Chegou um bárbaro

Frederico Pedreira é uma voz nova na literatura portuguesa. O seu livro de estreia em prosa, Um Bárbaro em Casa, agita um pouco as águas mansas do que se tem publicado nos últimos tempos. Uma escrita que oscila entre a rudeza e a doçura, sem nunca deixar de brilhar.

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RUI GAUDÊNCIO

Talvez o que mais surpreenda em Um Bárbaro em Casa seja a bem temperada mistura de rudeza e de doçura que enche a voz que narra as sete histórias que compõem o livro.

Numa escrita sempre segura, mesmo quando a narrativa parece não ir conseguir resistir ao caos para onde essa voz a levou (acontece, por exemplo, no segundo conto), de repente dá-se uma epifania, propositada ou não, que a faz ressurgir com esplendor. É raro encontrar-se este domínio da escrita num livro de estreia. Frederico Pedreira (n. 1983) confessa que começou a escrever aos catorze ou quinze anos e que desde aí mantém a escrita diarística, mas mais “com um sentido terapêutico do que com intenções literárias”. Sem tiques literários ou grandes preocupações de escrever “como deve ser”, Pedreira chegou à literatura portuguesa com uma voz que o diferencia do que tem surgido nos últimos anos. Um Bárbaro em Casa é o seu primeiro livro em prosa, mas publicou antes três volumes de poesia (ou de prosa poética, ou como o autor diz, de “prosa destruída, minada”): Breve Passagem pelo Fogo (edições Artefacto), O Artista Está Sozinho (edição de autor), e Doze Passos Atrás (edições Artefacto). Pedreira estudou Comunicação em Lisboa e depois fez um mestrado em Literatura em Londres, actualmente faz um doutoramento em Teoria da Literatura em que discorre sobre a ideia de “estranheza”, tendo como ponto de partida a afirmação de Freud de que “os objectos é que poderão ser intrinsecamente estranhos”, ideia contra a qual Pedreira argumenta de que a “estranheza” está antes “nos nossos processos rememorativos”.

O impulso para a escrita destes contos foi-lhe dado por amigos. “Quando saía, e a certa altura da noite, quando estava já no mesmo estado de espírito que muitas vezes atribuo ao narrador do livro, começava a contar-lhes histórias de que me lembrava. Contava-as provavelmente de uma forma coxa, atabalhoada. No dia seguinte já não me lembrava bem da maneira como as contara. Mas o Diogo Vaz Pinto [editor da Língua Morta] e outros, como o [poeta] Vasco Gato, desafiaram-me então a escrevê-las. Quando comecei o primeiro conto achei que as coisas poderiam dar certas, que conseguiria capturar um bocadinho daquele sentido meio aventureiro e de descoberta que lhes dava quando as contava.” E escreveu quase todo o livro na biblioteca de Carnaxide, pois raramente consegue escrever em casa. Fê-lo em pouco mais de um mês. “Passei todo o tempo de escrita a ouvir as músicas do Bob Dylan, que é intempestiva e intuitiva, de uma forma quase obsessiva. As histórias saíram depressa”, diz Frederico Pedreira, “todas as semanas escrevia uma ou duas, e fui ganhando uma confiança que descobria no próprio processo da escrita, que se vai apurando. Com pouquíssimas correcções, só a primeira história foi a mais acidentada, mais caótica. Depois dos sete contos achei que não tinha mais nada para dizer neste tom”. Como inspiração para o tom do livro, assume que as suas influências estão mais na música do que na literatura. “Os Velvet Underground conseguem fazer melhor do que o Bukowski o desequilíbrio entre rudeza e doçura, era uma coisa desse género o que eu queria fazer. Do Bukovski prefiro a poesia, na prosa acho-o um bocadinho embrutecido de mais, falta-lhe delicadeza.”

