Crítica

Gato escaldado

O novo filme de António-Pedro Vasconcelos desbarata uma premissa promissora e uma Maria do Céu Guerra imperial numa banalidade telenovelesca.

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Lugares-comuns banais de telenovela: Os Gatos Não Têm Vertigens

Quis o acaso que a mesma semana traga dois filmes portugueses radicalmente nos antípodas um do outro e que corporizam todos os lugares-comuns que as pessoas identificam com o grande caldeirão do “cinema português”.

Este Os Gatos Não Têm Vertigens surge assinado por António-Pedro Vasconcelos, um dos cineastas que desde sempre procurou fazer filmes que dialogassem com o público, autor de um dos melhores exemplos de um cinema popular e inteligente feito entre nós, O Lugar do Morto, e que nos últimos anos se tem batido incansavelmente pela produção nacional. Só que o problema do cinema português não é ser demasiado “de autor” nem é ser insuficientemente “popular”; é apenas que a bitola pela qual ele se mede está constantemente em movimento, e o padrão que os últimos grandes triunfos do cinema português instalaram como bitola está na origem do equívoco. Filmes como O Crime do Padre Amaro, 7 Pecados Rurais ou Morangos com Açúcar, que fizeram números ao nível dos maiores blockbusters americanos, não são filmes, mas sim produtos audiovisuais de formato televisivo; e como os programas de maior audiência na televisão portuguesa são as novelas de produção nacional, vá de achar que a solução para o cinema português está em fazer televisão para grande écrã.

É por isso que é penoso ver um cineasta tão estimável, e um dos poucos que sabe o que é filmar para cinema, a atolar-se sem apelo nem agravo com Os Gatos Não Têm Vertigens. É uma tentativa de melodrama clássico que tinha tudo para ser, no mínimo, interessante, e que parte de uma excelente premissa: a solidão de Rosa, uma idosa que acaba de perder o marido e cuja vida de repente parece perder o rumo. Maria do Céu Guerra é extraordinária no papel desta mulher que já não se revê no mundo que a rodeia, e que encontra o sentido que a sua vida perdeu quando se torna numa espécie de “fada madrinha” de um jovem desafortunado que encontra refúgio no telhado do seu prédio, ajudando-o a pôr-se outra vez de pé depois de ter sido literalmente descartado por todos os que o rodeiam.

O problema surge ao fim dos primeiros 20 minutos: o melodrama da indignidade de envelhecer numa sociedade que já não vê utilidade nos mais velhos (com alguns toques atentos, como a relação gélida com o genro) colide de frente com a história pretensamente dickensiana do órfão desafortunado, que alinha sem o mínimo pudor lugares-comuns banais de telenovela formulaica, onde os bons são muito bons e os maus são muito maus mas tudo se resolverá no final. Como se fazer um filme só sobre esta Rosa, personagem de corpo inteiro, de carne e osso, que tem uma história e uma gravidade ausentes de tudo o resto, não fosse suficiente para ir buscar o público, vá de juntar ao deus-dará bonecos sem alma desenhados a traço grosso, que cumprem uma simples função narrativa para chegar do ponto A ao ponto B. E a que nem um cineasta capaz de muito melhor do que isto consegue emprestar chama ou alma, apesar de uma intrigante entrada com um plano de steadycam que faz pensar em Scorsese – mas talvez por isso a decepção com o que se lhe segue seja ainda maior. Mesmo com uma imperial Maria do Céu Guerra, Os Gatos Não Têm Vertigens é mais uma acha para a fogueira do equívoco que insiste em confundir “popular” com “popularucho”, “acessível” com “condescendente” - e incapaz de o transcender.