Hilary Mantel indigna conservadores britânicos com assassínio ficcionado de Margaret Thatcher

O conto The Assassination of Margaret Thatcher, publicado esta sexta-feira no jornal The Guardian, já levou um ex-conselheiro de Thatcher a dizer que a autora devia ser investigada pela polícia.

Hilary Mantel promovendo o romance que a tornou a primeira mulher a receber dois prémios Booker
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Hilary Mantel promovendo o romance que a tornou a primeira mulher a receber dois prémios Booker

A romancista Hilary Mantel, a primeira mulher a vencer dois prémios Booker – com os volumes iniciais da sua biografia romanceada de Thomas Cromwell, o ministro de Henrique VIII –, irritou os círculos conservadores britânicos com o seu conto The Assassination of Margaret Thatcher – August 6th 1983, que foi publicado esta sexta-feira no diário inglês The Guardian e que ficciona o assassinato da antiga primeira-ministra britânica durante o Verão de 1983, trinta anos antes do seu efectivo desaparecimento, em 2013.

A proximidade da morte de Margaret Thatcher, e o facto de ter filhos e netos vivos, foi justamente um dos argumentos invocados pelos que criticam este divertimento literário de Mantel, no qual uma mulher londrina bem instalada na vida recebe no seu apartamento um jovem atirador, provavelmente do IRA, e vai tomando chá e tagarelando com ele, enquanto este monta na janela do seu quarto a arma com que pretende assassinar a chefe de Governo do Reino Unido. Ambos aguardam que Thatcher saia do hospital privado, do outro lado da rua, onde foi submetida a uma pequena cirurgia ocular.

Confessando-se uma grande admiradora da obra de Hilary Mantel, a deputada conservadora Nadine Dorries diz que, por isso mesmo, ficou “chocada” com este conto, “que trata de uma personalidade cujo falecimento é tão recente”. Em rigor, pode ver-se nesta crítica a censura de um par, já que Dorries é ela própria escritora, tendo publicado um romance sobre a Liverpool dos anos 50, The Four Streets, do qual o crítico literário Cristopher Howse, do jornal inglês The Telegraph, afirmou tratar-se do pior romance que lera nos últimos dez anos.

Era precisamente no Telegraph que o conto de Mantel deveria ter saído. O Guardian, onde acabou por ser publicado, diz mesmo que o seu rival já tinha pago uma considerável quantia à escritora para assegurar os direitos exclusivos da história, que pretenderia publicar em folhetim. “Após os editores terem lido o conto na íntegra, decidiu-se que não era algo que os leitores do Telegraph apreciariam”, diz um comunicado do grupo de media que detém o jornal, de inclinações reconhecidamente conservadoras.

Outro deputado conservador, Conor Burns, argumentou que o conto representa “uma grave ofensa às vítimas do IRA” e, em declarações ao jornal Times, afirmou: “Nunca deixo de me espantar com a psique perturbada de alguma esquerda."

Stephen Glover, colunista do Daily Mail, considerou a história de Mantel “um disparate perigoso”. Precisando que as suas objecção não se dirigiam ao facto de Mantel detestar Thatcher, mas aos riscos de um conto que pode suscitar “interpretações mortais”, isto é: “Se não gostam dos vossos líderes democraticamente eleitos, que agem dentro da legalidade, podem sempre pensar em assassiná-los”.

Tim Montgomerie, activista conservador e colunista do Times, acha que a história de Mantel “está cheia de ódio” e afirmou-se “realmente desapontado” por o Guardian ter decidido publicá-la.

E o barão Timothy Bell, técnico de relações públicas e conselheiro de Thatcher nas suas três bem-sucedidas campanhas eleitorais, chegou mesmo a defender que Mantel deveria ser investigada pela polícia. “Se alguém admite que gostava de assassinar alguém, decerto que a polícia deve investigar”, defendeu Bell, aparentemente menosprezando o facto de a morte de Thatcher, em Abril do ano passado, vir reduzir drasticamente a possibilidade de que Mantel possa vir a concretizar o seu alegado desejo.

