A música pimba no palco de Bruno Nogueira

Quim Barreiros, Nel Monteiro, Mónica Sintra ou Ágata são levados para terras da canção jazz ou pop/rock por Bruno Nogueira e Manuela Azevedo. Deixem o Pimba em Paz, depois de várias datas pelo país, apresenta-se quinta e sábado nos Coliseus de Lisboa e Porto. Sem querer salvar ou crucificar a chamada música pimba.

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Filipe Ferreira
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Bruno Nogueira chama a Deixem o Pimba em Paz “um espectáculo de desconstrução”.

 E, de facto, quando o ouvimos declamar 24 Rosas, de José Malhoa, em tom de diseur latino romântico ou cantar Azar na Praia, de Nel Monteiro, como se fosse um tema entre o dixieland de Nova Orleães e a música de saloon, ou até mesmo quando Manuela Azevedo (dos Clã) agarra em Sozinha, de Ágata, e a transforma numa canção que poderia ser recuperada do reportório teatral/cabaret de Édith Piaf, percebemos que aquilo a que se chama pimba está a ser desmantelado diante dos nossos olhos e ouvidos. E se o riso – por se tratar de Nogueira e o arranque se fazer com esse tom inesperadamente enfático de 24 Rosas – ainda sai com facilidade de início, logo se percebe que a presença do humor em Deixem o Pimba em Paz é quase fortuita e trazida sobretudo à tona sempre que emergem criações de Quim Barreiros.

“Há temas que são propositadamente engraçados”, reconhece Bruno Nogueira ao PÚBLICO. “O Quim Barreiros tem muito disso, desses temas mais brejeiros, com letras muito engraçadas – nem que eu tirasse quatro cursos lá fora conseguiria fazer o mesmo e para ele aquilo é natural.” E exemplifica com o refrão que nos ensina que o melhor dia para casar “É o 31 de Julho / porque depois entra Agosto”. “Isto, para mim, não é Alexandre O’Neill mas está lá perto”, comenta. Depois, há um conjunto de outras canções que “infelizmente para os autores, são tão trágicas que dão a volta e acabam por ser desconfortavelmente engraçadas”. “Gosto desse desconforto porque a música não foi feita com esse fim. Essas músicas, de forma um pouco perversa, dão-me um quentinho”, confessa. Entre elas incluir-se-á, provavelmente, Vem Devagar, Emigrante um trágico épico familiar da autoria de Graciano Saga que Manuela Azevedo reconhece ter sido “essencial e quase de definição” daquilo que procuravam para o projecto.

O projecto nada tem de risível quando Na Minha Cama com Ela (Mónica Sintra) é apresentada com um insuspeito fulgor pop ou Comunhão de Bens (Ágata) se mostra como uma sombria e dramática balada ao piano, tudo cortesia dos arranjos do pianista de jazz Filipe Melo e do guitarrista pop/rock Nuno Rafael (director musical de Sérgio Godinho). A prova de que as cartas se baralham na totalidade é inequívoca nos convidados chamados ao palco: Camané e Marante (cantor do Grupo Diapasão), predisposto a levar o seu tema Som de Cristal para terras de um crooning que Tony Bennett e Jamie Cullum não desdenhariam, numa canção que fazia parte da “fantasia de música pimba” de Nogueira. E que obriga à conclusão de que tudo está nas pequenas escolhas de cada um. Se Marante cantasse habitualmente neste registo a sua imagem pública seria outra. A mesma coisa se tivesse calhado Camané ser vocalista do Grupo Diapasão.

“Isto está para lá do humor”, defende Manuela Azevedo, colocando Deixem o Pimba o Paz no mesmo patamar de Odisseia, a série que Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington criaram para a RTP. “A maneira de o Bruno utilizar o humor faz-nos olhar para as coisas de forma diferente, é mais desafiante do que parodiante, e acho que quem gosta do trabalho dele gosta dessa vertigem que ele coloca naquilo que faz. Embora haja coisas que nos fazem rir, têm que ver com desconstrução, com rirmo-nos de nós próprios, da realidade e dos clichés de muita gente.”

