Sonda da NASA já chegou a Marte para desvendar o mistério da sua atmosfera perdida

Maven fez viagem de dez meses. Nas próximas seis semanas vai testar o equipamento e irá observar um cometa que vai passar perto de Marte. Esperam-se os primeiros resultados científicos na Primavera.

Uma representação da sonda <i>Maven</i> com Marte ao fundo
Foto
Uma representação da sonda Maven com Marte ao fundo Goddard Space Flight Center/NASA/Reuters

Onze anos depois do início do projecto, a sonda Maven da NASA chegou finalmente na madrugada desta segunda-feira ao seu destino, a atmosfera de Marte. Durante o próximo ano terrestre irá analisar a atmosfera do planeta vermelho e, com isso, ajudar os cientistas a compreender a sua evolução.

“Já não tenho mais unhas, mas conseguimos”, desabafou Colleen Hartman, directora científica da NASA no Centro de Voo Espacial Goddard, em Greenbelt, Maryland, Estados Unidos, citada numa notícia da Reuters. “É incrível”, disse durante a transmissão televisiva da NASA da entrada da sonda.

Depois de percorrer 71 milhões de quilómetros desde 18 de Novembro de 2013, quando saiu da Terra, a Maven fez nesta madrugada a última manobra de entrada na atmosfera marciana: uma travagem de 33 minutos com os seus seis propulsores para reduzir a velocidade de 20.600 quilómetros por hora para 16.093 quilómetros por hora.

Às 3h30 da madrugada desta segunda-feira (hora de Lisboa), o aparelho passou pelo pólo norte de Marte e entrou numa órbita à volta do planeta entre os 380 quilómetros e os 44.600 quilómetros. “Demorou 11 anos desde o conceito original da Maven até termos a nave na órbita de Marte”, disse Bruce Jakosky, o investigador principal da Maven no Laboratório de Física Atmosférica e Espacial da Universidade do Colorado, em Boulder. “Estou ansioso para começar a nossa missão científica”, acrescentou, citado num comunicado da NASA.

Nas próximas seis semanas os cientistas vão testar e verificar o estado dos instrumentos da sonda, que custou 544,62 milhões de euros. Depois, começará a missão científica de um ano terrestre, o equivalente a meio ano marciano. Os primeiros resultados estão previstos para a Primavera de 2015, de acordo com o jornal norte-americano New York Times.

Esta missão chama-se Mars Atmosphere and Volatile Evolution Mission (Maven é quase o acrónimo deste nome). Em português seria qualquer coisa como Missão da Evolução da Atmosfera e dos Voláteis de Marte, o que descreve sucintamente o objectivo deste projecto.

“A Maven é a primeira sonda dedicada a estudar a atmosfera superior de Marte, e vai aumentar muito a nossa compreensão da história da atmosfera marciana, como é que o clima mudou ao longo do tempo, e como influenciou a evolução da superfície e o potencial de habitabilidade do planeta”, explicou Charles Bolden, administrador da NASA, citado no comunicado da agência. “Vai também informar-nos melhor para uma missão futura de envio de humanos para o planeta vermelho, na década de 2030.”

Hoje, a atmosfera marciana é 100 vezes mais fina do que a atmosfera terrestre. A pressão atmosférica é tão baixa que na superfície do planeta uma gota de água iria evaporar-se imediatamente. Os cientistas acreditam que o planeta nem sempre teve estas condições. Na paisagem marciana há vales escavados que indicam ter havido grandes quantidades de água. Pensa-se que há 4000 milhões de anos o planeta vermelho tenha sido muito mais parecido com a Terra, com uma atmosfera densa, mares e talvez até vida.

A hipótese avançada pelos cientistas é a de que Marte deixou de ter actividade vulcânica, o que fez desaparecer o campo magnético — que ainda perdura na Terra. Este campo servia como escudo do vento solar, composto por partículas energéticas vindas do Sol. Desde então, estas partículas têm erodido a atmosfera do planeta, tornando-a mais fina, e permitindo que os gases se tenham escapado para o espaço, tornando o planeta frio e seco.

Esse processo ainda não terá terminado, e vai ser agora estudado pela Maven, que vai medir a composição, a estrutura e os gases que estão a escapar na atmosfera superior. Além disso, a sonda vai fazer cinco mergulhos na atmosfera de Marte de uma altitude de 150 quilómetros para os 125 quilómetros. Desta forma, os cientistas vão obter informações sobre a fronteira entre a atmosfera superior e as camadas que estão mais abaixo.

Encontro com cometa
A sonda, que tem ao todo oito instrumentos, vai ainda caracterizar o vento solar que atinge a atmosfera do planeta vermelho e a sua ionosfera, além de medir a composição de isótopos e de partículas atómicas.

Mas antes, já a 19 de Outubro, a Maven vai ter a oportunidade de se concentrar num fenómeno exterior. O núcleo do cometa Siding Spring vai passar a apenas 132.000 quilómetros de Marte, e despejar uma quantidade de partículas para cima da atmosfera marciana.

“Se uma quantidade significativa de pó acertar na atmosfera superior, vamos ver aumentos na temperatura”, explicou Bruce Jakosky, citado numa notícia da BBC News. “Além disso, a água do cometa vai atingir a atmosfera superior e vai povoá-la com uma quantidade extra de partículas. Vamos olhar para esta perturbação, para o aumento de energia e matéria, e vamos observar quanto tempo vai demorar a decompor-se. Isso vai informar-nos sobre os processos físicos que estão a ter lugar hoje na atmosfera superior.”

A Maven vai juntar-se a outras três sondas activas que giram em torno do planeta vermelho, duas da NASA e uma da Agência Espacial Europeia. No terreno, estão ainda dois robôs activos, também da NASA: o Curiosity e o Opportunity. Mas esta é a semana das chegadas ao quarto planeta do Sistema Solar. Na madrugada de quarta-feira, se tudo correr bem, a sonda indiana Mangalyaan vai atingir a atmosfera marciana.