Nove anos, milhões de festas, uma vida

Nove anos de concertos, edições, milhões de festas, histórias delirantes. A editora e promotora Lovers & Lollypops está de parabéns. Celebremos com eles até domingo, com concertos de Lust For Youth, Negra Branca, The Glockenwise, Gonçalo e Ghuna X.

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A equipa Lovers & Lollypops: Eduardo Maltez, Fua, Jonathan Tavares da Silva, Márcio Laranjeira NELSON GARRIDO
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A equipa Lovers & Lollypops: Eduardo Maltez, Fua, Jonathan Tavares da Silva, Márcio Laranjeira NELSON GARRIDO

As histórias dos primeiros nove anos da Lovers & Lollypops davam para encher um livro. Mas a noite de 25 de Setembro de 2006 foi particularmente memorável: concerto no Porto Rio dos Liars, banda que “nem nos melhores sonhos” eles imaginavam conseguir trazer ao Porto, com uns na altura desconhecidos Deerhunter a abrir, e a casa do promotor transformada num Hotel Chelsea dos pobres. “Os Lobster dormiram na minha despensa, os Gâtechien nas escadas e os Deerhunter debaixo da mesa de jantar. Sem esquecer as oito pessoas que viviam comigo. Mas dei a minha cama ao Bradford Cox [o enfermiço cabecilha dos Deerhunter]. Não o podia ver a dormir na tijoleira lá de casa, não queria ser culpado pela morte dele”, conta Joaquim Durães, mais conhecido por Fua, responsável por esse momento solene da cena musical portuguesa: o nascimento da promotora e editora independente Lovers & Lollypops.

Foram eles que colocaram o Porto na rota dos concertos internacionais e nacionais à margem do mainstream, que nos deram o Milhões de Festa, o festival em que a música realmente importa (e nestes tempos isso já é excentricidade), que ajudaram bandas sem as quais a música portuguesa já não seria a mesma, como os Black Bombaim e The Glockenwise, a fazerem-se à vida. O nono aniversário desta bendita milícia é celebrado no Porto com uma série de concertos entre hoje e domingo, encabeçados pelos Lust For Youth.

O prefácio desta história data de 2004. Antes de a Lovers & Lollypops existir, Fua já organizava concertos pelas aldeias da sua cidade natal, Barcelos, que se resumiam a “um palco montado em cima de uma carrinha de caixa aberta com colunas e bagaço a 50 cêntimos”. Nesse ano ajudou a fazer um festival chamado Pesadelo Rock com a A.C.D.C., a Associação Cultural e Desportiva de Carapeços, provavelmente a claque de futebol com o nome mais rock de sempre. “Se corresse bem toda a gente ganhava dinheiro, se corresse mal partiam-me as pernas."

Correu bem. E ele aproveitou o dinheiro para fazer o projecto de final de curso em Barcelona: um documento multimédia sobre a cena musical daquela cidade, à época (2004, recorde-se) um autêntico viveiro musical por onde passava todo o indie rock que interessava, de !!! a Lightning Bolt, e local iniciático de bandas como Delorean ou El Guincho.

Depois de ter sido apanhado no meio daquele frémito de músicos, editoras e promotores, não havia outro caminho a seguir: tentar fazer o mesmo no Porto, numa lógica de partilha e amizade que fosse de Norte a Sul. E assim nascia a Lovers & Lollypops, em Setembro de 2005. A toda a brida, Fua, com o acólito João Pimenta (antes de Green Machine, agora de 10 000 Russos), reuniu uma série de bandas obscuras de vários pontos do país – Veados com Fome, Lobster, Green Machine, Ovo, Frango – e foi à procura “de todos os buracos onde eles pudessem tocar”. Em Lisboa, por exemplo, cultivou boas relações com a malta da ZDB, do Lounge e da Filho Único.

Editar esta gente toda também se tornou missão primordial, com CD-R feitos à mão e entregues na Copidouro mais próxima, qual operação monumental de desenrascanço. Os concertos não eram excepção. “Na nossa frase bracarense, em 2007, tínhamos de fazer tudo: carregar os PA, fazer limpeza, tratar do bar e da bilheteira, desmontar tudo e trazer para o Porto”. (Impossível não pensar na máxima dos Minutemen, “we jam econo”). Foi também em Braga, em 2007, que a Lovers fez o segundo Milhões de Festa pré-Barcelos (o primeiro foi no Porto em 2006, no bar Uptown), reunindo no Censura Prévia boa parte dos nomes nacionais que importava ouvir na altura: Lobster, Riding Pânico, If Lucy Fell, Motornoise, Aquaparque, Xinobi, Nimai, entre outros.

No Porto, a casa-mãe, a coisa explodiu em 2007/2008. Concertos de bandas portuguesas e estrangeiras passaram a ser o pão nosso de cada dia, com a Lovers a praticar serviço público. Momentos épicos, daqueles para levar para a cama do hospital aos 80 anos, foram muitos: a javardice libertária do garage rock dos Black Lips a atingir níveis de insanidade perigosos no Porto Rio, com o público com o diabo no corpo; os Magik Markers no Maus Hábitos, amedrontados com o vendaval de riffs e bateria dos Lobster, na primeira parte; ou a sessão ascética em grupo com as canções frágeis e de uma beleza indizível de Grouper, no Plano B.