Entrevistada por uma estação de rádio da BBC, Mantel considerou as críticas “irrazoáveis” e defendeu que o seu conto se propõe analisar “o porquê de a senhora Thatcher provocar sentimentos tão viscerais em tantas pessoas”. Na sua história, acrescenta a romancista, “as duas pessoas à janela, que estão a vê-la cá em baixo, concordam que é desejável assassiná-la, e que esse desejo é correcto, mas discutem os respectivos motivos enquanto tomam juntas uma chávena de chá”.

Interessou-lhe, diz ainda Mantel, “examinar esse interface entre política e personalidade, que é tão vincado no caso de Thatcher”. A ex-líder do Reino Unido, argumenta a escritora, “é uma pessoa maravilhosa para ser usada na ficção por causa dessa contradição que corta a direito através da sua personalidade: sente-se que ela era uma discussão andante”.

Que Hilary Mantel não gostava de Thatcher, é um facto que a autora não tenta de todo dissimular: “Ainda sinto borbulhar esse ódio”, confessa, acrescentando que a líder conservadora “causou danos duradouros em muitos domínios da vida nacional”.

Mantel vê em Thatcher um “travesti psicológico”, afirmando que esta “imitava as qualidades masculinas a tal ponto que teve de arranjar uma boa guerra, como a das Falklands (Malvinas), que era excelente: baixas limitadas, escasso impacto doméstico e óptima propaganda visual”.

A quem lê o conto, não é difícil admitir como plausível que a senhora que deixa entrar o atirador em casa seja uma espécie de alter ego da escritora. Mas Hilary Mantel descarta essa interpretação: “Não sou nenhuma das personagens, estou de pé junto à janela, com o meu bloco de notas”.

Mantel diz que trabalhou nesta história durante mais de 30 anos, já que a ideia lhe surgiu em 1983, quando um dia, à janela do seu apartamento, viu de facto uma vulnerável Margaret Thatcher, sem quaisquer guarda-costas a protegê-la. A escritora contou ao Guardian que “o olho mediu imediatamente a distância e a mão mimou uma pistola”. E pensou: “Se não fosse eu, se fosse outra pessoa, ela estaria morta”.

E se as circunstâncias do conto não serão particularmente verosímeis, a hipótese de que Thatcher pudesse correr o risco de ser assassinada nesse ano de 1983, quando foi eleita para um segundo mandato após a vitória inglesa nas Malvinas, era tudo menos uma fantasia. Logo no ano seguinte, escapou por um triz à explosão de uma bomba colocada pelo IRA num hotel de Brighton onde decorria uma convenção do Partido Conservador, um atentado que matou cinco pessoas e feriu 31.

Mantel não é propriamente estreante em controvérsias públicas. Em 2013, chocou muita gente, incluindo o primeiro-ministro conservador David Cameron e o líder da oposição trabalhista, Edward Miliband, com a sua descrição da duquesa de Cambridge, Catherine Middleton, mulher do príncipe Guilherme, como “um manequim de loja de roupas” e “uma princesa de plástico nascida para procriar”.

Mantel alegaria mais tarde que as frases foram tiradas do contexto e que estava, pelo contrário, a defender Kate Middleton e a pedir que “tratassem aquela jovem mulher como um ser humano”. E acrescentou que nunca seria “tão mesquinha que criticasse alguém pela sua aparência”.

Argumentos que talvez tenham persuadido a rainha Isabel II, já que Hilary Mantel é uma das 32 mulheres às quais foi atribuído este ano o título de Dama do Império Britânico.

The Assassination of Margaret Thatcher – August 6th 1983 deverá agora servir de título a um volume de contos de Hilary Mantel que a editora 4th Estate pretende publicar ainda em 2014, ainda antes de sair o terceiro e último volume da trilogia dedicada a Thomas Cromwell, The Mirror and the Light, com publicação prevista para 2015. Nicolas Pearson, da 4th Estate, diz que enquanto a biografia romanceada do ministro de Henrique VIII "explora o modo como a Inglaterra moderna foi forjada", estes contos "mostram o país em que nos tornámos" e revelam "a capacidade de observação" de Mantel ao seu mais alto nível.

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