.
Num país de gente séria, os responsáveis máximos demitiam a equipa em bloco se no dia marcado não estivesse tudo OK. E se por algum conjunto de infelizes factores chegasse a este ponto deveriam responder perante a Justiça.
Porque um ministério não pode falhar assim para com o país. É falta de educação! E como podem pessoas sem educação ter a pretensão que saber ensinar quem ensina?
O nosso Governo, e o Ministério da Educação em particular, está entregue a figuras muito instruídas mas que não sabem trabalhar. Ora se não sabem trabalhar, saiam da frente e deixem quem sabe. Porque os meninos de que não querem saber hoje, podem ser os vossos médicos, enfermeiros ou advogados de amanhã. Ou professores dos vossos netos. Querem-nos bons, não querem?..."

Ricardo foi duplamente penalizado
"Fui colocado a BCE de 12 de Setembro, horário completo numa escola do Seixal, tive de desistir de um concurso na Madeira onde provavelmente obteria um horário, como aconteceu nos últimos dez anos e agora com o despacho de revogação do Ministério da Educação fico sem escola e duplamente prejudicado. Respondi a todos os critérios correctamente como a escola pediu e agora prejudicado por um erro que não foi meu."

Isabel vai para tribunal
"Sou professora há 14 anos, sendo que nos últimos cinco tenho leccionado no grupo 910 (educação especial), tendo ficado sempre colocada a 1 de Setembro com horário completo e anual.
Hoje, dia 6 de Outubro encontro-me estranhamente em casa, ainda à espera de ser colocada devido a um erro? A um engano?... Que levou a que o meu contrato não tivesse sido renovado, quando existiam todas as condições para que isso acontecesse.
Até ao momento, nenhum colega foi colocado nesse agrupamento de escolas, nesse horário...
Enviei um recurso hierárquico à DGAE a solicitar a rectificação desta situação, ao qual me respondeu que o Agrupamento de Escolas onde deveria ter continuado o meu trabalho, "não indicou a necessidade de um horário completo para o GR 910 na plataforma das Necessidades Temporárias 2014" .
Porém,  o director desse agrupamento garantiu-me ter pedido a minha renovação, assim como ter pedido o respectivo horário, sendo que, segundo o mesmo, a informação que me foi enviada pela da DGAE em resposta ao meu recurso hierárquico não corresponde à verdade.
Ou seja, irei levar esta situação a tribunal, uma vez que ninguém assume responsabilidades.

Álvaro nunca viu nada assim
Tenho um menino que está no 3.º ano na escola Actor Vale, em Lisboa. Já é o segundo ano seguido que ficamos à espera de professor para o miúdo. Nunca em tantos anos de escolaridade minha, da mãe e do nosso filho mais velho, vi algo, semelhante sequer acontecer.
Portugal está uma desgraça, estamos a perder todos os direitos que foram ganhos pelos nossos Pais e Avós.
Hoje em dia o comum Português só tem deveres e impostos para pagar.
Triste fado o nosso como se costuma dizer.

Maria Rosa: Os erros continuam a persistir
É na qualidade de professora, fui colocado a BCE de 12 de Setembro, horário completo que vi a  colocação anulada na passada sexta-feira. Sendo  dispensada das funções que exercia numa escola pública. Contrato anulado dela DGAE.
Tenho dois filhos menores (5 e 7 anos), tive de me deslocar do Alentejo para Almada; fazer transferência de escola de dois filhos e arranjar ATL num colégio pois o horário de saída não era compatível com um CAF.  Alugar casa.
Sendo uma família monoparental, vejo-me numa situação que nunca pensei passar. Até ao momento não saiu qualquer lista para recolocação dos 150 professores que ainda estão para colocar porque na passada sexta-feira viram os seus contratos anulados pela DGAE.
Fala-se de aceitar os horários até às 0h do dia de hoje mas para quem tem colocação e os 150 que ainda não tem, esses esquecemos?
Os erros continuam a persistir, hoje ao ir a escola, confrontei-me com uma colega que tem quatro horários à sua disposição para aceitar um deles. 

Dina está revoltada com tudo isto
"Sou professora do 1.º ciclo, felizmente colocada numa escola no Parque das Nações, em Lisboa. Uma escola pública mas de elite em que não tive vaga para uma das minhas filhas.
A minha pequena de 7 anos teve de ir para onde tinha vaga, porque nesta altura já está tudo preenchido e os filhos de professores não têm nenhuma vantagem em o ser. Ou melhor é só desvantagens!
Colocada numa escola TEIP, continua sem professora no 2.°ano. Tenho-a levado comigo para a minha escola (isto há um mês)! Coitados dos pais que não os podem levar e não têm com quem os deixar.
Sinto-me impotente perante esta situação e cada vez mais desiludida com este Governo e a maneira como tratam os pais, professores e as crianças.
Deveriam ser eles a responder à minha filha que tem uma mãe professora numa boa escola  e tem de ir para uma escola TEIP sem professora. Revoltada com tudo isto!"

Paulo não sabe o que responder ao filho
"Ontem, quando cheguei a casa, o meu filho fez-me uma pergunta que eu por mais boa vontade que tivesse não fui capaz de responder, a pergunta era lógica e na minha opinião não deveria ser difícil de responder, mas eu, um adulto de 40 anos não consegui responder a uma simples pergunta do meu filho de 7 anos, um dos 25 alunos do 2.º C da Escola Aprígio Gomes na Amadora, e acreditem que me esforcei para lhe dar uma resposta lógica.
Por isso prometi ao meu filho que ia pedir ajuda para lhe poder responder à sua simples pergunta (...). A referida pergunta é simples: Por que me tiraram o professor João Nuno Batista???"