Carissa Rogers/FLICKR
Foto
Carissa Rogers/FLICKR

Megafone

Aprender a escrever com aqueles que mais gostamos de ler

Nunca fui fã de “workshops” de escrita criativa e afins. Julgava — erradamente — que me bastava ler, ler muito, para aprender tudo sobre todos os mistérios que as palavras e as frases encerram em si mesmas

Os que me conhecem sabem bem da minha ambição de viver da escrita. Eu, porém, não estou convicto que consiga alcançar o sonho – afinal de contas, todos vivemos constantemente nesta dúvida, sejamos de que área formos. Ou se é demasiado jovem, ou se é demasiado inexperiente, ou se é demasiado comum, ou não se tem apetência para contar uma história, ou nem sequer se alcançou o conceito de “boa história”, ou isto, ou aquilo, ou ainda aqueloutro.

Ainda assim, somos muitos a imaginar que até levamos jeito para a coisa. Ou, pelo menos, idealizamos um estilo de vida que nos permite estar sossegados, embutidos num cenário idílico, ouvindo apenas os estalidos das teclas ou o silvo da caneta. Ainda que muitos de nós estejam silenciosos à secretária, sem que ninguém nos conheça a obsessão, nascem-nos os medos, as vergonhas, as perguntas murmurantes. “E se se riem de mim?”, “e se isto é uma parvoíce pegada?”, “e se me insultam?”, “e se estou a ser banal sem o saber?”, “e se isto não é arte?”, “e se estou a ser presunçoso, achando que o mundo precisa de mim?” Por isto, e por muito mais, busca-se o saber, o conhecimento do ofício que é espalhar letras na ordem correcta sobre uma folha de papel.

Nunca fui fã de workshops de escrita criativa e afins. Julgava — erradamente — que me bastava ler, ler muito, para aprender tudo sobre todos os mistérios que as palavras e as frases encerram em si mesmas. No entanto, sempre achei que devia aprender com os melhores: não só através dos seus livros, mas acima de tudo através das suas ideias sobre a arte de colocar ideias em palavras que, posteriormente, se cravam em folhas de papel. Procurei por entrevistas, biografias, até vídeos no YouTube. Acabei por ceder ao inevitável: participei num curso de escrita. E gostei. E inscrevi-me noutros cinco. E estou a gostar. E estou a planear inscrever-me em mais dois. E por aí fora, sem fim à vista, nem mesmo se me forem publicados um, dois ou trinta livros.

Muito deste mérito cabe ao Luís Carmelo e à sua escola de Escrita Criativa. Não apenas pela oferta variada que consegue, em cursos presenciais ou online, mas acima de tudo — e esta é a parte que, pessoalmente, mais me agrada — pelas sessões em que os escritores-fãs têm a possibilidade de beber da sabedoria dos escritores-ídolos. Sem barreiras, sem fronteiras, sem maquilhagens. Pela possibilidade de ouvir da boca do João Tordo os métodos que lhe são confortáveis ou as dúvidas que o afligem. Por poder ouvir a Lídia Jorge contar tudo sobre a noite que a fez escrever “A Costa dos Murmúrios” ou sobre a importância das folhas de árvores para umas quantas páginas d’ “Os Memoráveis”.

Muitos de nós não vão conseguir ser publicados. Porque não somos capazes de inventar como deve ser. Porque não sabemos o que os outros querem ler. Porque, como dizem os papões dos números, não há mercado. Deixem-nos, ao menos, sonhar.