Torne-se perito Crítica

Perfume Genius, o frágil baladeiro, abre espaço ao performer

Ao terceiro álbum, Perfume Genius reinventa-se: o frágil baladeiro abre espaço ao performer

Perfume Genius surge agora mais colérico, cantando com uma intensidade rara
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Perfume Genius surge agora mais colérico, cantando com uma intensidade rara DR

Os dois primeiros álbuns do americano Mike Hadreas, ou seja Perfume Genius, os labirintos de um adolescente tardio, que se expunha, muitas vezes, apenas ao som do piano. Eram discos calorosos, privados, onde por vezes éramos intrusos.

Ao terceiro álbum, a reinvenção. Sem deixar de lado algumas das características evidenciadas anteriormente em Learning (2010) e Put Your Back N2 It (2012), existe uma muito maior procura da transcendência em Too Bright, título com algo de irónico. É que se os dos primeiros álbuns eram feitos de canções melodramáticas, expostas ainda com os olhos tímidos desviados na direcção do chão, no novo álbum Perfume Genius resolve olhar lá para dentro, observando-nos olhos nos olhos.

É um disco negro, de confronto e desafio, do ponto de vista sonoro e lírico. Aos 32 anos, já não é um miúdo, embora continue a cantar com a urgência emocional de um adolescente. A diferença é que agora as canções são potentes e perigosas. Há ainda temas de fragilidade minimal para piano e voz, mas na maior parte das vezes a instrumentação é eléctrica e subida, mais próxima das ideias do rock, com a guitarra a gritar mais alto e os sons electrónicos mais distorcidos do que era habitual.

Dois dos responsáveis pela altercação sonora foram Adrian Utley, dos Portishead, e o engenheiro de som Ali Chant, com quem Mike Adreas resolveu colaborar em Bristol. Mesmo quando as canções mantêm alguma da natureza expansiva das experiências anteriores, o todo é sempre mais colérico, com ele cantando sobre o corpo ou questões de género com uma intensidade rara.

Se até aqui Perfume Genius era muitas vezes associado a Antony ou Nico Muhly, agora parece estar mais próximo de outras almas atormentadas como Fiona Apple ou Cat Power, embora expondo uma aspereza mais identificável com os Suicide ou com Fever Ray do que com aquelas cantoras. Ou seja, uma multiplicidade de hipóteses comparativas que só revelam afinal estarmos perante alguém que encontrou a sua voz no meio de muitas outras vozes, acabando por tornar-se num dos autores mais criativos do momento.


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