Os contos de Um Bárbaro em Casa têm todos por título o nome de uma mulher. Tota, Hanna, Jasmine, Ivanna, Martina, Mel, e Filipa. Histórias de encontros casuais em várias cidades, Reykjavík, Londres e Lisboa, de um jovem guiado pela aventura e pela deriva numa espécie de procura apressada de uma educação sentimental atribulada, porque “o corpo já não nos atira as bóias da salvação moral, optando antes pela deriva”. Os primeiros três contos passam-se na noite da capital islandesa, tendo como centro um bar onde o narrador, sempre bastante toldado pelo álcool, se dedica a engates eufóricos, tipo “o que vem à rede é peixe”, mais ou menos falhados, de raparigas desajeitadas e algo desesperadas. Ao mesmo tempo confronta-se com a sua melancolia e é olhado com “o ar tristonho de quem não entende a duvidosa arte de beber até à exaustão, de quem pede uma garrafa de água porque já não sabe como pôr a dançar os cornos alucinados entre os fantasmas que a memória travestida nos traz.” De seguida há um conto que se passa em Londres, numa loja de roupa – Pedreira confessa que trabalhou lá. O lugar das três histórias que se seguem é Lisboa: um engate manhoso ao mesmo tempo que o avô do rapaz morre no hospital, outro (e talvez um dos contos mais interessantes), passa-se com uma mulher mais velha, desesperada e desiludida, para depois o leitor chegar ao último dos contos, a história de um homem que se foi arruinando emocionalmente pelo amor que dedicou a uma mulher toxicodependente. “Romarias de bordel perdoam-se, o amor é que já não.”

Novela

Curiosamente, no anúncio que aparecia no Facebook da festa de lançamento do livro, debaixo do título surgia a palavra “novela”. Frederico Pedreira justifica: “A ideia foi do David Teles Pereira [o outro editor da Língua Morta], e faz todo o sentido, apesar de eu preferir considerá-lo como um livro de contos, mas acho que há um tom que os atravessa a todos, que transfigura a realidade. Há sempre uma mesma pessoa que se move pelos contos todos, e isso é pertinente para lhe chamar “novela”. Há um conflito entre mulher e homem que é comum a todos. E o livro termina com um conto que é uma separação, um afastamento, do mundo feminino, e que eu acho que faz sentido para a personagem que os atravessa.”

Pedreira assume que há material autobiográfico nos contos, coisas vividas, mas também situações observadas e outras que até poderiam ter acontecido da maneira como as narra. As situações descritas surgem assim como uma extensão do seu lado afectivo. Chegou a pensar em recorrer aos diários para auxiliar a memória, mas acabou por rejeitar a ideia pois as situações começaram a chegar-lhe quase em catadupa e não foi necessário. Como num exercício de escavar lembranças que apesar da distância temporal ele descobriu que afinal não estavam perdidas. A velocidade da escrita seguiu a velocidade original dos acontecimentos, não numa perspectiva autobiográfica mas de necessidade de impulso, um trampolim para ganhar esse estado de espírito. “Ao escrever, as coisas dão sempre uma cambalhota”, diz, “entusiasmo-me com a própria escrita, como se ela mesma fosse modificando as situações, e deixo-me ir”.

Um dos aspectos que poderá perturbar no livro é o facto de para aquele narrador (à excepção do último conto) a mulher é sempre tratada como um “objecto” de uso. Frederico Pedreira confessa que pensou que essa leitura pudesse ser feita, mesmo a de uma certa misoginia, sobretudo por causa do que pensariam as mulheres com as quais se relaciona. “Mas achei que seria um risco que valeria a pena correr, por causa do tom que eu queria dar às histórias, e se tivesse que abdicar de algumas coisas então correria outro risco, o de o tom não se perceber.”

Em dois ou três contos de Um Bárbaro em Casa são bem notórios os traços da influência de Lobo Antunes, quer ao nível do ritmo frásico quer da imagética das metáforas. “O Lobo Antunes está para a prosa portuguesa como o Herberto está para a poesia”, assume, “é um ‘mal’ de que nos temos de livrar quando escrevemos, eu pelo menos, que o adoro. Senti há muito essa necessidade de me afastar das leituras de livros dele.” Outros autores que lê muito são o José Cardoso Pires, Nuno Bragança e Céline. Na poesia destaca João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, e Manuel de Freitas.

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