Nelson Garrido
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Nelson Garrido

Carreira a dois: quando os casais decidem ser sócios

À relação pessoal decidiram juntar uma profissional, investindo num projecto comum. Os três casais, que também são sócios e com quem o P3 falou, não desligam do trabalho mas consideram-se mais flexíveis. “Confiança mútua” e “perda de tempo para o casal” são os principais prós e contras que socióloga aponta

Tânia Santos e Miguel Ferreira conheceram-se “no rock”: ela arranjou um trabalho como “babysitter” da filha de Manuela Azevedo, vocalista dos Clã — banda onde ele é músico desde a formação da mesma —, e logo ficaram amigos. Isto foi há seis anos, tantos quantos aqueles que levam enquanto casal. Hoje vivem juntos e são proprietários da CRU, loja de autores e espaço de “coworking” no Porto. Com Luís Cavalheiro e Sofia Assalino, assim como com David Silva e Cristina Morais, formam os três casais com uma carreira a dois que o P3 entrevistou, por terem apostado naquilo que Maria das Dores Guerreiro, investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), chama de “empreendimento conjugal”. De acordo com uma investigação publicada pelo Instituto para o Estudo do Trabalho (IZA) em Maio de 2014, intitulado "Casais Empreendedores", pelo menos 80% dos negócios, em todo o mundo, empregam membros de uma família — e "um terço destes inclui cônjuges". 

“Descobrimos desde cedo que trabalhávamos muito bem em equipa e que nos complementávamos. Eu sou mais conceptual, ele é muito prático a resolver os problemas”, começa por dizer Tânia, 32 anos, na esplanada do pátio da CRU, que nasceu — não só, mas também — como uma forma de a jovem psicóloga sem emprego na área conseguir sustentar-se. “Inicialmente, a ideia partiu de mim, depois passou a ser nossa e quando abrimos até éramos dois casais”, continua (o outro par entretanto saiu). “Antes disso passávamos muito tempo juntos em casa — mais do que a maior parte dos casais com trabalhos fora”, refere Miguel, 44 anos.

O mesmo acontecia com Luís Cavalheiro e Sofia Assalino, arquitecto e designer, respectivamente, da Mundano Objectos. Juntos há mais de 12 anos, começaram por trabalhar a quatro mãos “quase espontaneamente, em projectos de arquitectura com um lado mais gráfico”, diz Luís, em conversa na loja da rua de Santos Pousada, também no Porto. Quiseram “mostrar ao público” os produtos com os quais já trabalhavam e, como explica Sofia, de 47 anos, “foram duas linhas paralelas que acabaram por se fundir numa só”. Diz a designer que têm “muita sorte” por funcionarem bem como casal e sociedade há tanto tempo. Ou, nas palavras de Luís, 40 anos: “Quando um diz mata, o outro diz esfola” (o que aqui se confirma).

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“Uma das razões para não existirem grandes conflitos é o facto de não haver uma sobreposição”, diz David Silva DR

Partilham o espaço de trabalho, os projectos que vão surgindo e também uma casa, onde passam pouco tempo. “Há alturas em que só não dormimos aqui [na Mundano] porque temos dois cães que precisam de nós em casa”, brinca Luís. Já Tânia e Miguel têm o mesmo problema, mas com os seus gatos. Todos admitem a dificuldade em deixar o trabalho quando saem das lojas. O músico dos Clã fala em “'brainstorming' contínuo” para descrever o tempo passado a discutir assuntos profissionais em qualquer altura (jantar incluído). “A CRU é a nossa vida”, resume Tânia, para quem, hoje em dia, “um negócio depende de dar tudo o que se tem, todo o tempo e todo o investimento”. E isto reflecte-se, por exemplo, “numa casa em pantanas” e em muitas refeições feitas fora, por falta de tempo.

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“Quando um diz mata, o outro diz esfola”, brinca Luís, que vive com Sofia há 12 anos Fernando Veludo/nFactos

"Vais acalmando um bocado"

O tempo — sobretudo o livre, ou a falta dele — é um ponto sensível neste tipo de situação pessoal e profissional, que necessita de uma gestão especial. Luís e Sofia tentam jantar sempre sem a interferência da televisão, para promover a partilha e a conversa, que nunca se esgota, garantem. O que se vai desgastando, às vezes, é a paciência, comenta Luís; mas nada que a atitude mais calma que se adquire ao fim de muitos anos em conjunto não resolva. “Vais acalmando um bocado: o que te fazia confusão no início, se calhar agora já não faz porque sabes que se vai resolver.”

