O tempo que não existe na fronteira do Rovuma

Passar de Moçambique para a Tanzânia implica uma escolha fácil: ou a ponte em Negomano e 400 km de picadas na selva, ou o ferry que cruza o rio Rovuma desde Namoto mas só faz, no máximo, duas viagens por dia.

Numa das mais remotas fronteiras de África, a espera é um estado de espírito diferente. As leis da solidão, da sobrevivência e do tempo não requerem muitas alíneas para se impor.

Pode a ansiedade da espera dar lugar a uma calma lassa, mansa e resignada? Nas madrugadas da estação seca, centenas de pessoas começam a aproximar-se das margens do rio Rovuma, que faz a fronteira entre Moçambique e a Tanzânia, e esperam pela hora ou pelo dia em que poderão passar para o outro lado. Para eles, a pressa, a agenda, os horários e os compromissos não passam de desejos vagos, probabilidades tão incertas como a sorte ou o capricho. Um grupo de mulheres sorridentes nas suas roupas garridas e carga à cabeça chega ao romper da madrugada e sabe que não vai esperar muito — há horas que saíram a pé de Namoto, do lado moçambicano, passaram a vau as zonas menos profundas do rio, cruzaram quilómetros de areal evitando os canaviais que escondem hipopótamos e, em minutos, estarão acotoveladas a bordo de canoas escavadas em troncos de árvores que as transportarão até Kilambo, do lado tanzaniano. Abdul, um negociante de materiais de construção civil que trabalha em Mocímboa da Praia, chegou lá com o seu camião há mais de 24 horas e não tem a mesma sorte — sabe que não será ainda nesse dia que vai passar o rio. Omar, um moçambicano com os seus 50 anos, camisola de desporto em incoerência com o cofió colorido na cabeça, prevê que dentro de uma hora estará a bordo do ferry que o levará de regresso a Moçambique, mas desconhece se vai conseguir um lugar nos chapas (carrinha tipo Toyota Hiace) que saem de Namoto para Palma, 45 quilómetros depois de uma estrada de terra batida.

A vida na fronteira Kilambo-Namoto, a uns 20 quilómetros da foz do Rovuma, é colorida e estranha. É também calma e desconhecedora da pressa. Sem electricidade, nem estradas asfaltadas de ligação, nem água potável, sem qualquer vestígio da presença do Estado, estes postos de fronteira inscrevem-se naquela categoria de lugares remotos que tornam África um paraíso para a incerteza e, por associação, para a descoberta. Nas ruas poeirentas que vão até ao Rovuma vêem-se homens sozinhos, famílias reunidas, bebés transportados nas costas das mães, rapazes musculados com camisolas de equipas europeias de futebol, crianças descalças a jogar bolas de trapos, doentes com olhos febris amparados em ombros ou encostados a um canto. Em diferentes graus de dificuldade, transportam velhas malas atadas com cordas, peixe seco, peças de motores, pneus usados, mandioca e tudo o que possa significar sobrevivência. Enquanto esperam, os homens discutem os preços dos chapas ou recordam a odisseia das viagens que os trouxeram desde Mtwara até à margem. As mulheres ficam de cócoras, mais reservadas, e olham o rio. A espera pelo ferry que, uma vez ou, com sorte, duas vezes por dia atravessa o Rovuma, é um desafio ao tempo. Que convém encarar sem estados de ânimo.
“Está a andar, está a andar.” Na vozearia em uníssono, um rapaz anuncia primeiro em suaíli e depois em português que a hora do embarque está para chegar. A manhã ia alta, o calor começava a sufocar, a maré subira o suficiente para permitir a navegação. A tripulação tanzaniana, uma dúzia de passageiros, um camião e alguns carros tinham passado a noite no meio do rio depois de terem sido surpreendidos pelo rápido recuo das águas do mar. Acontecera, apenas. Depois de desencalhar, o ferry acostaria na margem dentro de um quarto de hora, descarregaria carros, passageiros e mercadorias e, o mais depressa possível, encetaria a viagem de 40 minutos até Moçambique. As cargas para embarque começam a chegar perto da água, os que vão partir reúnem as famílias, os jogos de futebol suspendem-se. Abdul recosta-se a observar o bulício e prepara-se para mais um dia de espera. Omar aproxima-se dos que têm carro e pede boleia quando se chegar a Moçambique. Em vão. Não soubera dar conta do seu drama.

