Crítica

Maria do Céu Guerra, energia de actriz contra simulacro televisivo

Através dela, há uma pessoa dentro do cinema de APV – o que já não acontecia há mais de dez anos.

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Maria do Céu Guerra neste filme é uma espécie de fantasma daquilo que já morreu nos filmes de António Pedro-Vasconcelos ou que não se encontra nele desde Os Imortais (2003): a capacidade de ter lá pessoas dentro e não apenas simulacros televisivos e publicitários.

É uma questão de energia de actriz, certamente. Provavelmente é uma memória longínqua que ainda está no realizador, e que agora talvez se tenha dado a ver, a lembrar que o cinema é coisa frágil que logo se desvanece ao contacto próximo com a falsidade. Isto é: quando esse monstro de Frankenstein que são os “argumentos” do “cinema comercial” português (entre aspas porque continua por averiguar que “indústria” é que os blockbusters à portuguesa representam) resume de forma publicitária a juventude inquieta (mostra um graffiti por trás...), não consegue figurar um casal que não pareça penteado e maquilhado para o telejornal ou para a novela (é a fasquia deste imaginário) e põe em marcha movimentos de câmara que parecem estar a vender algo (um décor, uma vista sobre Lisboa) ao turista.

É por isso que a personagem de Maria do Céu Guerra, mesmo com algumas “deixas” rococó que lhe deram (e isto nada tem a ver com a idade da personagem...), e o seu mundo de mortos têm mais vida cinematográfica do que as múmias que a rodeiam. E isso tem o efeito de um grito surdo escandalizado: em redor, a crença ausentou-se, o fazer-de-conta é paternalista, cínico mesmo.