A socióloga Maria das Dores Guerreiro fala sobre as consequências para o casal de uma relação profissional

Em empreendimentos conjugais, os elementos encontram “o substrato de confiança mútua necessário para progredir". “Há lugar para ajuda e solidariedade, conjugação de esforços, coesão”, analisa Maria das Dores Guerreiro. “As decisões tomam-se não só na mesa de reuniões, o quotidiano anda em torno de tudo isso, o que se pode traduzir em mais rendimentos e benefícios”, continua a socióloga, para quem o papel das mulheres enquanto co-empresárias também se modificou. É “um traço de modernidade” que as mulheres tenham assumido o papel de gestão e organização dos negócios, sobretudo “à medida que estão mais qualificadas”.

Criar regras para não “descambar”

O casal que faltava apresentar tem a relação mais recente dos três. David Silva e Cristina Morais vivem em Moimenta da Beira, no distrito de Viseu, onde criaram o Colectivo de Melhoramentos. Conheceram-se num anterior emprego e quando de lá saíram para formar o novo projecto já tinham uma relação: uniu-os a vontade de explorarem novas ideias por conta própria. Cristina e David queriam ter “uma estilo de vida simples”. Por isso optaram por regressar a Moimenta da Beira, onde cresceram e se sentem inspirados. O Colectivo, “que não tinha lógica se não tivesse um palco rural”, é uma marca de arquitectura e design cuja ideia é “simplificar as coisas”. “Depois elas tornam-se mais funcionais e belas na nossa perspectiva”, justifica o arquitecto de 30 anos.

Casados há poucos meses, os dois jovens não discutiram o que um negócio em conjunto poderia fazer à vida a dois. “A verdade é que conseguimos passar uma manhã inteira sem falarmos um com o outro, cada um a fazer uma coisa”, garante a designer, 29. No gabinete que ocupam no antigo mercado de Moimenta da Beira, David e Cristina esforçam-se por definir (e cumprir) horários, regras e “compromissos de ambas as partes”, diz ela. “Às vezes, o facto de se trabalhar com uma pessoa que se conhece tão bem e ter liberdade completa para se fazer o que apetece pode ser um caminho muito fácil para descambar.”

“Numa relação de trabalho com uma pessoa afastada, nós temos […] limites mais bem estabelecidos. Há uma certa cerimónia, uma maneira mais delicada de transmitir algumas coisas”, reflecte Tânia, consciente de que as coisas nem sempre são cor-de-rosa. A intimidade no trato “pode ser negativa quando os momentos são stressantes e de muito trabalho — é aí que as coisas vêm ao de cima”. Por outro lado, esta mesma intimidade também se traduz em não ser preciso “falar muito para se perceber o caminho”, considera Luís.

Respeitar o limite individual

Maria das Dores Guerreiro, que estuda negócios familiares há vários anos no CIES, sugere diferenças na forma como este tipo de actividade é percepcionado. Nos anos 80 eram criticados por, “alegadamente, serem sinónimo de falta de profissionalismo” e, muitas vezes, de formação académica. Actualmente — e nos casos ligados às indústrias criativas aqui apresentados — “estamos perante a situação oposta”, diz a docente universitária. “Quanto mais recentemente olhamos para as actividades empresarias, e quanto mais jovens são os empresários ou os casais, mais elevadas são as qualificações que possuem”, afirma. E não se trata apenas de um dos elementos do casal, mas de ambos. São “carreiras a dois” e igualitárias, no mesmo patamar. Existe um “complemento com base na qualificação, que sabemos estar mais presente nos dias de hoje, na nossa população”.

Unânime é a necessidade de existir uma tentativa real para que as funções dos dois elementos não se sobreponham. “Uma das razões para não existirem grandes conflitos é o facto de não haver uma sobreposição”, assegura David, que indica um outro aspecto decisivo: “É fora do gabinete que conseguimos resolver mais coisas, porque se calhar estamos mais descontraídos.” O respeito pelo espaço de cada um é também essencial para Cristina, “como se houvesse um território no qual não se pode estar sempre a entrar”.