Um rio anão e gigante
Anão e gigante conforme a época do ano, o Rovuma é um rio sempre majestoso. Ao longo de 700 quilómetros, do Índico até ao coração da África negra, separa dois países que, nos extremos, partilham a mesma língua, o suaíli, as mesmas fisionomias e a mesma cultura. Para o atravessar, porém, há apenas duas possibilidades seguras e, vagamente, regulares: ou pela grandiosa Ponte da Unidade, que une Negomano a Mtambaswala, ou pelo ferry que faz a ligação entre Namoto e Kilambo. Para se chegar a Negomano, há que vencer uns 300 quilómetros de uma picada que todos os anos tem de se conquistar à selva e à lama, passar a ponte construída pelos chineses e resistir a mais 80 quilómetros de estrada poeirenta e sinuosa até Masasi. Para a maioria das pessoas, enfrentar o desafio da espera incerta pelo ferry em Kilambo não é uma opção. É a necessidade absoluta.

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Lá não há cais, nem ancoradouros, nem docas nem nada que possa dar a imagem de um porto. É a mesma terra vermelha da margem que acolhe as pranchas do ferry ou o dorso das canoas. Nas imediações, pequenas barracas de madeira vendem pedaços de frango frito de aparência e salubridade duvidosas, bolachas ressequidas, refrigerantes, água e cerveja. Uma mulher enfrenta com placidez os gritos da filha que lhe exige umas chinelas plásticas fabricadas na China, à venda numa das barracas movida a pedal por 100 meticais (dois euros e meio). No chão há bananas do tamanho de um dedo à venda e mangas tão minúsculas como deliciosas. Um homem de idade chega pouco tempo antes do ferry guiando a pé uma bicicleta com a traseira transformada numa montra de pronto-a-vestir. O auge do dia aproxima-se para os que esperam, em breve todos os olhos estarão postos no embarque.

A saída dos carros que demoraram mais de uma noite a vencer o Rovuma gera as primeiras emoções na plateia informal que se reunira junto ao “cais”. É preciso superar uns cinco metros de areia e uma rampa antes de seguir pela estrada poeirenta que liga o rio a Kilambo e daí ao resto da Tanzânia. Em suaíli, homens gritam aos condutores a velocidade e a direcção precisas. O odor húmido de África dá lugar ao cheiro de gasolina e embraiagem e pneu queimados. Um carro desiste depois de desfazer a parte da frente — teria de ser rebocado. No ferry, a tripulação, principalmente o seu capitão, começam a ficar impacientes e gritam. Quando o barco fica vazio, a agitação repete-se com acelerações, gritos e invectivas, palmas e congratulações aos bem-sucedidos. 

Na margem, Abdul permanece de braços cruzados junto ao seu camião, onde passará a noite. Na balaustrada do ferry, Omar prepara um canto para a viagem. Agora não está só. Leva pela mão uma menina com um olhar vago que indicia sinais de perturbações mentais e um rapaz com os seus 15 anos que carrega uns sacos de roupas a testar o limite de resistência dos fechos e das pegas. Um grupo de moçambicanos com uns 20 anos fala ruidosamente, sorrindo como os que se sentem com sorte — tinham chegado minutos antes de o ferry largar. Milagrosamente, a tripulação orienta e instala os veículos que ficam a dois centímetros uns dos outros e das amuradas. Um jovem casal regista a experiência com as câmaras dos telemóveis. O ferry pode partir.

Os dias parecem intermináveis
Na sua parte central, o Rovuma não passa nesta época do ano de um conjunto de riachos que formam longas ilhas de areia e canas no seu leito. Lá para Dezembro, toda aquela superfície estará tapada pelos caudais formados com as chuvas torrenciais da selva que vai até ao Niassa. Com perícia, o comandante manobra a embarcação entre as ilhotas e os bancos de areia. Por muito que se procure, não se vêem hipopótamos naquela manhã. Para mitigar a dureza do sol do meio-dia, procuravam-se sombras e lugares abertos à brisa. Não se percebe muito bem porquê, mas a outra margem ainda não estava à vista e Omar começa a pegar nas crianças e na carga e aproxima-se da parte da frente do ferry. Em breve, um a um, outros imitam o seu movimento. Quando se avista ao longe, na margem, uma aglomeração de carros e de pessoas, já todos os passageiros se apertavam junto à protecção que serviria de prancha de desembarque.

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O que estava para acontecer dá uma boa imagem da vida difícil e precária nesta zona do planeta. A prancha baixou e os passageiros desataram a correr para garantir um lugar nos chapas que aguardavam 30 metros acima. A lei do mais forte impôs-se, os jovens instalaram-se num fôlego nas carrinhas, mas não foi a única lei a vingar. Pelas portas ou pelas janelas, pouco importa, quem tivesse flexibilidade corporal tinha possibilidades de garantir um lugar. Apesar da sua astúcia e da sua previdência, Omar ficara para trás na corrida. Em desespero, no meio de uma gritaria que tanto apelava à compreensão dos outros como expunha um protesto violento, atirou o filho para um lugar impossível no interior da carrinha e espremeu-se a seguir com a filha ao colo enquanto esperava que os condutores lhe empurrassem as pernas e braço antes de fecharem a porta. Nesta luta pela sobrevivência, a idade de Omar não contava, nem sequer o olhar pungente da filha. Perder aquela chapa significaria horas ou um dia de espera num lugar abrasador onde não há absolutamente nada.

