Crítica

Impiedosa desmontagem da vida moderna

Adaptando o romance de Gillian Flynn, David Fincher assina uma desmontagem impiedosa das fachadas da vida moderna e manda às urtigas a correcção política. É um dos filmes do ano.

Clare Boothe Luce, diplomata, escritora, dramaturga e esposa do fundador da revista Time, teve em tempos um dito de espírito que ficou para a posteridade: “nenhuma boa acção fica por castigar”.

O novo filme de David Fincher, adaptado pela romancista Gillian Flynn do seu próprio best-seller, afadiga-se a comprovar, com requintes de malvadez quase chabroliana, o cinismo dessa referência. É um conto caucionário sobre um casamento de sonho que vira pesadelo; sob a capa de um mistério policial à volta de um desaparecimento inesperado, traça uma radiografia impiedosa e desencantada de um way of life que já não é só American mas, sobretudo, é ocidental. Tudo, na vida aparentemente perfeita de Nick e Amy, é fachada; que seja David Fincher a apontá-lo, o cineasta americano que melhor sabe trabalhar a fachada (e que, para muitos, ainda hoje não passa de um publicitário glorificado), pode ser irónico mas não é nada casual. Há uma coisa que Fincher sempre foi, mesmo quando não demos por isso: um classicista convicto apoiado no argumento (o velho adágio: “é a história, estúpido”) e um moralista blasé que se diverte a observar a humanidade ao microscópio.

O microscópio, aqui, está assestado numa cidadezinha do coração da América média onde o casamento de sonho de Nick, o filho pródigo modesto de North Carthage, e Amy, a menina de ouro nova-iorquina, derrapou em direcção ao inferno quando “parecer” já não era suficiente. Com o casamento nas lonas, Amy (uma extraordinária Rosamund Pike, “roubando” o filme a um contudo solidíssimo Ben Affleck) desaparece, de forma pouco inocente e que parece apertar o cerco a um Nick que não percebe o que lhe está a acontecer. E vá de Fincher lançar o espectador para uma atracção de feira popular onde nada é o que parece, feita de desvios abruptos, atalhos, becos sem saída e falsas entradas, navegando com precisão claustrofóbica por entre a sonsice, a moral, os bons costumes, o voyeurismo, em direcção a uma queda de água onde todas as fachadas desaparecem para deixar apenas o abismo. Como se a “boa acção” do amor, do desejo, da vontade de construir uma história a dois, fosse recompensada por uma descida aos infernos da qual não há saída possível, com Nick e Amy prisioneiros das suas próprias ficções do casamento de sonho. Como se esta história singular fosse, também, a nossa história, a história de todos nós que vivemos, hoje, no fio da navalha.

David Fincher e Gillian Flynn contam-na sem ilusões nem correcções políticas, desmontam os edifícios que construímos para nos enganarmos a nós próprios de modo quase ofensivamente virtuoso e profundamente cinematográfico. À imagem da sua heroína desaparecida, nada neste filme está “em parte incerta”, tudo está meticulosamente trabalhado e planeado – e essa claustrofobia da burguesia acomodada (que Chabrol tão verrinosamente soube descrever e que na qual o guião de Flynn e as imagens de Fincher parece terem sido banhadas) é vital para que Em Parte Incerta ganhe a respiração que o propulsiona ao longo de duas horas e meia. Que não haja dúvidas: este é um dos filmes do ano.