Do Bairro Operário do Barreiro já não se sai para a indústria mas sim para a universidade

As ruas ainda são do Ácido Sulfúrico ou de Lavoisier mas a química do antigo bairro operário tem agora novas fórmulas inventadas num novo laboratório social e cultural povoado por jovens estudantes e artistas.

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Reabilitar e revitalizar são as palavras-chave da intervenção que está a desenrolar-se no centenário Bairro Operário do Barreiro, também conhecido por Bairro de Santa Bárbara. Nas ruas com nomes de químicos, resistiam até há pouco tempo não mais que duas dezenas de residentes, antigos trabalhadores da Companhia União Fabril (CUF). Mas estão a chegar novos vizinhos, jovens estudantes e artistas para quem as casas estão a ser reabilitadas.

Esta sexta-feira, a Baía do Tejo, empresa pública proprietária dos terrenos da Quimiparque onde se encontra aquela área residencial, assinou um protocolo com o Instituto Politécnico de Setúbal e a RUMO, uma IPSS ligada à inserção profissional. O acordo passa pela concessão gratuita de quatro vivendas, totalmente recuperadas, a estudantes da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro (ESTB), do Pólo do Instituto Politécnico de Setúbal, que fica a dois quilómetros do bairro. A selecção dos jovens fica a cargo dos Serviços de Acção Social daquele estabelecimento de ensino superior.

O director da ESTB, Pedro Salvado Ferreira, destaca a importância desta medida, não só para os estudantes, como “para a comunidade porque permitirá que sejam criadas novas sinergias na envolvente”. O docente explica que “são, assim, criadas condições para os estudantes se fixarem numa zona que actualmente necessita desse incentivo para que outros serviços e outras valências possam surgir”.

Estas transformações são recentes e desde Maio que a zona começou a acolher jovens, como é o caso dos cerca de 150 estudantes da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, o que tem fomentado uma nova dinâmica no velho bairro.

Um bairro que ainda conserva a toponímia que marcou uma época de desenvolvimento industrial, do início do século passado. Entra-se no Bairro de Santa Bárbara e encontramos as ruas Berthelot, Liebig, Lavoisier, figuras ligadas à física e à química. E dos produtos das fábrica da antiga CUF: ruas dos Óleos, do Ácido Sulfúrico, e há até travessas que se chamam da Glicerina, da Oleína, da Estearina.

Conhecido entre a população por Bairro Operário, este aglomerado do Barreiro, contíguo ao actual Parque Empresarial, tem as suas origens nos terrenos de Ermida de Santa Bárbara, do século XVII. Mas foi em 1909 que se desenhou o actual edificado composto por mais de 300 moradias.

Já teve uma escola primária, balneário para os trabalhadores, despensa, serviços de acção social criados sobretudo por Alfredo da Silva, o “Senhor CUF”, e um dos “pais” da indústria portuguesa.

As casas baixinhas, quase de bonecas, estão agora de cara lavada e com interiores modernos de forma a acolher, não só os estudantes, como também artistas e exposições.

Já ali nasceu um estúdio de gravação, ao abrigo do programa “Jovens Músicos”, patrocinado pela Baia do Tejo, e que visa criar “um novo nicho musical no Barreiro”, segundo Sérgio Saraiva, administrador da empresa pública.

Além da inauguração, este ano, do Museu Industrial, decorre até 11 deste mês a exposição “Da fábrica que desvanece à baia do Tejo”, que resulta do trabalho de seis artistas que residiram no território da antiga CUF. Um projecto apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian

Em breve, renasce também a antiga Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal. Considerada como uma das maiores salas de espectáculos da margem sul do Tejo, “que rivaliza com o Fórum Luísa Todi em Setúbal“, este antigo cinema foi construído numa época pródiga neste tipo de espaços culturais como foi o caso do Cinema São Jorge, em Lisboa, por exemplo.

Dentro de dias, irá receber o concerto do quinteto de Peter Evans, que faz parte do cartaz do OUT.FEST- Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro.

De malas e bagagens já aviadas para esta sala de espectáculos está a recém-criada associação cultural “Um lugar Improvável”, dirigida pelo actor António Cordeiro (conhecido de séries televisivas como “Cláxon” e “Major Alvega”). Ao PÚBLICO, Cordeiro prevê que a Casa da Cultura, dadas as suas condições de palco, acústica, etc, possa albergar praticamente todas as artes performativas: teatro, música, cinema, dança.

A associação “Um Lugar Improvável” garante ter já em preparação, em articulação com o Museu Nacional do Teatro uma exposição no Barreiro sobre a vida do actor Henrique Canto e Castro. Em pré-produção está também uma adaptação da peça traduzida por António Cordeiro “As Peúgas Opus 124", de Daniel Colas.

Sérgio Saraiva, da administração da Baia do Tejo, considera que a reabilitação e revitalização do bairro com a entrada dos jovens estudantes e das actividades culturais tem também como objectivo dar mais notoriedade à antiga Quimiparque e assim chamar mais empresas para ali se instalarem. Este administrador destaca que o momento é de optimismo em relação à reanimação do tecido empresarial do Barreiro: “O saldo das entradas e saídas de clientes” deste parque empresarial, com uma área de 270 hectares, “é positivo”,

Este renascer das cinzas deverá conhecer um impulso maior com a construção do futuro porto de águas profundas de Lisboa que, ao que tudo indica, será feito no Barreiro.