Quatro paredes vivas, design de clorofila

Michael Hellgren desenha jardins verticais e o seu novo projecto acaba de se revelar em Lisboa:no Espelho d’Água, o modernismo, as begónias e as aróideas são o selvagem na sala de refeições

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        É uma casa modernista portuguesa com certeza, com um mural de Sol Lewitt numa parede, calçada à entrada desenhada por Yonamine e quatro paredes vivas. Verdes. Luxuriantes, são um jardim ao alto, obra de design e arquitectura recheada de begónias, muitos tipos de aróideas (da família dos jarros) e com mudanças prometidas para os próximos meses — vão crescer. O recém-reaberto Espelho d’Água, em Lisboa, é vizinho do Padrão dos Descobrimentos e do Tejo e lá dentro o design está a florir.

O jardim vertical do Espelho d’Água é uma das novidades do interior do edifício projectado por Cotinelli Telmo para a Exposição do Mundo Português de 1940 e que agora é um bar, restaurante, galeria e sala para sessões de cinema ou concertos. Gerido pelo empresário luso-angolano Mário Almeida, vencedor do concurso lançado em 2012 pela Associação de Turismo para explorar aquela janela com vista para o Tejo e para o passado português, o seu interior é resultado da consultoria do atelier de designers Pedrita e do projecto do arquitecto Duarte Caldas de Almeida. Mas é o verde que aqui nos traz.

E Michael Hellgren é o culpado. Sueco e arquitecto paisagista, desenha jardins-parede, interiores ou exteriores, como o da loja da Replay em Barcelona ou estes 113m2 de Lisboa com mais de cinco mil plantas de cerca de 70 espécies. A sua parede rivaliza pela atracção do olhar com o tal mural do norte-americano Sol Lewitt, datado de 1990 e escondido até que as obras dos últimos meses no Espelho d’Água o devolveram à superfície. Mas a parede de Michael está viva. E daqui a dois meses, avisa-nos o designer da clorofila, estará diferente. Há plantas que ainda têm de crescer, amadurecer.

A luta pelo olhar de quem visita o Espelho d’Água é algo que não escapa a Hellgren, que se encontra agora a meio de um projecto em Estocolmo. “É um espaço muito clean e elegante, por isso [o jardim] torna-se muito visível. Gosto do contraste com as paredes brancas e com o chão de cimento — as plantas sobressaem ainda mais. E acho que a sua presença como algo vivo cria um certo equilíbrio num espaço bastante minimalista.”

A arquitectura modernista do antigo Pavilhão dos Portugueses no Mundo para a exposição de 1940 foi respeitada da fachada às janelas, mas ganhou uma clarabóia, por exemplo. Luz não era um desafio para Michael Hellgren, mas cobrir mais de 100m2 espalhados por quatro paredes foi. “Gosto de criar jardins com muita vida, onde haja surpresas. No Espelho d’Água, há quatro paredes que se podem contornar, por isso quis dar a cada uma um carácter ligeiramente diferente, para que valha a pena ir ver mais adiante”, explica à Revista 2.

Desenhar um jardim é a evidência da actividade de um arquitecto paisagista, mas criar jardins em altura, aplicar-lhes o design e fazê-los conversar com o design de interiores é menos comum. Para Hellgren, é tudo uma questão de dar uma volta pelo lado selvagem. “No princípio estava fascinado com o feeling bastante selvagem que estes jardins podem ter. Podem parecer realmente vivos”, explica, “e isso fez com que trabalhar de perto com plantas se tornasse mais inspirador”. Feliz com o seu trabalho em vários pontos do planeta — em Portugal, tem alguns jardins particulares em Lisboa, outro no Café Royale e paredes na empresa MSF, além de um jardim vertical na loja da EDP no Porto —, aprecia “a liberdade de trabalhar numa área relativamente nova” que lhe permitiu aprender mais sobre plantas, design e instalação.

E aquilo que nunca lhe pediram para fazer, mas que gostaria mesmo muito de encher de plantas sempre a subir, era “um jardim numa estação de metro” ou “numa fachada muito grande”.