Morreu Ian Paisley, o "Sr. Não" da Irlanda do Norte

Antigo líder unionista que sempre rejeitou a paz com os republicanos, acabou por aceitar partilhar o poder com o Sinn Féin em 2007.

Paisley opôs-se aos acordos de Sexta-feira Santa
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Paisley opôs-se aos acordos de Sexta-feira Santa Kieran Doherty /Reuters

O reverendo Ian Paisley, que marcou com as suas violentas diatribes anti-independentistas a vida política da Irlanda do Norte durante mais de meio século, morreu aos 88 anos, anunciou nesta sexta-feira a sua mulher.

Aquele que liderou o campo unionista com mão de ferro e intransigência para com os inimigos – era conhecido por “Sr. Não” –, acabou por ter o seu momento de redenção ao aceitar partilhar o poder com os republicanos do Sinn Féin.

Radical defensor da ligação a Londres e contra qualquer concessão aos republicanos, Paisley opôs-se aos acordos de Sexta-feira Santa - chegou mesmo a chamar traidor a David Trimble, o líder unionista que em 1998 negociou a paz. Mas em 2007, aceitou formar um executivo com os arqui-rivais do Sinn Féin, tendo Martin Mcguinness, antigo comandante do IRA, como seu vice.

"Era isso que a maioria dos habitantes da Irlanda do Norte queria", explicou anos mais tarde, quando em 2010 anunciou a sua reforma política, aos 83 anos.

Nascido a 6 de Abril de 1926 em Ballymena, filho de um pastor, começou a pregar aos 16 anos e aos 25 fundou a sua própria igreja (a Igreja Livre Presbiteriana). Entra na política em 1963 quando organiza uma manifestação “antipapista”, contra a decisão das autoridades de colocarem a bandeira do Reino Unido a meia haste na fachada da Câmara Municipal de Belfast por ocasião da morte do Papa João XXIII.

Em 1971 funda o Partido Unionista do Ulster (DUP), formação de protestantes conservadores que se opunham a qualquer tipo de acordo com os católicos republicanos.  Cedo, o reverendo Paisley torna-se o líder da ala mais radical e intransigente dos unionistas.

Embora nunca tenha caucionado publicamente o terrorismo lealista, o reverendo lançou várias organizações paramilitares unionistas que se dedicaram, entre outras acções, a contestar violentamente o movimento dos direitos cívicos criado pelos republicanos para abolir as discriminações de que eram vítimas nos anos 1960. Em 1968 chegou a estar preso durante seis semanas depois de ter bloqueado com os seus apoiantes uma marcha pelos direitos cívicos.

Sempre polémico, do alto dos seus quase dois metros e portador de umas potentes cordas vocais, o reverendo nunca deixava de sublinhar as suas convicções. Em 1997 lançou uma campanha para “salvar o Ulster da sodomia” quando o Reino Unido discutia a despenalização da homossexualidade. No Parlamento Europeu, para onde foi eleito em 1979, disse que o Papa era o anticristo, o que lhe valeu a expulsão do hemiciclo.

“Sr. Não”, “Senhor Nunca”, Ian Paisley até chegou a virar as costas à própria Rainha Isabel II quando lhe chamou “um papagaio dos trabalhistas” na altura em que Tony Blair negociava os acordos de Sexta-feira Santa em 1998 que permitiram a partilha de poder entre católicos republicanos e protestantes unionistas depois de 30 anos de “troubles”. A piada, entre norte-irlandeses, era que “a última vez que Paisley disse ‘sim’ foi no dia do seu casamento”.

Menos de dez anos mais tarde, o DUP aceita partilhar o poder com o Sinn Féin. Os dois partidos tinham sido os mais votados nas eleições para assembleia da Irlanda do Norte de 2007 e durante um ano será Paisley o primeiro-ministro ao lado do seu vice, Martin McGuiness. O próprio reverendo reconheceu, depois de apertar a mão ao antigo líder militar do IRA, o braço armado do movimento republicano: “Se alguém me tivesse dito que um dia eu faria isto, nunca teria acreditado”.