A partir de 2009 a equipa foi crescendo. Márcio Laranjeira passa a ser o braço direito de Fua, Eduardo Maltez o director de produção, Jonathan Tavares da Silva com um pé na produção e outro no booking, Fábio Costa como ponta-de-lança em Lisboa, Ana Beatriz Rodrigues a tratar da parte promocional, André Forte na imprensa. Há uma fase pré-Milhões e pós-Milhões na vida da Lovers. “O primeiro Milhões de Festa em Barcelos, em 2010, foi muito importante para nós”, assinala Márcio Laranjeira. “Passámos a fazer mais edições e passou a ser muito mais fácil chegar a certas pessoas e captar a atenção de promotores maiores e de salas mais institucionais” – não é por acaso que fizeram a produção do último Serralves em Festa e da primeira edição do festival Reverence Valada.

Mas para chegar aqui foi preciso perder “muitos neurónios, anos de vida, tempo e dinheiro”, e aguentar momentos menos fáceis – como aquele dia em que Fua e os Lobster tiveram de contar os trocos e vir de França para Portugal de comboio só com cinco litros de água e chocolates. “Todos nós dependemos financeiramente de outro trabalho. Mas ainda há gente que pensa que estamos cheios de dinheiro. Há quem diga à minha mãe, em Barcelos, que eu estou muito bem na vida”, conta Márcio, entre risos.

A partir de 2012, com os portuenses a virarem-se mais para os copos do que para os concertos, a Lovers começa a alargar tentáculos para a capital, quase como um segundo recomeço. “O que o Fábio está a fazer agora em Lisboa é um bocado a Lovers no início: a Isto Não É Uma Festa Indie [de dois em dois meses no Lounge], as Tainas [festas ao fim da tarde com concertos, DJ sets e comes e bebes, sem regularidade fixa], concertos de pequena dimensão…”, explica Fua.

O futuro

Chegada aos nove anos, a Lovers fez pela primeira vez questão de celebrar um aniversário – ou, como eles dizem, “a vida que escolhemos”. “Surgiu por acaso. Tínhamos uma série de bandas com vontade de nos visitar e amigos que queriam mostrar coisas novas. Juntamos, então, vários concertos com o mote do aniversário: 9 anos de bailes sem cerimónias”, refere Fua.

Depois de uma celebração mais modesta em Lisboa, o Porto recebe uma festança com vários capítulos: ontem os japoneses Kufuki visitaram o Passos Manuel; hoje, pelas 22h, o Café au Lait recebe as canções melífluas e aconchegantes de QUIM, o EP de estreia de Gonçalo (aventura a solo de Gonçalo Alvarez, dos Long Way To Alaska), com convidados a juntarem-se à festa, e as danceterias de Lovers & Lollypops Soundsystem. Amanhã, pelas 17h, o jardim do clube de bairro Praça da Alegria F.C. fica entregue à electrónica saturnina e hipnótica de Negra Branca (Marlene Ribeiro, dos Gnod), aos (sempre bem-vindos) choques da electrónica percussiva e terrífica de Ghuna X, ao HystericalOneManOrchestra, o novo projecto de Filipe Silva dos HHY & The Macumbas, e a uma série de DJ/produtores.

Por fim, no domingo – e já que estamos num aniversário –, que melhor maneira haveria de celebrar a juventude e estar vivo com os concertos dos The Glockenwise e dos convidados especiais Lust For Youth, banda do catálogo superlativo da Sacred Bones que anda a encantar muito boa gente com uma electrónica cristalina e fantasista, carregada de sintetizadores que filtram vestígios da new wave e do pós-punk. No Maus Hábitos, às 17h, em parceria com a Revolve.

Este aniversário marca também o reactivar das edições em cassete, com design aprimorado, na subsidiária Tapes, She Said, uma forma de editar concertos que gravaram ao vivo de bandas maiores como os Eyeategod ou Föllakzoid, e fazer edições mais pequenas de bandas dentro e fora da Lovers, como a cassete com três canções novas dos The Glockenwise (haverá material à venda nos concertos de domingo). No futuro próximo chegarão novos discos de Jibóia (com Sequin), The Glockenwise, Duquesa, Equations e Memória de Peixe.

Nos concertos, destaca-se o regresso do 20, 20, 20 (mini-festival de uma noite com 20 bandas, 20 DJ e 20 ilustradores), com um round no Porto e outro em Lisboa, e os Future Islands no Hard Club, a 24 de Outubro, em mais uma colaboração de sucesso com a Amplificasom. Já o Milhões de Festa está assegurado pelo menos até 2017 e para continuar a tentar trazer aquelas bandas-desejo que estão na folha de Excel desde o primeiro festival, como os Melvins.

Tudo isto, há nove anos, era uma miragem. “Há uns anos trouxemos cá os [espanhóis] Cuzo e eles estavam super emocionados com a cena musical portuguesa. Estavam tentar a fazer o mesmo em Barcelona. Ou seja, o contrário do que eu fiz em 2005. É curioso, este círculo”, diz Fua. E ainda bem – para nós, para eles – que eles escolheram esta vida.