Habituados à crueza do espectáculo, os motoristas moçambicanos que tinham passado o rio de carro ou camião e os guardas fronteiriços ouviam os gritos e viam os empurrões com toda a complacência do mundo. Se a filha de Omar chorasse, teria sido talvez mais fácil, mais humano, conceder-lhe alguma prioridade. Mas a menina permanecia imune ao alvoroço e à violência. Quando pedira boleia, Omar não falara numa família. Agora era preciso resgatá-la ao caos instalado no interior da carrinha. Avançámos até à confusão. Os olhos humedeceram, saiu da Hiace com a menina ao colo, ajudou o filho a resgatar a sua carga e desfez-se em agradecimentos. Irado com a perda de clientes, o condutor respondeu com gritos e com ameaças e exigiu dinheiro. “Tu agora pagar, tu pagar meticais”, dizia-nos com dedo em riste. À sua volta, porém, todos os olhos estavam voltados para Omar que decidiu enfrentá-lo com palavras presumivelmente sábias em suaíli. Os presentes estavam com ele. O condutor, derrotado, retirou-se para empurrar os últimos pedaços de corpos que estavam ainda fora das portas.

Omar fora à Tanzânia ao funeral da mãe. O seu português era rudimentar, como um capricho incrustado na memória desde que os portugueses partiram em 1975. Mas bastava para narrar a odisseia que tivera de fazer com os filhos nos últimos dias até chegar à fronteira. Andara de autocarro, à boleia, de chapa, a pé e, finalmente, estava perto de Palma, cidade que lhe permitiria seguir viagem até casa, em Montepuez, a uns 500 quilómetros de distância. Nem ele sabia ao certo quantos dias passara na viagem. Como a maioria dos passageiros do ferry, a sua saga fez-se com tempo, alguma sorte e uma permanente resignação. Viver naquele canto de África não dá direito a exigências, nem sequer a expectativas. Tudo pode acontecer, antes ou depois de se entrar no ferry.

Kilambo, a aldeia que acolhe o posto alfandegário e o controlo de passaportes, fica a uns oito quilómetros do rio Rovuma e a uns 70 da cidade de Mtwara, na costa do Índico. Quem chegar primeiro à fila que antecede a cancela da fronteira pode aspirar a um lugar no ferry. Quem chegar mais tarde, ou tem de dar uma longa e extenuante volta de 600 quilómetros pela Ponte da Unidade ou fica a aguardar. Por muito que a tabela das marés seja previsível, ninguém sabe se na lista de espera há dois ou dez automóveis — só viajam quatro automóveis e dois camiões de cada vez. Só quando se chega a Kivambo ou, no outro lado do rio, a Namoto, se percebe o que vai acontecer a cada um nas próximas horas ou dias. Há risos dos que passam e expressões tolerantes dos que têm de ficar. 

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Chegar a Kivambo é por si só uma aventura incerta, pelo menos para os que não falam suaíli, a língua materna da Tanzânia. Abdul demorara um dia a guiar o camião carregado de peças metálicas e de plástico desde Dar-es-Salam e fizera facilmente os últimos quilómetros desde Mtwara porque domina o suaíli. A reportagem da Revista 2 teve menos sorte. Mesmo saindo de Mtwara às três da manhã, só por milagre chegou a Kilambo ao amanhecer, por volta das sete. A rota era vagamente conhecida, mas confirmá-la interpelando homens de idade perdidos no escuro ou colunas de mulheres que atravessavam a noite com cargas para a feira sem saber uma palavra de suaíli é tarefa dura. No labirinto de estradas sem indicação, foi ainda assim possível encontrar a direcção de Kilambo e andar uns quilómetros até descobrir que, sem qualquer aviso, a estrada estava cortada (por ironia, mesmo junto ao monte de pedras no meio do traçado havia um cartaz a dizer “Road Closed”). O percurso alternativo implicava um regresso a Mtwara e uma viagem pelos subúrbios da cidade em estradas íngremes, sem asfalto, e uma vez mais sem orientação. Só um jovem descoberto a meio da noite na sua bicicleta salvou a situação. Saber que se chega a Kilambo ainda antes da abertura do posto fronteiriço é um alívio. 

Na fronteira do Rovuma, onde a luz e o calor criam um ambiente hipnótico que tornam o verde da selva ou o lilás das capulanas das mulheres em telas irreais, o dia parece interminável. No futuro, mais cedo que tarde, a gula pelas enormes reservas de gás natural descobertas na bacia do Rovuma vai impor ali a construção de uma ponte. O pitoresco e colorido de uma fronteira perdida, fascinante e reveladora de estados de espírito que nos são estranhos, acabará. Padecimentos gratuitos como os de Omar ou Abdul também.  

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