Torne-se perito

Existe uma criança eterna dentro de Aphex Twin

Um dos mais inventivos músicos das electrónicas dos anos 1990 está de regresso, depois de 13 anos ausente dos álbuns de originais. Já chegou aos 40 anos, tem dois filhos e vive numa vila escocesa, mas a música de Syro continua intemporal e singular, corpo de adulto com criança lá dentro.

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Há não muito tempo, o inglês Richard D. James, 43 anos, mais conhecido por Aphex Twin, nadava num riacho perto de casa quando foi surpreendido por um pedido de um vizinho. O namorado da filha fazia uma tese sobre Aphex Twin e o vizinho perguntava-lhe se poderiam entrar em contacto com ele.

Até ali ele tinha a certeza absoluta que nenhum dos seus vizinhos fazia a mínima ideia de quem era. Vive numa  localidade escocesa, com pouco mais de 300 habitantes, desde 2006. Desde 2001 que não lançava novo álbum de originais, altura em que saiu Drukqs. Mas se ainda havia quem não o conhecesse na aldeia, essa situação vai mudar com  Syros, novo álbum agora lançado.

Por um lado não custa acreditar que nenhum vizinho soubesse quem era. Apesar de ter influenciando gente de diferentes géneros – Thom Yorke (Radiohead) disse que a sua música havia sido a inspiração para Kid A (2000) e o mesmo disse Kanye West a propósito de faixas de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010) – não é uma celebridade.

O seu perfil é mais o do músico de culto, que não gosta de dar entrevistas e tirar fotos, guardando mistério. Apesar da excitação que tem envolvido o lançamento, o mesmo não constituiu uma surpresa. O fundador da sua editora, Steve Beckett da Warp, vinha avisando que a qualquer momento haveria novo álbum. O que acontece hoje em dia é que perdemos a capacidade de ter paciência e os lapsos de vários anos parecem eternos.

Na verdade é um desses músicos que se encontra numa posição em que se pode permitir fazer o que lhe apetece sem ter de prestar contas. Por outro lado foi prolífico na década de 1990 e agora prefere resguardar-se. Isto se partirmos do pressuposto que esteve ausente. É que em 2005 editou a série de EPs Analord como AFX e houve também EPs com a designação Tuss, para além da excitação este ano desencadeado pela operação Kickstarted com a distribuição do desaparecido Caustic Window (1994).

Quem espera uma reinvenção radical no novo álbum é capaz de ver goradas essas expectativas. Os sons e as técnicas utilizadas são reconhecíveis, desde o primeiro tema, Minipops 67, com um ritmo moderadamente oblíquo, uma nuvem sintética e um tratamento vocal, desenhando circunferências coerentes, apesar do frenesim.

Noutros temas, como Syro u473t8+3 ou Circlont 14, encontramos outra equação reconhecível na sua música, misto de hiperactividade rítmica e alguma calmaria atmosférica.  E também existem as habituais excursões em torno de ritmos frenéticos do drum & bass, em Papat4 ou S950txwasr10.

O único tema mais representativo de um lado musical mais introvertido é Aisatsana, elegíaca peça para piano, que constitui um contraponto final, calmo e simples, para o restante do disco, bem mais ansioso.

Nas suas mãos alguns géneros que podem não ser de fácil absorção para o grande público – do drum & bass ao tecno – ganham características excêntricas e formas mais reconhecíveis no âmbito pop adquirem contornos bizarros. Há sempre um misto de complexidade estrutural e de simplicidade melódica, trabalhados num mesmo plano fluído.

Este acaba por ser provavelmente um dos seus álbuns mais inteligíveis, harmónicos, de texturas variadas e com excelentes arranjos. E apesar da legião de músicos que se inspiraram na sua música na última década, continua único.

A música foi a fuga

Nas raras entrevistas que tem dado fala muito mais de si do que é habitual. Sabe-se que desde o lançamento do último álbum, em 2001, foi pai de dois rapazes – de oito e seis anos – e ambos já fazem música. No disco, tanto os filhos como a mulher e o pai participam vocalmente, embora as vozes sejam irreconhecíveis. À Billboard falou também da experiência de viver numa vila, próxima de Glasgow, afirmando que é óptimo habitar no campo, mas é também difícil, porque toda a gente se conhece e fala entre si - “o que para alguém reservado e meio autista como eu pode ser intenso.”

Habitar num contexto populacional pequeno não é uma novidade. Afinal nasceu e cresceu na Cornualha, filho de pai mineiro e mãe enfermeira. Hoje diz que foi por reacção à vida dos pais que enveredou pela música.

Estava na universidade quando a editora belga R&S lhe ofereceu uma soma considerável para lançar um primeiro álbum. Não hesitou. Deixou a universidade, porque o mundo do trabalho não o atraía e viria a lançar Selected Ambient Works 85-92, em 1992.
“Tinha visto os meus pais em dificuldade a vida toda, lutando para terem uma vida decente e não queria isso para mim”, afirma. “Via-os chegar a casa, extenuados e culpando-se por daí a pouco irem sentar-se à frente da TV durante cinco minutos, antes de dormirem. A música foi a minha fuga desse mundo. A música é a melhor terapia que conheço. É o meu refúgio. Preciso dela para o meu equilíbrio. É assim desde sempre. Quando compus as primeiras melodias tinha 12 anos. Nessa altura, como hoje, era a forma de me evadir do quotidiano.”

Depois mudou-se para Londres. Uma cidade que lhe garantia excitação, mas também o anonimato no meio da multidão. Nos anos 1990 lançou um número infindável de registos electrónicos que a maior parte da imprensa classificava como sendo de visão futurista. Talvez. Mas era apenas a sua visão.

Apesar do percurso pautado pelo êxito, a verdade é que a sua música sempre foi mais ouvida nas galerias de arte do que nos centros comerciais. Mesmo com sucessos surpreendentes, na segunda metade dos anos 1990, como Come to daddy ou Windowlicker, ou com elogios e colaborações que foram surgindo dos mais diversos quadrantes (de Bjork a Philip Glass) nunca mudou de rumo.

Sempre pareceu uma criança em corpo de adulto. E a sua música parece constituir um reflexo disso mesmo. Existe qualquer coisa de simples e frágil, mas exposto de forma singular, depois de complexas reflexões. Syros volta a confirmá-lo. Sem ser revolucionário, exala um tipo de espontaneidade que parece intemporal.

Há dez anos, numa entrevista, dizia que esperava nunca crescer. Ou por outra, esperava que o adulto que existe nele nunca limitasse a criança que existe nele. “Crescer é muitas vezes jogar um jogo, limitar-se, renunciar. Às vezes, quando os meus amigos entram em conflito comigo gritam-me quando é que eu vou, finalmente, crescer. E eu, secretamente, espero nunca crescer.”

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