Deixem o Pimba em Paz funciona, por isso, como um espelho de efeito duplo virado para o país. Por um lado, celebra de forma descomplexada a sua cultura popular, mais genuína e menos preocupada com aquilo que deve ou não ser, confrontando o público com essa massa de povo de que faz parte (enquanto em palco os intérpretes assumem a sua inscrição nessa cultura, mesmo que torcendo-lhe alguns códigos). Por outro, obriga também cada um a escarafunchar nas suas certezas e nos seus preconceitos. São as subcamadas óbvias debaixo do desejo inicial e simples de montar um espectáculo. “Fizemos isto para nos divertirmos”, diz Nogueira. “Não queremos dar lição nenhuma, não há aqui nenhuma moral nem nenhum olhar sobranceiro sobre a música. Não temos vontade nem nos cabe esse papel de evangelizar pessoas para o que quer que seja. Isto não pretende pôr a música pimba num altar nem num cadafalso É só um espectáculo.”

Além-refrão

A ideia para Deixem o Pimba em Paz – título que evoca uma canção de Graciano Saga – foi tomando forma a partir de algumas experiências de Bruno Nogueira e Nuno Rafael em que tentavam “descaracterizar a música pimba”. Após uma primeira experiência ao vivo, o resultado foi suficientemente animador para concluírem que tinham em mãos algo merecedor de ser expandido. “Como correu relativamente bem decidimos aprofundar a coisa para a queda ser maior”, relata o humorista. “E então juntámos mais malta que se responsabilizasse também pelo crime.”

Nessa altura, não sabiam ainda bem que caminhos musicais poderiam tomar, nem sequer tinham um reportório definido. Nogueira, por exemplo, pensara em abordagens que pudessem ter por referência o imaginário musical de Tom Waits, algo que fosse “um pouco disfuncional” relativamente aos temas de origem. Mas só depois, com Filipe Melo a juntar-se a Rafael na direcção musical, o reportório começou a tomar forma, com o background de ambos (e do contrabaixista Nelson Cascais) a baralhar ainda mais as abordagens possíveis. Manuela Azevedo, “a melhor cantora portuguesa” na opinião do comediante, foi escolhida pela necessidade imperiosa de “alguém para cantar”. A cantora aceitou por ser “uma rapariga do Norte e do campo”, justifica a voz dos Clã. “No Norte somos muito afinados em termos de humor, gostamos de nos rir de nós. E sendo uma rapariga do campo estou habituada a romarias e a festas populares desde miúda e à alegria que isso é.”

A despistagem musical serviria depois para reforçar um dos objectivos de Bruno Nogueira e restante equipa: colocar o foco nas letras, em tudo aquilo que fica para lá dos refrães que todos trauteiam sem hesitações – evidência comprovada desde que o espectáculo estreou em Setembro de 2013 no Teatro São Luiz, em Lisboa, e lentamente foi alastrando pelo país, com a celebração desse percurso marcada para os concertos desta quinta-feira, no Coliseu dos Recreios (Lisboa), e sábado no Coliseu do Porto. “O sumarento, 80% das vezes, está no além-refrão”, acredita Nogueira, a que poucos ligam enquanto estão distraídos a dar corda ao corpo no bailarico da terra ou da universidade, e que, portanto, leva a que durante o presente espectáculo se processe um jogo de adivinhação do tema tocado em palco antes da revelação colectiva que é a chegada ao refrão.

Os concertos têm confirmado também a convicção do comediante de que “a música pimba consegue uma coisa que a maior parte dos géneros musicais não consegue: é atravessar faixas sociais e etárias.” Mas Bruno Nogueira diz-se atraído sobretudo pelo “ambiente popular, pelas feiras, pelas festas, por todo aquele ambiente e alguma decadência nalguns casos, e pelo ar triunfal com que por vezes se canta num palco feito de paletes”. Lançado entretanto em CD, Deixem o Pimba em Paz poderá comprometer a médio prazo o atractivo de grande parte do público comprar um bilhete para o desconhecido. Mas a passagem de temas como Garagem da Vizinha, Cabritinha ou Pito Mau para disco fazem o humorista continuar a sonhar com o dia em que, ao atender o telefone, venha a ser saudado por Quim Barreiros.

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