O “general que pensa” promoveu o seu país mas não lutou contra a corrupção

Presidente Yudhoyono, que era comandante militar em Timor na altura do referendo da independência, destacou-se na cena internacional.

Yudhoyono tem uma doutrina para a Indonésia: um país “com um milhão de amigos e zero inimigos”
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Yudhoyono tem uma doutrina para a Indonésia: um país “com um milhão de amigos e zero inimigos” Supri/REUTERS

O “general que pensa”, Susilo Bambang Yudhoyono, foi o primeiro Presidente indonésio eleito pelo povo, após a queda do ditador Suharto, em 1998. Eleito com maiorias de 60%, seria de pensar que ao despedir-se – deixa o cargo a Joko Widodo, a quem chamam o “Obama indonésio, a 20 de Outubro –, deixava uma boa memória aos indonésios. Mas não. É antes nos palcos internacionais que deixa a sua herança.

A política económica e a incapacidade em debelar a corrupção deixaram insatisfeitos mais de 70% dos indonésios, diz a revista The Diplomat. Nas eleições legislativas de Abril, o Partido Democrático de Yudhoyono teve apenas 10%, quando em 2009 teve 21%.

Aliás, a despedida de Yudhoyono é marcada por um apertar do cerco à sua administração pela Comissão de Erradicação da Corrupção. O seu ministro da Energia e dos Recursos Minerais, Jero Wacik, está a ser investigado por extorsão e subornos no valor de 841 mil dólares.

Mas a corrupção é um problema estrutural da Indonésia, que surge em 114.º no índice de 183 países da organização Transparency International (estava no 100 no ano anterior), que também considerou o Parlamento de Jacarta como a instituição mais corrupta do país.

O problema é agravado pela organização administrativa indonésia, um país de 7000 ilhas habitadas, 400 grupos étnicos que falam 700 linguagens e 250 milhões de pessoas, que passou por um processo de descentralização radical a partir de 1999, em resposta ao referendo sobre a independência de Timor-Leste. Para tentar evitar que outras províncias declarassem a independência, o Presidente Habibi, herdeiro de Suharto, descentralizou entregando a maioria dos poderes e do dinheiro para a gestão local não às províncias mas para o nível abaixo, os distritos. Este sistema ajudou não a criar uma cultura política de “patrocínios” políticos, de difícil controlo pelas autoridades judiciais, e de falta de coerência sobre o desenvolvimento económico e territorial.

O antigo general estava destacado em Timor-Leste na altura do referendo de 1999 e respondia directamente ao comandante das Forças Armadas, general Wiranto. Era chefe dos Assuntos Territoriais, dizem no livro Masters of Terror: Indonesia's Military and Violence in East Timor os investigadores Richard Tanter, Geert Arend van Klinken e Desmond Ball (Austrália e EUA), que por isso o apontam como cúmplice da violência. Nunca surgiram, no entanto, acusações concretas contra Yudhoyono.

O que o Presidente tem sido nos últimos dez anos é um incansável promotor do seu país, sempre disposto a falar da experiência indonésia de transição para democracia. A sua imagem é a de um líder de um país muçulmano moderado, onde a economia tem crescido ao ritmo de 6% ao ano, e que se tem afirmado como um líder regional, através do fórum ASEAN e outras organizações.

Um país “com um milhão de amigos e zero inimigos” é a sua doutrina, que deixa para Joko Widodo – de qual não se conhecem outras linhas programáticas para as relações internacionais. É uma mistura da tradicional ligação da Indonésia aos não-alinhados, mantendo-se de boas relações com o Ocidente, para fazer singrar a economia. Isso tem-lhe permitido defender posições virtuosas, como sugerir que o Presidente sírio Bashar Al-Assad deixasse o poder para haver uma transição de poder, mas abster-se na votação de uma resolução no Conselho de Segurança da ONU condenando o regime sírio, sublinhou na Diplomat Ted Piccone, vice-presidente da Brookings Institution.

A Indonésia também não ratificou o estatuto do Tribunal Penal Internacional – o argumento é que o país já tem leis de direitos humanos, e tribunais para julgar eventuais ofensas contra eles. Embora o tribunal com sede em Haia não actue retroactivamente, os crimes cometidos durante o regime de Suharto pesarão na decisão do poder político de Jakarta.