“Não podemos dizer que há uma questão de extrema-direita em Portugal”

O PNR tem vindo a crescer, mas o seu melhor resultado (17.548 votos em 2011) está bem longe do pior resultado do PDC (29.874 votos em 1976), compara o historiador Riccardo Marchi.

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Historiador diz que líder do PNR José Pinto Coelho não consegue estancar divisões na extrema-direita Enric Vives-Rubio

O historiador Riccardo Marchi nem precisa de ler a convocatória feita pelo Partido Nacional Renovador (PNR) para uma concentração no próximo sábado, na praça Martim Moniz, epicentro da multiculturalidade lisboeta, para saber do que se trata: “É o clássico. É o discurso anti-imigração.”

O PNR já pouco surpreende o investigador, a fazer pós-doutoramento no Instituto de Ciências Socias da Universidade de Lisboa. Interessa-se pelos regimes autoritários, em particular pelas direitas radicais, e estuda o caso português há 15 anos. “Uma crise económica brutal! Noutros países europeus, partidos nacionalistas conseguem aproveitar-se. O PNR não conseguiu, nem vai conseguir".

“O PNR vem poucas vezes a público e quando vem é com o discurso da insegurança que associa à imigração”, diz. Com tantos imigrantes a sair do país desde que a crise começou, continua a falar numa invasão, numa ameaça à identidade nacional, à segurança interna, ao emprego dos nativos. "Os problemas dos portugueses não são os ‘meetings’ de jovens no Vasco da Gama.”

O historiador observa o PNR desde que este nasceu, na alvorada do século XXI. Incapaz de juntar o número de assinaturas necessárias para fundar um partido, a extrema-direita comprou o Partido Renovador Democrático, que experimentara um sucesso efémero, e transformou-o. “É uma história de conflitos internos, de incapacidade de congregar pessoas, de capitalizar votos.”

As tensões estavam lá desde o início. A ala de António Pinto Rodrigues, o primeiro a assumir a liderança, professava um nacionalismo multiétnico, típico do Estado Novo, do Portugal do Minho a Timor. E isso chocava com o novo nacionalismo, importado de outros países europeus, étnico, anti-imigração.

O novo nacionalismo vingou em 2005, com a ascensão de José Pinto Coelho à presidência. E esse tentou obter maior visibilidade e não renegou os membros da Frente Nacional e dos Portugal Hammerskin. “Não vou excluir um nacionalista só porque usa suásticas e tem o cabelo rapado”, dizia.

“Qual o êxito dessa linha?”, pergunta Marchi. “Nenhum.” O PNR teve 15.013 votos nas últimas europeias, o que significa 0,4% da votação total. Nas de 2009, somara 13.214 votos; nas de 2004, 8405. O seu melhor resultado de sempre foi conquistado nas últimas legislativas: 17.548 votos, o que representou 0,3%. Nas eleições de 2009 ficara-se pelos 11.628 e nas de 2005 pelos 9347.

Pode dizer-se que a subida é lenta, mas consistente. É esse o discurso oficial, segundo se pode ler no site do PNR. Marchi desvaloriza: “Se em dez anos são estes os resultados que conseguiram alcançar, não podemos dizer que há uma questão de extrema-direita em Portugal. Não há.”

O historiador faz uma comparação com o Partido Democrata Cristão (PDC). Era em seu redor que se estruturava o grosso do eleitorado da extrema-direita no pós-25 de Abril. O melhor resultado do PNR, diz, está bem longe do pior resultado do PDC (29.874 votos em 1976) e mais ainda do melhor (72.514 em 1979). 

“O PNR quando desce à rua no 10 de Junho [Dia de Portugal] quantas pessoas consegue levar? Umas 100 pessoas – 150 quanto muito. A manifestação maior que conseguiram organizar foi em 2007”, recorda. Foi depois do pseudo-arrastão na praia de Carcavelos, em Cascais. Um grupo de jovens oriundos dos subúrbios correu à frente da polícia e a polícia passou aos media a ideia de que corria a assaltar banhistas e os media apressaram-se a difundi-la. “Eram o quê? 500 pessoas?”

Prepara-se para repetir o número, agora, depois do “meet”, o encontro organizado por jovens dos subúrbios via redes sociais, no centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa. Criou uma página especial no Facebook. Tem pouco mais de 200 pessoas a dizer que vão. Juntando-as aos indecisos rondam os 400.

A Marchi parece evidente que à extrema-direita portuguesa falta um líder carismático como os que protagonizaram a ascensão de partidos populistas em países como a França ou o Reino Unido. Acha que José Pinto Coelho não impressiona os media, nem o eleitorado, nem sequer os pequenos grupos de nacionalistas. As divisões prosseguem. “Estão quase a chegar à divisão do átomo.”

Impressiona-o a visibilidade que os media têm dado a Mário Machado, antigo dirigente do Portugal Hammerskin, preso por vários crimes. Ele desvinculou-se do grupo, denunciando crimes supostamente praticados pelos seus membros. Em Abril, numa saída precária lançou a ideia de criar um partido, o Nova Ordem Social (NOS). Diz que se inspira no Partido Nacional Democrata Alemão, de matriz neonazi, racista e xenófobo, e na Aurora Dourada, partido grego que lembra os nazis tanto nos símbolos como nas práticas. E conseguiu reunir em Peniche umas 50 pessoas, muitas vindas do Movimento de Oposição Nacional, da Acção Democrática Nacionalista, da Frente Nacional e do PNR.

“Não tenho dúvidas de que o NOS será insignificante”, diz Marchi. “Desde o começo da sua actividade dentro do movimento skin e dentro do PNR, Mário Machado portou-se como todos os outros líderes da extrema-direita portuguesa, ou seja, foi mais capaz de quebrar do que de congregar. Os protagonistas são os mesmos há 20 anos, pelo menos. Já se viu como conseguem gerir os grupos e já se viu qual é a sua capacidade de atrair pessoas. Não têm capacidade de gerar consenso.”

As pessoas que aparecem nos eventos públicos, sublinha ainda, “são sempre as mesmas”. O movimento “tem baixa capacidade de atracção de jovens”, mesmo nos sítios onde é suposto cativar mais – os subúrbios, as universidades, as claques de futebol. Há alguns visíveis na claque do Sporting Juventude Leonina, só que não a dominam.