“Vai à merda”, diria ela no fim. Assim queria Saramago

Quatro anos depois da morte de José Saramago chegou esta terça-feira às livrarias portuguesas o romance que o Nobel deixou inacabado Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas.

 Um das ilustrações do Prémio Nobel da Literatura 1999 Günter Grass
Foto
Um das ilustrações do Prémio Nobel da Literatura 1999 Günter Grass

Mesmo antes de o acabar, José Saramago sabia com que frase queria terminar aquele que seria o último romance em que trabalhou e deixou inacabado.

No dia 16 de Setembro de 2009, nas notas que ia escrevendo no seu computador, o Prémio Nobel da Literatura 1998 anotava: “Creio que poderemos vir a ter livro. O primeiro capítulo, refundido, não reescrito, saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história ‘humana’. Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro ‘Vai à merda’, proferido por ela. Um remate exemplar."

A obra começou por se chamar Belona (nome da deusa romana da guerra), passou a ser Belona S.A., depois Produtos Belona, S.A. e, por fim, chegou esta terça-feira às livrarias portuguesas com o título Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, que é retirado da tragicomédia Exortação da Guerra de Gil Vicente. A Porto Editora, que edita a obra, não revela a tiragem desta primeira edição. 

A primeira vez que no caderno de José Saramago, que morreu em 2010, aparece a referência a este livro de que deixou escritos e terminados os três capítulos iniciais é no dia 15 de Agosto de 2009. Aí o autor explicava que eram velhas perguntas suas - “porquê nunca houve uma greve numa fábrica de armamento” ou o "que se passa para que a classe operária tão capaz de lutas não tenha conseguido entrar nos portões duma fábrica de armas?". Foi essa "preocupação" que “deu pé a uma ideia complementar" que, precisamente, permitiu "o tratamento ficcional do tema”.

Explicava também que “o gancho para arrancar com a história” era uma bomba que não chegou a explodir na Guerra Civil de Espanha, a que Saramago juntou a referência que André Malraux faz no seu L’Espoir a operários de Milão fuzilados por terem sabotado obuses. 

Na sessão de lançamento do seu último romance Caim, em 2009, José Saramago anunciou publicamente que estava a escrever um novo livro e explicou mais. Contou que esse morteiro que não rebentou na Guerra Civil de Espanha tinha um papel escrito em português onde se lia: "Esta bomba não rebentará". Saramago disse que poderia até ter sido um operário da Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, a ousar fazê-lo.

PÚBLICO -
Foto
Saramago deixou escritas 30 páginas

A personagem principal de Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas é Artur Paz Semedo, que trabalha há quase vinte anos nos serviços de facturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento em Lisboa. É um homem a quem a estreia de um filme de guerra provoca “um alvoroço quase infantil” e que, se não trabalhasse numa fábrica de armamento, “o mais certo é que ainda hoje estivesse a viver, sem outras aspirações, com a sua pacifista felícia”. (pág.16)

Pilar del Río, na edição de Setembro da revista Blimunda da Fundação José Saramago, que pode ser descarregada gratuitamente em PDF no site da fundação e traz um dossier sobre este livro, define Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas como um romance sobre as armas e a responsabilidade cívica.

 "As personagens que povoam o livro têm discursos e contradições elaboradas a partir do convencimento de que não ver é mais rentável do que ver – ou de que a indiferença é mais cómoda que a acção – e da necessidade do conhecimento e da intervenção para não ser cúmplice com o despropósito da violência. José Saramago escreveu um romance de personagens e situações que se confrontam com a realidade, tantas vezes mais obstinada que as pessoas, por isso não ver faz-se tão dramático.”, defende a presidente da Fundação e viúva do escritor.

O livro onde são publicadas as trinta páginas daquele que seria o próximo romance de José Saramago e onde já estão desenhados os dois protagonistas do livro - Artur Paz Semedo e a sua ex-mulher Felícia - traz na edição portuguesa (que segue a espanhola) ilustrações do Prémio Nobel da Literatura 1999 Günter Grass, notas do caderno de Saramago - onde o escritor ia dando conta do romance que queria escrever - e ainda dois textos, um do biógrafo espanhol de José Saramago, Fernando Gómez Aguilera, e outro do escritor e jornalista italiano Roberto Saviano. 

“Na capa da edição portuguesa só aparece parte do título - a palavra ‘Alabardas’ - por questões gráficas e também por questões que têm a ver com a edição espanhola”, explicou o director editorial da Porto Editora, Manuel Alberto Valente na sessão de apresentação das novidades da rentrée.

“Pensou-se que as duas edições, portuguesa e espanhola, deveriam ser idênticas e são diferentes das outras edições que estão agora a ser publicadas como a italiana ou a brasileira”, afirmou Manuel Alberto Valente, lembrando que José Saramago estava profundamente empenhado com as duas realidades ibéricas e por isso pareceu-lhes que faria sentido as duas edições serem iguais. À edição brasileira, da Companhia das Letras, por exemplo, foi acrescentado um texto de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e especialista em segurança pública. 

O texto de Fernando Gómez Aguilera é ensaístico e explicativo (situa este livro na obra completa de Saramago) e o texto de Roberto Saviano é emocionante. Vai lembrando vários heróis - como Tim Lopes, o jornalista brasileiro que foi assassinado -, que à sua maneira foram também como a personagem deste livro: escolheram arriscar para se protegerem da "idiotice" de se viver uma vida plana.

Ao longo do texto é repetido: "Também eu conheci Artur Paz Semedo. Não trabalhava nos serviços de facturação de armamento ligeiro e munições Belona S. A., e não teve uma ex-mulher pacifista. Não vivia em Itália. Provavelmente nunca pegou numa pistola, imagine-se se alguma vez terá pensado em dar um tiro. Mas também eu conheci Artur Paz Semedo e o seu nome era.... Tim Lopes. A sua arma era a paixão. Uma ardente paixão." (pág. 114)

Para o dia 2 de Outubro está marcada a sessão de lançamento do livro em Lisboa. Durante a manhã haverá uma conferência de imprensa na Fábrica de Braço de Prata (o antigo estabelecimento fabril militar do Estado Português, desactivado na década de 1990) e ao final da tarde, às 18h30, será a apresentação mundial de Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, com a participação do professor António Sampaio da Nóvoa, do juiz Baltasar Garzón e do escritor Roberto Saviano. A sessão será moderada pela jornalista Anabela Mota Ribeiro e serão projectadas as ilustrações de Günter Grass que integram o livro.