Opinião

Corri a Maratona de Lisboa e sobrevivi, mas com danos…

Há um ditado entre os corredores da prova que diz que não custa fazer a maratona, custa é treinar para ela. Não é um ditado totalmente verdadeiro
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Após três horas e 27 minutos a correr, chego a casa com três bolhas de sangue nos pés, duas no direito e uma no esquerdo, a mais repugnante e que me vai impedir de usar havaianas durante alguns dias neste Verão mais do que atrasado para não causar repulsa aos transeuntes. Mas também com dores nas pernas, que reclamam aos gritos da sua utilização excessiva durante os 42 quilómetros e 195 metros da Rock 'n' Roll Maratona de Lisboa EDP. Foi este o programa que cerca de quatro mil atletas, profissionais mas principalmente amadores, escolheram para a manhã de domingo, dia 5 de Outubro.

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Há um ditado entre os corredores da prova que diz que não custa fazer a maratona, custa é treinar para ela. Não é um ditado totalmente verdadeiro (e quem correu uma maratona tem consciência disso), mas resume na perfeição o sofrimento da prova mais emblemática do atletismo.

É verdade que o alarme tocou às 6h15 para apanhar o comboio das 7h00 para Cascais, juntamente com centenas de corredores que esgotaram a sua lotação e que tiveram de sentar nos corredores das carruagens para poupar as pernas durante a viagem de 40 minutos (já bastava o que elas iriam sofrer depois…). Mas há que dizê-lo, felizmente tocou pela última vez, já que foram três meses de convivência difícil. Antes de tudo a maratona é uma prova de persistência. Para concluí-la não há espaço para “mentirinhas”, tipo “hoje não estou com disposição, amanhã compenso”; não há “compensações”, é necessária uma entrega sem complacência aos treinos, que colocam muitas vezes família e amigos em segundo plano.

Em relação à prova, parti com uma grande incógnita, já que não sabia o que esperar do meu tempo. Ao contrário do habitual, resolvi abdicar dos treinos longos (treinos onde corremos cerca de três horas para habituar o corpo ao esforço de uma maratona) e das séries (treinos mais curtos mas extremamente intensos). Nos três meses de preparação para a prova fiz uma média de quatro dias de “trabalho duro” e um de descanso. Os treinos eram correr cerca de 14, 15 quilómetros em uma hora e 10 minutos. Ou seja, não sabia como reagiria o meu corpo quando chegasse a hora da verdade e o desejo era baixar o meu melhor tempo, três horas e 29 minutos.

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“Colei-me” à “lebre” (atletas contratados pela organização que controlam o ritmo da corrida) das três horas e meia logo em Cascais e tudo correu bem até ao quilómetro 31, quando senti a primeira grande quebra, curiosamente quando os corredores recebem mais apoio do público, entre a Praça do Comércio e o Restauradores (exceção a parte final). Até então, a “lebre” estava a puxar pelo pelotão e tínhamos uns três minutos de vantagem sobre o tempo de referência.

Altura para citar mais um ditado da maratona: “Quando as pernas não dão mais, corre com o coração”. Além do coração, é também correr com a cabeça. A maratona é uma prova muito psicológica, a mente define o sucesso ou o revés, geralmente denominado por “MURO”, quando os efeitos da fadiga ditam as regras.

Teoricamente, encontrei o meu “muro” aos 36 quilómetros. A “lebre” abriu uma vantagem perigosa e não a consegui acompanhar. Por muito pouco não desisti, estive muito próximo do meu limite, senti-o, tanto a nível mental como físico. É precisamente quando estamos a bater no muro que a força mental tem de ser decisiva. Consegui resistir e apanhei novamente o meu “guia espiritual” aos 38 quilómetros. Todavia, o esforço foi grande e, aos 40 quilómetros, dei comigo outra vez a bater no muro. O cansaço era tal que, aos 41 quilómetros, as ideias baralharam-se e pensei que faltavam apenas cinco minutos para o fim da prova (ao fazer 3h30 numa maratona, corremos cinco minutos por quilómetro), mas na verdade faltavam dez (a maratona são 42,195 quilómetros…).

Esse “erro” matemático acabou por ser decisivo para o tempo final. Só dei com o engano quando me cruzei com a indicação da placa dos 41 quilómetros. Olhei para o relógio e constatei que os três minutos ganhos pela “lebre” se mantinham. Um incentivo decisivo para os 1195 metros finais… mesmo com três bolhas de sangue e dores insuportáveis nos pés.

As pernas continuam em “papa” e o “Dr. Google” diz que as bolhas vão cá ficar cerca de duas semanas, mas não sei se não será de aproveitar o embalo para a maratona do Porto, em Novembro.