Netflix entra no terreno de Hollywood com produção da sequela de O Tigre e o Dragão

Aliado aos irmãos Weinstein e ao IMAX, o filme estreia simultaneamente nas salas e na Internet. Dois dos maiores exibidores dos EUA já recusaram exibir Crouching Tiger, Hidden Dragon: The Green Legend.

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Michelle Yeoh em "O Tigre e o Dragão" DR

A plataforma de aluguer e streaming Netflix vai estrear-se na co-produção de filmes com a sequela de O Tigre e o Dragão (2000), mas também no modelo de lançamento day and date – o filme vai chegar às salas de cinema IMAX e à Internet no mesmo dia, a 28 de Agosto de 2015. “Netflix faz pontaria a Hollywood”, “um ajuste de contas com as cadeias de cinemas” ou “o pesadelo de Hollywood” são algumas das reacções à notícia da parceria entre o Netflix e os irmãos Weinstein, que co-produzem Crouching Tiger, Hidden Dragon: The Green Legend.

O anúncio chegou ao final do dia de segunda-feira e logo a revista especializada Hollywood Reporter lhe chamava “uma reprimenda dramática ao modelo tradicional de estreias”, enquanto o New York Times, a revista Fortune ou o site de notícias de cinema Deadline falavam então de alvos, confrontos e pesadelos. Em poucos anos e graças à produção de conteúdos originais no campo das séries e seu lançamento em pacote, mas também ao seu sucesso enquanto plataforma de visionamento legal online, o Netflix tornou-se um player incontornável no mercado.

Agora, aliando-se aos poderosos irmãos Weinstein (proprietários do estúdio independente que lançou Sacanas sem Lei, Django Libertado, Filomena ou O Discurso do Rei), entra no mercado do cinema. No terreiro de Hollywood.

A sequela do filme de Ang Lee, marcante pelas suas danças bélicas entre as copas das árvores e vencedor de quatro Óscares, vai ser realizado precisamente por um coreógrafo de artes marciais, Yuen Wo-Ping, o responsável pelas lutas da trilogia Matrix e dos dois Kill Bill – e autor de Tai Chi Master e reconhecido no mercado chinês. Crouching Tiger, Hidden Dragon: The Green Legend, passado 20 anos depois do original, está já a ser filmado na Nova Zelândia, escreve a Variety, e contará, tal como o filme de Ang Lee, com Michelle Yeoh na pele de Yu Shu-Lien. Baseia-se no livro Iron Knight, Silver Vase, de Wang Dulu, que já é a base de uma série produzida pela Weinsten Co. para o Netflix.

Mas os tigres e os dragões são apenas os primeiros desta dança entre Netflix e os cinemas IMAX (sendo que as restantes salas e cadeias estão, para já, fora do negócio). O acordo prevê mais lançamentos day and date de grandes títulos no Netflix e nas salas IMAX, embora não haja para já mais informação sobre que filmes estão na calha.

“A experiência de ir ao cinema está a evoluir rápida e profundamente e o Netflix está inquestionavelmente na linha da frente desse movimento”, contextualiza Harvey Weinstein em comunicado sobre o novo acordo que o próprio Netflix já tinha antecipado, em espírito, há alguns meses. Ted Sarandos, responsável máximo pelos conteúdos do serviço de subscrição, dissera já em 2013 que o modelo day and date lhe interessava ao invés de esperar que os filmes chegassem, meses depois, ao video on demand, lembra a Variety - que antecipava segunda-feira que esta novidade possa “enfurecer” os exibidores que vejam a entrada da Internet no calendário dos lançamentos como uma ameaça.

Não foi preciso esperar 24 horas sequer pelas primeiras resistências. A mesma Variety noticiou esta terça-feira que duas das maiores cadeias de cinemas dos EUA, a Cinemark e a Regal, não vão passar o filme. "Não vamos participar numa experiência onde se pode ver o mesmo produto em ecrãs de tamanhos que vão dos três andares aos sete centímetros de um smartphone", disse Russ Nunley, porta-voz da Regal. James Meredith, porta-voz da Cinemark, disse apenas que a exibidora "não mostra lançamentos de filmes day-and-date em quaisquer dos seus ecrãs, incluindo os ecrãs IMAX que operamos". A outra das três grandes dos exibidores dos EUA, a AMC, ainda não se manifestou sobre o tema, que no passado mereceu o mesmo tipo de recusas por parte dos exibidores.

Sobre as resistências a este potencial novo modelo, Sarandos dizia segunda-feira ao New York Times: “Espero que isto seja a prova de que o céu não cai. São duas experiências diferentes, como ir a um jogo ou ver um jogo na TV”.

O Netflix tem 44 milhões de membros em mais de 40 países – estando longe de uma cobertura mundial. O acordo agora anunciado não perde de vista o resto do planeta sem o serviço - que inclui Portugal ou a China. Sarandos lembra que neste projecto se associaram à IMAX, “que representa a maior qualidade de entretenimento imersivo”. Estas salas, que estão presentes no pequeno mercado português, mas sobretudo no atractivo e gigantesco mercado chinês, permitem ao título chegar a esse apelativo território.

Em Portugal, a primeira experiência do género aconteceu no Verão de 2013 com Viramundo, do suíço Pierre-Yves Borgeaud, distribuído pela Alambique Filmes no âmbito da Tide Experiment - projecto com apoio da União Europeia focado na circulação de cinema europeu na era digital e que tinha como objectivo, entre Janeiro do ano passado e Março de 2014 estrear quatro filmes europeus no espaço comunitário em simultâneo em video-on-demand e em sala. O filme estreou-se em sala, através do Facebook e nos videoclubes das operadoras de televisão por subscrição portuguesas, que incluem a NOS, que também é o maior exibidor em Portugal. 

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