Desenhos que falam

A partir de 16 de Outubro, os Açores vão ouvir falar de um colectivo de designers que quer pôr o mundo a discutir (mas sobretudo a ver) o que é isso das migrações.

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Num mural com fundo amarelo vê-se um conjunto de pictogramas: num, uma figura feminina tem o coração partido ao meio; noutro, uma família compõe-se — pai, mãe e criança, que se esconde atrás da saia da mãe; noutro ainda, uma figura também feminina esboça um sorriso triste e soçobra ao peso dos livros que carrega nos braços. Este mural está em Berlim, mas podia estar em Buenos Aires, Hamburgo, Sevilha, Salzburgo, Colónia ou Viena, cidades por onde já passaram os workshops promovidos por Marula Di Como e Florencia Young com as comunidades imigrantes locais (Marula é artista e Florencia designer gráfica). 

Os desenhos são simples na sua expressão vectorial, mas a mensagem quer-se universal: “A mobilidade, a migração e transculturalidade não são já excepções mas um fenómeno do nosso tempo. Contudo, o que sente um imigrante e quais as suas experiências [no novo país] pode passar despercebido ao resto da população”, explica o Colectivo Migrantas, que usa o design gráfico para comunicar sentimentos e emoções.

A ideia começou no início da década de 2000, quando Di Como e Young partiram de Buenos Aires para trabalhar na Alemanha e se viram, também elas, nessa condição de recém-chegadas a uma terra estranha. Como se partilham experiências? Como se estendem laços para fora do círculo das amizades que falam a mesma língua? Como se garante o sonho dos muitos que partem dos seus países de origem para procurar melhores condições de vida? Foram perguntas assim que serviram de semente para lançar os primeiros workshops: as pessoas reúnem-se para discutir as suas experiências, o que as deixa traumatizadas ou lhes traz felicidade; e desenham para mostrar como se vêem e são vistas. 

Deste trabalho, e com os devidos apoios financeiros de entidades públicas, saem os pictogramas que chegam depois a mupis, murais, paragens de autocarros, sacos de compras, postais no escaparate de um qualquer posto de turismo. É o que vai acontecer em São Miguel, Terceira e Faial daqui a um mês, quando estas ilhas forem invadidas por uma consciencialização sobre o outro que chega via design gráfico. “Os Açores tiveram a sua história de diáspora até aos anos 70 mas desde finais da década de 1990 que passámos a acolher [imigrantes]. É pegar na nossa experiência para melhor integrar quem chega”, explica André Santos, da Cooperativa Cultural MaLA, que, juntamente com Susana Sousa, está a organizar esta iniciativa — segundo os números dos Serviços Regionais de Estatística referentes a 2012, 36% da população do arquipélago é imigrante, com destaque para Cabo Verde e Brasil, e a maioria concentra-se em Ponta Delgada.

No dia 16 de Outubro, a designer Florencia Young e a artista Marula Di Como vão estar no Instituto Cultural de Ponta Delgada “para desenhar e reflectir”. Sobre as questões da transumância dos nossos dias, mas sobretudo sobre “a condição humana”, como rematam numa conversa por email

Saber mais em: www.malacooperativa.org