Boiko Borisov vence as eleições na Bulgária mas não consegue formar Governo

Votação apropfunda a crise política no país. O sistema bancário está em colapso e o país arrisca perder o fornecimento de gás russo, essencial para o Inverno que se aproxima.

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O populista Boiko Borisov deverá ser o próximo primeiro-ministro AFP

O partido de centro-direita Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB) confirmou o seu favoritismo e venceu as eleições legislativas deste domingo, alcançando o dobro dos votos dos seus rivais.

No entanto, a força política do populista Boiko Borisov não conseguiu chegar à maioria, e perante a perspectiva de difíceis negociações para a formar Governo, agendou para esta segunda-feira uma discussão interna para “decidir como proceder” face à fragmentação política resultante da votação. “Estou preparado para governar o país, mas não consigo ver como será possível compor um Governo nestas condições”, admitiu Borisov, citado pela Reuters.

Segundo as projecções à boca das urnas da Alpha Research, o GERD preparava-se para assegurar 90 dos 240 assentos no parlamento, com 33% dos votos. O Partido Socialista Búlgaro terá obtido 16,5% e 45 lugares, seguido do Movimento de Direitos e Liberdades, o partido da minoria étnica turca, com 14% e 38 parlamentares. Estes dois partidos sustentaram o anterior executivo, formado por tecnocratas, e que caiu em Julho, precipitando a votação intercalar.

Borisov pôs de parte a possibilidade de uma aliança com os socialistas durante a campanha eleitoral. Questionado depois do fecho das urnas, revelou-se cauteloso, dizendo apenas que está disposto a negociar sem “colocar pré-condições”. “Peço aos líderes partidários que avaliem os resultados com seriedade antes de fazerem declarações”, acrescentou, segundo a agência búlgara Novinite.

Antes de ir às urnas, os búlgaros – que já tiveram três governos em menos de dois anos e se debatem com uma profunda crise económica – diziam-se cansados de crises políticas. As sondagens antecipavam mais uma coligação frágil no país mais pobre da União Europeia, e a contagem dos votos acabou por confirmar as projecções: com outros quatro partidos a ultrapassar a barreira dos 4% necessários para garantir uma representação parlamentar, a negociação de apoios entre as diversas bancadas tornou-se mais difícil.

As sondagens projectavam cerca de 9% ao Bloco Reformista de centro-direita; 6% ao partido Bulgária Sem censura e 6% para a nacionalista Frente Patriótica. O partido do ex-Presidente Georgi Parvanov, o ABV, ficou nos 4%.

A instabilidade que se adivinha é um revés para os eleitores e para os investidores, que têm visto o país a mergulhar cada vez mais na crise - o investimento estrangeiro caiu 5% só este ano. Em declarações ao canal Nova TV, o porta-voz do Bloco reformista, Petar Moskov, explicou que o seu partido “não apoia nem o GERB, nem Boiko Borisov; apoia novas políticas apresentadas por caras novas”. O partido era apontado pelos analistas como possível parceiro num Governo de coligação, mas as palavras de Moskov deixam entender um apoio parlamentar casuístico.

No topo das prioridades do novo Governo está encontrar uma solução para o Corporate Commercial Bank, uma das principais fontes de crédito do país e que fechou as portas depois de uma corrida ao levantamento dos depósitos em Junho. O banco está desde então num limbo - a crise política não permitiu que fosse encontrada uma solução - e os depositantes não conseguem aceder às suas contas. O principal accionista foi acusado de corrupção.

Sete anos depois de o país de 7,3 milhões de habitantes ter aderido à União Europeia, com grandes esperanças de prosperidade, a corrupção é endémica e um em cada cinco búlgaros vive abaixo do nível de pobreza. O salário médio é de 400 euros por mês. "Espero que os políticos mostrem finalmente alguma compreensão, que enterrem o machado de guerra e que percebam que a maior parte dos búlgaros vive numa luta constante", disse à Reuters Petya Marinova, contabilista de 47 anos. "As pessoas estão fartas dos jogos sujos."
 

Entalada na fronteira sudeste da União Europeia (UE), junto ao Mar Negro, a Bulgária deixou o comunismo há 25 anos, mas os nostálgicos estão divididos entre a fidelidade a Bruxelas e a Moscovo. Muitos dos que estão divididos apresentam razões práticas. O país depende da Rússia em termos energéticos e é um dos países mais vulneráveis da UE se houver um corte no fornecimento de gás entre a Rússia e o Ocidente devido à crise na Ucrânia. 

O novo Governo terá que andar com pés de lã sobre a negociação diplomática para a construção de um gasoduto russo que passa pela Ucrânia. Sob pressão da UE e dos Estados Unidos, Sofia interrompeu os trabalhos na sua parte do projecto em Junho.