O “paciente de Berlim” continua a fazer acreditar numa cura para a sida

Entre os 75 milhões de pessoas que já foram infectadas pelo vírus da sida em todo o mundo, Timothy Ray Brown parece ser a única que conseguiu livrar-se do VIH. Foi há sete anos, depois de um transplante de medula óssea, e ainda não há uma explicação científica definitiva.

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O vírus da sida a sair de uma célula Instituto Pasteur/AFP

Parece um paradoxo, mas só vai saber-se se Timothy Ray Brown ficou realmente livre do vírus da sida quando morrer. Este norte-americano, que é conhecido como o “paciente de Berlim”, recebeu em 2007 um transplante de medula óssea de um dador que tinha uma mutação num gene responsável pelo fabrico de uma certa molécula na superfície dos linfócitos-T, células imunitárias que o vírus da sida infecta.

Essa molécula, ou receptor, é designada por CCR5. Nos linfócitos-T CD4+, este receptor serve de porta de entrada do VIH nas células, para aí se multiplicar, destruindo o sistema imunitário das pessoas. A mutação nos receptores CCR5 dos linfócitos-T CD4+ é rara, aparecendo em cerca de 1% dos europeus, e impede muitas estirpes do vírus de entrar nas células. O dador de medula óssea (onde se formam as células imunitárias e os glóbulos vermelhos, por exemplo) foi escolhido tendo em conta esta particularidade genética.

Após o transplante, devido a uma leucemia, Timothy Ray Brown, então seropositivo e a viver em Berlim, deixou de tomar medicamentos anti-retrovirais. E deixou de ter o vírus no sangue — pelo menos em quantidades detectáveis. Hoje, sete anos depois, parece estar curado.

Apesar de este método não poder ser aplicado facilmente a outros doentes — antes de mais, porque os transplantes de medula são perigosos, difíceis e caros —, o “paciente de Berlim” continua a ser o único caso em que se demonstrou cientificamente que alguém deixou de estar infectado com o vírus da sida. Timothy Ray Brown, que também teve de ter um dador compatível, tal como nos transplantes para outras pessoas, só fez o tratamento por ter leucemia. E foi preciso encontrar um dador com a mutação genética referida.

Em 2011, poucos meses depois de a descrição do caso do “paciente de Berlim” ter sido publicada na revista Blood, os especialistas sublinhavam a sua importância. “O caso de Brown deu fundamento científico à ideia muito ridicularizada da cura da sida”, lê-se num artigo noticioso da revista Science da altura. “Mostrou pela primeira vez que é possível livrar o corpo do vírus ou pelo menos reduzi-lo para uma quantidade tão pequena que os anti-retrovirais deixam de ser necessários.”

Resumindo, o caso de Timothy Ray Brown permitiu voltar a acreditar na descoberta de outras formas mais abrangentes de tratamento da doença. Algo que, desde a identificação do vírus em 1983, tinha ficado cada vez enterrado na difícil luta contra uma pandemia que já matou cerca de 40 milhões de pessoas em todo o mundo até 2012 — ano em que cerca de 35 milhões viviam infectadas com o vírus.

Timothy Ray Brown, que descobriu que era seropositivo em 1995, aos 29 anos, nunca irá saber se está oficialmente curado. Só uma análise científica ao seu corpo depois de morrer permitirá essa resposta definitiva. Esta dificuldade está intimamente ligada aos reservatórios do vírus da sida — as células no corpo humano onde o material genético do vírus está escondido dentro do ADN das próprias células, pronto a entrar em acção. É por isso que passado algum tempo de uma pessoa infectada pelo vírus ter deixado de tomar anti-retrovirais, o VIH pode voltar a aparecer em força.

Três hipóteses
Esta complexidade do vírus dificulta também a explicação científica da “cura” do “paciente de Berlim”. Sendo já bastante conhecida  a mutação do gene do receptor CCR5, que “encrava” a fechadura por onde o VIH entra nas células, o médico Gero Hütter, que tratou Timothy Ray Brown, resolveu procurar um dador de medula compatível com o norte-americano e com essa característica. O médico teve sorte: um dador, entre os 80 possíveis, tinha a mutação. Pode ter-se dado o caso de as novas células imunitárias com a mutação terem originado a eliminação do vírus, e esta é a primeira hipótese para a situação do “paciente de Berlim”.

Mas, antes do transplante, o doente foi irradiado para matar as suas células imunitárias e destruir a medula. Os cientistas não sabem se não terá sido este factor a causa da “cura”, já que muitas células-reservatório do vírus podem ter sido assim mortas.

Segundo a terceira hipótese, poderá ter ocorrido uma reacção que, por vezes, tem lugar nos transplantes: as células imunitárias provenientes da medula transplantada poderão ter atacado células imunitárias do doente que possam ter sobrevivido à irradiação, matando as que ainda tivessem material genético do VHI.

Mas um estudo do final de Setembro, na revista PLoS Pathogens, rejeita agora uma das três hipóteses. A equipa de Guido Silvestri, da Universidade de Emory, em Atlanta, nos EUA, fez experiências em macacos Rhesus infectados com um vírus híbrido do VIH e do vírus da imunodeficiência símia (que provoca nos macacos uma doença parecida com a sida nos humanos). Essas experiências têm semelhanças com o tratamento de Timothy Ray Brown.

Usando seis macacos, os cientistas tiraram medula óssea a três. Depois, infectaram os seis animais com o vírus híbrido e deram-lhes anti-retrovirais para controlar a infecção. Em seguida, irradiaram os três macacos aos quais tinha retirada a medula, matando mais de 90% das células do sistema imunitário. Neste último grupo foi depois feito um autotransplante de medula. No passo seguinte, os cientistas deixaram de dar anti-retrovirais aos seis macacos e observaram o que lhes aconteceu.

No grupo de controlo, em que os três macacos não passaram pela irradiação nem pelo autotransplante, o vírus reapareceu, como esperado. No grupo submetido à irradiação e ao autotransplante, os cientistas quiseram ver se as radiações livraram os macacos dos reservatórios do vírus. Afinal, não tinham: o vírus reapareceu em dois animais (o terceiro foi abatido devido a uma infecção nos rins).

Por isso, no caso do “paciente de Berlim”, os autores deste artigo rejeitam que a hipótese de que a radiação tenha eliminado o vírus e defendem: “O uso de um dador com mutações do receptor CCR5 e/ou a presença de um enxerto que atacou as células hospedeiras teve um papel significativo.”